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Como um novo teste da Fiocruz pode mudar o caminho do tratamento da esclerose múltipla

Pesquisa brasileira prevê a resposta ao medicamento natalizumabe antes da terapia, abrindo caminho para tratamentos mais personalizados e eficazes

Receber o diagnóstico de esclerose múltipla está longe de ser apenas a identificação de uma doença. Para muitos pacientes, ele marca o início de decisões complexas, que envolvem incertezas sobre tratamentos, efeitos colaterais e qualidade de vida. Embora a doença ainda não tenha cura, existem terapias capazes de controlar surtos e retardar sua progressão. O desafio é que nem todos os pacientes respondem da mesma forma aos medicamentos disponíveis — um problema que pode começar a ser solucionado por uma pesquisa promissora conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Uma equipe de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) desenvolveu um teste laboratorial capaz de prever, antes mesmo do início do tratamento, se um paciente com esclerose múltipla responderá bem ao natalizumabe, um dos medicamentos mais utilizados atualmente no controle da doença.

Como funciona o teste

A proposta é simples no conceito, mas inovadora na prática. A partir de uma amostra de sangue, os cientistas analisam, em ambiente controlado de laboratório, como as células do sistema imunológico do paciente reagem quando expostas ao natalizumabe. Essa resposta permite indicar se o medicamento terá efeito positivo ou se tende a ser ineficaz.

Na prática clínica, isso pode significar menos tempo perdido com terapias inadequadas, redução de possíveis efeitos colaterais e decisões médicas mais assertivas desde o início do tratamento.

Medicina personalizada na prática

A pesquisa se insere no avanço da medicina personalizada, uma abordagem que leva em conta as características biológicas individuais de cada paciente. Atualmente, estima-se que cerca de 35% das pessoas com esclerose múltipla não respondem adequadamente ao natalizumabe. Sem um teste preditivo, iniciar o tratamento pode se tornar uma aposta arriscada para aproximadamente um em cada três pacientes.

O estudo combina a análise detalhada das células T CD8, fundamentais para a resposta imunológica, com técnicas de aprendizado de máquina. A partir de imagens microscópicas dessas células, algoritmos de inteligência artificial conseguem identificar padrões e transformá-los em predições clínicas, unindo biologia e tecnologia para orientar decisões terapêuticas.

Reconhecimento científico e colaboração internacional

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Nature Communications, uma das mais respeitadas da área. O trabalho contou com colaboração internacional, envolvendo instituições brasileiras e francesas, como a Universidade de São Paulo (USP) e o Hospital Israelita Albert Einstein, reforçando a relevância e a robustez do estudo.

Próximos passos e impacto no SUS

Apesar do avanço, o teste ainda não está disponível como um kit pronto para uso em consultórios médicos. No entanto, ele já funciona de forma consistente em laboratório. A expectativa dos pesquisadores é que, com novos estudos, o método seja simplificado, validado em diferentes populações e, futuramente, possa ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS), possivelmente até a próxima década.

Mais precisão, menos incerteza

O impacto dessa pesquisa vai além da escolha de um medicamento. Trata-se de reduzir incertezas, evitar tratamentos ineficazes e trazer mais precisão à prática médica, especialmente no cuidado de uma doença marcada pela imprevisibilidade, como a esclerose múltipla. Se confirmada em larga escala, a abordagem pode representar um passo decisivo rumo a tratamentos mais humanos, eficientes e personalizados.

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