Inteligência artificial, governança de dados e carreiras: Perspectivas para além de 2026.
Por Newton Moraes

A inteligência artificial deixa de ser inovação tecnológica e se consolida como infraestrutura decisória permanente da vida contemporânea. Sistemas de IA já superam seres humanos em tarefas específicas, como reconhecimento de padrões, correlação massiva de dados e previsões estatísticas, por isso, passaram a ocupar lugar central em decisões de negócios, crédito, saúde, segurança e até na justiça.
Esse avanço costuma ser apresentado como sinônimo de eficiência. Mas há algo mais profundo em curso, a redistribuição estrutural de poder, mercado e de valor profissional.
Em Homo Deus, Yuval Noah Harari observa que a história humana avançou por grandes saltos cognitivos. Dados e algoritmos passaram a desempenhar papel estruturante nas instituições sociais e econômicas.
O desafio não é apenas tecnológico. É organizacional, institucional e humano.
Assim, os riscos associados à inteligência artificial já não pertencem ao campo da hipótese, como se percebe pelo crescimento exponencial de deepfakes, já utilizados em fraudes financeiras, engenharia social e desinformação, a revelar verdadeira erosão cumulativa da confiança, e nossa capacidade de distinguir o que é real do que é fabricado, do sintético. O resultado é um ambiente em que a dúvida deixa de ser exceção e passa a ser estado permanente.
Em contextos assim, confiança não é atributo abstrato: torna-se ativo estratégico, e cada vez mais, competência profissional.
Por isso a imposição de que a governança de dados e tecnologias passem, definitivamente da ficção à prática cotidiana
Dilemas antecipados pela ficção científica, como em “Eu, Robô”, de Isaac Asimov refletem a preocupação além das máquinas conscientes, mas com algo mais concreto como quem define objetivos, limites e responsabilidades de sistemas autônomos.
Tanto que décadas depois da publicação, o debate sobre governança de IA gira exatamente em torno disso. Transparência, explicabilidade, supervisão humana e responsabilização deixaram de ser temas acadêmicos para se tornar exigências práticas em setores como crédito, emprego, saúde e até na administração da justiça.
É como disse Melvin Kranzberg: a tecnologia não é boa nem má, tampouco é neutra, pois reflete valores, escolhas e prioridades humanas. Por isso, governança deve ser o regime permanente de decisão.
Isso porque a inteligência artificial também democratizou o acesso à produção de conhecimento, pois qualquer pessoa com um dispositivo conectado pode gerar análises sofisticadas em minutos. Avanço inegável, mas com o paradoxo inquietante de que quanto mais informação disponível, mais escasso se torna o discernimento.
Em 21 Lições para o Século 21, Harari observa que a autoridade contemporânea pertence a quem sabe interpretar, contextualizar e questionar dados, não apenas a quem os acessa. Em ambientes saturados por conteúdo sintético, a verdade deixa de ser abundante e passa a ser recurso estratégico.
No plano das carreiras, isso produz uma inflexão clara: o diferencial profissional não está em saber operar ferramentas de IA, mas em exercer julgamento, estabelecer limites e assumir responsabilidades.
Nick Bostrom, autor de Superintelligence, entende que o maior risco da IA não é sua potência computacional, mas o desalinhamento entre objetivos das máquinas e valores humanos.
Esse risco já se manifesta de forma concreta em casos de fraudes perpetradas com a utilização de IA, evidenciando que o problema é presente e se agiganta com a facilidade de imitação da realidade com precisão crescente, como crescente é a vulnerabilidade.
Nesse cenário, profissionais capazes de validar, auditar, supervisionar e contextualizar decisões algorítmicas tornam-se ativos centrais nas organizações.
Segurança digital deixa de ser um tema técnico periférico e assume papel estruturante da governança organizacional. Autenticação multifator, validação por canais independentes, auditorias algorítmicas, gestão de fornecedores e planos de resposta a incidentes não são entraves à inovação, mas proteções que podem manter a operação.
E mais: profissionais capazes de integrar segurança, governança e estratégia deixam de ocupar funções de apoio e passam a atuar em posições centrais de decisão, porquanto governar dados é governar decisões. Quem não governa decisões, terceiriza o próprio futuro, em uma sociedade analisada por Luciano Floridi que a descreve como onlife: não mais dividida entre online e offline, mas permanentemente mediada por tecnologia.
Nesse contexto, carreiras também são onlife. Reputação, autoridade, avaliação de desempenho e tomada de decisão passam por filtros algorítmicos que, conforme relatórios da UNESCO desinformam, corroem a confiança pública e desafiam a democracia.
Contudo, mesmo em um mundo altamente automatizado, algo permanece insubstituível: a experiência humana. Julgamento contextual, empatia, responsabilidade e capacidade de atribuir sentido não se automatizam.
Organizações e profissionais que compreendem isso percebem que valor não está apenas em eficiência ou escala, mas em confiança, pertencimento e experiência, seja no atendimento cotidiano, seja nas decisões estratégicas.
Por isso, pensar a inteligência artificial para além de 2026 é reconhecer que não estamos diante de um ciclo tecnológico, mas de uma nova camada estrutural da vida social e profissional.
As carreiras que prosperarão não serão as que competem com máquinas, mas as que assumem a governança das decisões mediadas por elas.
No fim, a equação permanece simples:
Tecnologia escala. Governança protege. Confiança sustenta.



