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Lugar Importa, não o localhost!

Por Diego Baldi

Antes de qualquer framework, ferramenta ou buzzword, existe um princípio básico que a tecnologia insiste em ignorar: lugar importa. Não apenas o espaço físico, mas o contexto, o ambiente, o público e o propósito. Mesmo em rodas de TI, conversando tecnicamente, nem todos estão na mesma área, no mesmo nível ou com a mesma vivência. Backend, infraestrutura, segurança, dados, produto — todos falam “tecnologia”, mas nem sempre falam a mesma língua. Ainda assim, comunicar bem exige estar conectado com todos, inclusive dentro da própria bolha, fazendo-se entender sem precisar empilhar termos como se isso garantisse clareza.

Na tecnologia, esquecemos isso com frequência.

Criamos uma cultura onde falar difícil virou sinônimo de saber mais. Onde empilhar conceitos soa como domínio. Onde a fluência em jargão técnico passou a valer mais do que a capacidade de comunicação. Cloud, On-Premises, Deploy, Rollback, Downtime, Uptime, Scalability, High Availability, Failover, Disaster Recovery, Backup, Patch, Legacy, Technical Debt, DevOps, Observability, Incident, Root Cause, Zero Trust, Framework.

Cada termo desses faz sentido. Cada um tem seu lugar. O problema surge quando todos aparecem juntos, ao mesmo tempo, no ambiente errado. A sopa de letrinhas da tecnologia, quando despejada sem critério, não demonstra maturidade — gera ruído. Não comunica. Impressiona por alguns segundos e cansa logo depois.

Existe uma desconexão silenciosa quando esquecemos que palavras também pertencem a ambientes. Linguagem técnica não é neutra: ela carrega intenção, função e momento. Misturar termos em inglês com frases cotidianas, em conversas que pedem clareza, não é sofisticação. É como pedir leite condensado na feijoada. Não é proibido. Mas claramente não convém.

Maturidade técnica — e humana — começa quando entendemos onde estamos, com quem estamos e para quê estamos falando. Uma reunião de diretoria não é uma daily. Um cliente não precisa de buzzwords para confiar. Um time júnior não aprende melhor porque o vocabulário ficou mais complexo. Pelo contrário: aprende quando o contexto é respeitado.

Na tecnologia, assim como na gastronomia, existem fronteiras. Não porque algo seja errado, mas porque o excesso fora de contexto estraga o todo. Cloud não corrige ausência de processo. DevOps não resolve problema de governança. Framework não substitui pensamento. Zero Trust não é palavra mágica — é postura.

Quando perdemos essa noção, nos desconectamos da realidade que nos cerca. Passamos a falar para impressionar, não para comunicar. A tecnologia vira vitrine. O discurso técnico, que deveria esclarecer, passa a confundir.

E é curioso como a vida cotidiana costuma explicar isso melhor do que qualquer white paper.

Era por volta das 19h30 quando chegamos em casa depois de um dia comum de trabalho. Meu filho, então com a confiança plena que só os sete anos de idade permitem, decidiu preparar sozinho o próprio lanche. Pegou tudo o que gostava na cozinha e resolveu resolver o problema de uma vez só.

O sanduíche foi conceitualmente ambicioso: pão francês, queijo, presunto, margarina, mostarda, tomate, batata palha — e, para fechar, algumas bolachas Oreo no meio do conjunto. Não era um sanduíche. Era uma ideia mal combinada.

A lição estava ali, simples e direta: gostar de algo não significa que ele combine com tudo. Existem contextos. Existem combinações. Existem escolhas que fazem sentido — e outras que só parecem boas até o primeiro teste.

No Café Com Bytes, a reflexão é essa: descomplicar a TI não é empobrecer o discurso. É respeitar o lugar. É escolher bem os ingredientes. É entender que nem tudo que gostamos precisa estar no mesmo prato.

Diego Baldi

Profissional de Tecnologia com mais de duas décadas de experiência em TI, apaixonado por churrasco, comunicação e tudo que envolve boas ideias e bons encontros. Ao longo da minha jornada, atuei em diversos projetos ligados à transformação digital, inovação e segurança da informação, sem nunca perder o olhar curioso e humano sobre as conexões que a tecnologia permite.

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