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O Novo Papel do Humano

Por que saber pisar no freio será a habilidade mais valiosa da TI em 2026. Por Jeremias Goedert

Imagine que você contratou um estagiário genial. Ele leu toda a internet, conhece todas as linguagens de programação e trabalha 24 horas por dia sem tomar café. Se você pedir um código às 9h00, ele entrega às 9h01. Esse “estagiário” é a Inteligência Artificial Generativa de hoje. Mas existe um problema: ele também é inseguro, quer te agradar a qualquer custo e, às vezes, inventa coisas com total confiança só para não dizer “eu não sei”.

Até pouco tempo atrás, o profissional de TI era valorizado por ser rápido. Quem codificava mais rápido, vencia. Em 2026, essa corrida acabou. A IA venceu a batalha da velocidade e ninguém ganha de uma máquina em força bruta de digitação. Então, o que sobra para nós? Sobra a habilidade oposta: a capacidade de desacelerar. Bem-vindo à era da “Engenharia de Fricção”.

No futuro próximo, o seu valor não será medido pelas linhas de código que você escreve, mas pelas linhas de código que você rejeita. Se a IA é o acelerador que produz soluções em massa, o profissional de TI vira o freio ABS e o volante. É o que chamamos de Fricção Estratégica. Enquanto a automação corre, o profissional sênior é aquele que para e questiona se a solução funciona tecnicamente e se faz sentido para o negócio.

Essa mudança exige um novo conjunto de posturas. A primeira delas é um ceticismo saudável. A IA é uma máquina de dizer “sim” e vai gerar o que você pedir, então o papel do humano passa a ser o de saber dizer “não”. A habilidade crucial será olhar para um resultado tecnicamente perfeito e perguntar se aquilo resolve a dor real do cliente ou apenas fecha um chamado. Em um mundo de respostas automáticas, quem sabe fazer a pergunta difícil se torna essencial.

Além disso, é preciso exercer uma curadoria de contexto que a máquina não possui. A IA entende de sintaxe e regras de código, mas não entende a vida real. Ela não sabe, por exemplo, que um determinado deploy na sexta-feira pode travar o site de vendas justo no dia de uma grande promoção. Você será pago para ter essa sensibilidade, para conectar os pontos que não estão nos dados e para entender a cultura da empresa onde o software vai rodar.

Por fim, em um mercado viciado em velocidade, a coragem da lentidão parecerá um superpoder. Não a lentidão da preguiça, mas a da análise crítica. É a capacidade de parar a esteira de produção para garantir que não estamos apenas automatizando um erro gigante. O profissional de 2026 será, na prática, um gerente de risco disfarçado de técnico.

Não tenha medo da IA roubar o trabalho braçal; na verdade, ela acabou de te promover. Você deixou de ser o pedreiro que assenta tijolos digitais e passou a ser o arquiteto que garante que o prédio não vai cair. O mercado vai continuar pedindo agilidade, mas vai recompensar muito bem quem souber oferecer segurança. Em 2026, seu maior trunfo não será o quão rápido você coda, mas o quão bem você pensa.

Jeremias Goedert

Executivo sênior com mais de 25 anos de experiência em Tecnologia da Informação e Inovação, especializado em liderar a transformação digital em grandes organizações nacionais e multinacionais. Com sólida formação em Inteligência Artificial, Data Science, Segurança da Informação e Gestão Estratégica , acumula resultados expressivos na modernização de processos e implementação de sistemas robustos como SAP, Totvs e Dynamics AX. Atualmente atua como Head de TI na Tax.Co e sua trajetória inclui passagens estratégicas por empresas como Sport Club Internacional, Group Indigo, Grupo Valeant e Bausch + Lomb, onde se destacou pela gestão de equipes multidisciplinares, otimização de orçamentos e fortalecimento da governança e cibersegurança. Possui sólida formação acadêmica pela PUC-RS e FGV, destacando-se pela graduação em Administração com ênfase em Análise de Sistemas e MBAs focados em Gestão Estratégica de TI , Inteligência Artificial, Analytics e Data Science.

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