
Após acertar um investimento de aproximadamente US$ 2 bilhões na startup Manus no fim do ano passado, a Meta anunciou planos de ampliar significativamente a oferta do serviço de agentes de inteligência artificial por assinatura da empresa, levando a solução a um número muito maior de companhias.
Apesar da promessa de expansão, a negociação provocou insatisfação entre parte da base atual de clientes da Manus, que já avalia migrar para alternativas concorrentes. O movimento reforça o ceticismo em torno da Meta, que busca espaço no competitivo mercado de IA, disputando atenção com gigantes como OpenAI, Google e Anthropic.
Fundada em 2022 na China e posteriormente transferida para Singapura, a Manus é especializada no desenvolvimento de agentes de IA de uso geral. No ano passado, a empresa lançou seu principal produto: um agente personalizável capaz de executar tarefas complexas, como pesquisas de mercado, programação e análise avançada de dados.
Seth Dobrin, cofundador e CEO da Arya Labs, afirmou que a Manus era sua principal escolha entre plataformas de IA agente, mas deixou de utilizá-la após a entrada da Meta. Em entrevista à CNBC, ele disse confiar nos termos de uso da Manus, mas não ter o mesmo nível de confiança na Meta.
“Discordo de muitas práticas da Meta relacionadas a dados e à forma como informações pessoais são utilizadas”, afirmou Dobrin. “Não quero me associar a uma empresa com a qual não me sinto confortável em relação ao uso desses dados.”
A Meta, que obtém quase toda a sua receita anual — cerca de US$ 200 bilhões — com publicidade, informou em dezembro que a operação com a Manus tem como objetivo acelerar a inovação em IA voltada a empresas e integrar automação avançada aos seus produtos, incluindo o assistente Meta AI.
No dia do anúncio do acordo, a Manus divulgou que já contava com milhões de clientes pagantes e uma receita anualizada superior a US$ 125 milhões. A startup garantiu que continuará operando de forma independente a partir de Singapura e que seu serviço por assinatura seguirá disponível via aplicativo e site próprios.
Ainda assim, as preocupações persistem. Karl Yeh, cofundador da consultoria 0260.AI, especializada em orientar startups na adoção de ferramentas de IA, afirmou que deixou de usar a Manus e passou a desaconselhar o serviço a seus clientes.
“É inevitável questionar se as políticas de dados da Meta serão aplicadas à Manus”, disse Yeh. “Essa incerteza foi determinante para nossa decisão.”
Segundo ele, também não está claro como a Manus se encaixará no plano estratégico de IA da Meta no longo prazo, o que aumenta a insegurança em relação ao futuro da plataforma. Como alternativa, Yeh afirmou estar migrando para soluções como a startup Genspark, em busca de maior previsibilidade.
A Meta limitou-se a reafirmar, em nota oficial, que está entusiasmada em integrar a equipe da Manus e ampliar o impacto da tecnologia da startup para empresas e consumidores.
Estratégia de IA ainda indefinida
Nos últimos meses, a Meta intensificou seus investimentos em inteligência artificial. Em junho, a empresa desembolsou mais de US$ 14 bilhões para contratar Alexandr Wang, da Scale AI, além de engenheiros e pesquisadores-chave, garantindo também participação na startup. Ainda assim, analistas apontam que a companhia não apresentou uma estratégia clara de longo prazo para competir no segmento corporativo de IA.
Desde outubro, quando o CEO Mark Zuckerberg afirmou que os custos com IA continuariam crescendo, as ações da Meta acumularam queda de 17%. Projeções indicam que os gastos da empresa com IA podem ultrapassar US$ 100 bilhões em 2026.
Enquanto isso, concorrentes diretos da Manus relatam efeitos positivos indiretos. Flo Crivello, CEO da Lindy, afirmou que sua empresa registrou aumento no interesse de usuários após a notícia do acordo, impulsionado pela maior visibilidade do mercado de agentes de IA.
Crivello avalia que a Meta tende a priorizar pequenas empresas — público historicamente relevante para sua receita publicitária —, e que pode levar tempo até que a companhia defina claramente o papel da Manus em seu ecossistema.
Historicamente, a Meta tem enfrentado dificuldades fora do segmento de publicidade ao tentar avançar no mercado corporativo. A empresa encerrou a plataforma Workplace em 2024, dois anos após descontinuar o dispositivo de videochamadas Portal, e recentemente anunciou o fim do aplicativo de realidade virtual Workrooms.
Para Navrina Singh, fundadora e CEO da Credo AI, empresas de grande porte, especialmente em setores regulados como saúde e finanças, tendem a preferir soluções baseadas em modelos da OpenAI e da Anthropic, geralmente operadas em nuvens da Microsoft ou da Amazon, onde requisitos de segurança e governança já estão consolidados.
Um dos poucos destaques positivos da Meta no ambiente corporativo segue sendo o WhatsApp. A versão Business da plataforma tornou-se um canal relevante de relacionamento entre empresas e clientes. Segundo projeções do analista Mark Mahaney, da Evercore, o WhatsApp pode gerar até US$ 40 bilhões em receita até 2030.
“A comunicação empresarial continua sendo uma grande oportunidade para nós”, afirmou a diretora financeira Susan Li, acrescentando que a Meta também avança no desenvolvimento de soluções de IA voltadas à geração de leads e ao aumento de vendas para empresas.



