O que realmente precisamos discutir sobre o vazamento massivo em Pernambuco
Quando milhões de dados vazam, o problema raramente é só técnico. É cultural, organizacional e coletivo. Por Rodrigo Rocha

O vazamento massivo de dados ocorrido em Pernambuco, que expôs informações pessoais de milhões de cidadãos, chama atenção pela sua dimensão, mas não deveria surpreender ninguém que acompanha minimamente o cenário brasileiro de segurança da informação. Casos assim já não são exceção. Tornaram-se recorrentes exatamente porque seguimos tratando proteção de dados como um problema pontual, quando na verdade lidamos com um fenômeno estrutural, sustentado por decisões pequenas, acumuladas ao longo do tempo, e por uma cultura que insiste em empurrar responsabilidades para a frente.
É tentador procurar uma causa única. Um sistema exposto, uma base mal configurada, um fornecedor que falhou. Tudo isso pode até existir, mas raramente explica o todo. Vazamentos desse porte são, quase sempre, o resultado de um ecossistema onde dados circulam demais, são copiados sem critério, acessados por mais pessoas do que o necessário e mantidos por mais tempo do que deveriam. Quando ninguém se sente claramente responsável pelo dado, o vazamento deixa de ser uma possibilidade remota e passa a ser apenas uma questão de tempo.
O caso de Pernambuco expõe uma fragilidade que vai além da tecnologia: a dificuldade crônica de lidar com dados como ativos sensíveis ao longo de todo o seu ciclo de vida. Coletamos muito, classificamos pouco, revisamos menos ainda. Ambientes mudam, contratos terminam, sistemas são substituídos, mas as bases continuam ali, esquecidas, replicadas, acessíveis. A pergunta que raramente é feita é simples: quem é responsável por esse dado hoje, e por que ele ainda precisa existir nesse formato?
Há também um componente humano e organizacional que não pode ser ignorado. Cultura de segurança não se constrói apenas com treinamentos pontuais ou políticas bem escritas. Ela se manifesta nas decisões cotidianas: no acesso concedido “temporariamente” que nunca é revogado, no compartilhamento informal de bases para “ganhar tempo”, na falta de questionamento quando alguém pede mais dados do que precisa. São escolhas aparentemente pequenas, feitas por pessoas diferentes, em momentos distintos, que somadas criam um ambiente propício ao desastre.
Nesse contexto, a responsabilidade é distribuída. Lideranças que não priorizam o tema, gestores que não revisam processos, times técnicos sobrecarregados, fornecedores mal supervisionados, todos contribuem, direta ou indiretamente, para o cenário que vemos se repetir. E há ainda um ponto menos discutido, mas igualmente importante: a responsabilidade de quem, por qualquer motivo, entra em contato com dados sabidamente vazados. Usar, compartilhar ou explorar esse tipo de informação não é um ato neutro. É uma escolha ética que perpetua o dano e amplia o impacto sobre pessoas que já foram expostas sem consentimento.
A LGPD ajuda a dar contornos mais claros a esse debate ao reforçar princípios como finalidade, necessidade e dever de cuidado, mas o problema não se resolve apenas com lei. Sem mudança de mentalidade, a legislação vira um pano de fundo distante, acionado só depois do incidente. O que falta é internalizar que proteger dados é proteger pessoas, reputações e a própria continuidade das organizações, públicas ou privadas.
O que o vazamento em Pernambuco nos mostra, de forma dura, é que ainda tratamos segurança e privacidade como temas secundários até que algo grande aconteça. Depois, reagimos, prometemos ajustes e seguimos adiante, muitas vezes repetindo os mesmos padrões. Enquanto não encararmos que vazamentos massivos deixaram de ser exceção justamente porque normalizamos práticas frágeis, continuaremos presos a esse ciclo.
Mais do que apontar culpados, o episódio deveria servir como alerta claro. Não existe bala de prata, nem solução isolada. Existe um trabalho contínuo de responsabilização, revisão de processos, redução consciente do uso de dados e fortalecimento da cultura de cuidado. Ignorar isso não elimina o risco. Apenas aumenta a chance de que o próximo grande vazamento tenha outro nome, outro estado e a mesma essência.



