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Apetite à automação: por que SecOps só escala quando fazemos mais com menos

Como definir prioridades, evitar frustrações e usar automação para transformar pressão operacional em eficiência. Por Rodrigo Rocha

Hoje estive no Instituto Caldeira, em Porto Alegre, gravando um podcast para o SecOps. O tema foi automação, mas a conversa rapidamente saiu do lugar comum. Não falamos de automação como moda, nem como substituição de pessoas, e sim como resposta concreta a um cenário que todos nós já conhecemos: recursos limitados — humanos, financeiros, de tempo e de conhecimento — convivendo com demandas que só crescem. Nesse contexto, eficiência deixa de ser virtude e passa a ser condição de sobrevivência.

Foi durante esse bate-papo que trouxe uma provocação: ao mesmo tempo em que falamos em apetite ao risco, deveríamos também estar falando em apetite por automação. É esse apetite que dita o ritmo de evolução do SecOps e define o quanto conseguimos transformar pressão operacional em eficiência real. Empresas que não discutem isso de forma consciente acabam cometendo um erro recorrente: automatizam aquilo que não gera resultado claro ou, pior, aquilo que interfere diretamente na operação do negócio. O efeito costuma ser imediato e negativo. Interrupções, ruídos e, principalmente, desmotivação. A automação passa a ser vista como problema, quando na verdade o problema foi a escolha do que automatizar.

Automação em SecOps exige critério. Ela precisa nascer de um entendimento claro de resultado. Automatizar algo mal definido só acelera o erro e amplia o impacto. Por isso, o ponto de partida não é a ferramenta, é a dor. Onde o time perde mais tempo? Onde há repetição diária? Onde o atraso aumenta risco real para o negócio? Quando essas perguntas são bem respondidas, a automação deixa de ser um projeto grande e passa a ser uma sequência de pequenas entregas. São esses avanços que permitem fazer mais com menos, sem comprometer a estabilidade do ambiente.

A inteligência artificial entra como uma aliada importante nesse processo, mas não como piloto automático. Ela ajuda a classificar eventos, sugerir correlações, reduzir ruído e apoiar decisões, desde que o olhar humano permaneça atento ao impacto e ao resultado. IA sem direcionamento vira mais uma camada de complexidade. IA bem aplicada amplia a capacidade do time, principalmente quando o objetivo é ganhar tempo e reduzir esforço cognitivo em tarefas de baixo valor analítico.

Há também um ponto prático que costuma passar despercebido: as ferramentas que já usamos oferecem muito mais automação do que exploramos. SIEM, EDR e firewalls modernos possuem capacidades nativas de resposta automática, enriquecimento de eventos, bloqueios condicionais e isolamento controlado de ativos. O problema raramente é falta de tecnologia; quase sempre é falta de profundidade no uso. Conhecer bem as soluções de cibersegurança que fazem parte do ambiente é condição básica para enxergar automações possíveis que não afetam a operação e trazem ganho imediato.

Por isso, o convite é direto. Antes de pensar em grandes transformações, vale buscar quick wins. Automatizar o fechamento de falsos positivos recorrentes, o bloqueio de indicadores já validados, a abertura de tickets com contexto técnico completo, o isolamento criterioso de endpoints que claramente saíram do padrão. Pequenas automações bem escolhidas constroem confiança, criam tração e aumentam o apetite para ir além.

No fim, falar em apetite por automação é falar em maturidade operacional. É reconhecer que não dá mais para operar SecOps de forma artesanal em um mundo onde os ataques são automatizados. Se não houver disposição para automatizar o que gera resultado direto, continuaremos sobrecarregando pessoas, estourando prazos e reagindo sempre depois. Automação não é atalho. É trabalho. Mas é justamente esse trabalho que permite sustentar a operação quando fazer mais com menos deixa de ser escolha e passa a ser realidade.

Rodrigo Rocha

Atuo há mais de duas décadas na área de tecnologia e cibersegurança, ajudando organizações a evoluírem sua postura de proteção com foco em resultados reais. Sou co-fundador da Gruppen IT Security e graduando em Psicologia, unindo segurança digital, comportamento humano e gestão do risco de forma integrada. Escrevo sobre cibersegurança aplicada, cultura digital e resiliência no Café com Bytes.

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