O que começou como o sonho de uma carreira em engenharia aeroespacial levou Anahita Laverack a um caminho inesperado: a criação da Oshen, uma startup especializada em frotas de robôs autônomos para coleta de dados oceânicos. A ideia surgiu após sua participação em um desafio de robótica marítima, que revelou uma lacuna crítica no monitoramento dos oceanos.
Em 2021, Laverack, velejadora experiente, decidiu desenvolver um robô para competir no Desafio Microtransat, competição que desafia equipes a atravessar o Oceano Atlântico com microrrobôs movidos a vela e totalmente autônomos. Assim como os demais participantes, ela não conseguiu completar a travessia, mas a experiência trouxe um insight decisivo.
Segundo Laverack, os fracassos recorrentes estavam ligados não apenas à dificuldade de manter robôs de pequeno porte operando no ambiente hostil do oceano, mas também à falta de dados confiáveis sobre condições marítimas e climáticas. A constatação a levou a buscar informações em conferências do setor, como a Oceanology International, onde percebeu que não existia uma solução eficaz para a coleta contínua desses dados.
Diante do interesse de pesquisadores e instituições dispostos a pagar por esse tipo de informação, Laverack concluiu que havia espaço para desenvolver uma nova abordagem. Em abril de 2022, ela fundou a Oshen ao lado de Ciaran Dowds, engenheiro elétrico.
Microrrobôs autônomos para longas missões no oceano
A Oshen passou a desenvolver os C-Stars, microrrobôs autônomos capazes de operar no oceano por até 100 dias consecutivos. Implantados em enxames, os dispositivos coletam dados oceânicos de forma contínua, atendendo a demandas científicas, meteorológicas e estratégicas.
Nos primeiros anos, os fundadores optaram por não recorrer a capital de risco. Em vez disso, utilizaram recursos próprios para adquirir um veleiro de 7,6 metros, que serviu tanto como moradia quanto como plataforma de testes. Durante cerca de dois anos, os robôs eram aprimorados em terra e rapidamente testados no mar, inclusive em condições adversas.
O processo envolveu desafios técnicos e riscos reais, já que os sistemas precisavam funcionar em todas as estações do ano e resistir a tempestades severas. Além disso, a miniaturização exigia mais do que reduzir o tamanho de robôs existentes: os dispositivos precisavam ser baratos, produzidos em escala e tecnologicamente avançados para operar de forma totalmente autônoma por longos períodos.
Reconhecimento internacional e uso em furacões
A capacidade da Oshen de reunir essas três características atraiu o interesse de organizações governamentais e de defesa. Há dois anos, a empresa chamou a atenção da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), embora a tecnologia ainda não estivesse pronta para uso em larga escala naquele momento.
A situação mudou às vésperas da temporada de furacões de 2025, após a Oshen demonstrar a resistência de seus robôs em tempestades de inverno no Reino Unido. A empresa então produziu e enviou rapidamente mais de 15 unidades do C-Stars.
Cinco desses robôs foram lançados ao mar e seguiram em direção às Ilhas Virgens Americanas, região prevista para ser impactada pelo furacão Humberto. Três deles conseguiram atravessar toda a tempestade, mesmo sofrendo danos parciais, e coletaram dados durante todo o evento. Segundo Laverack, trata-se do primeiro registro de robôs oceânicos coletando informações ao longo de um furacão de categoria 5.
Expansão e novos contratos
Atualmente, a Oshen está instalada em um polo de tecnologia marítima em Plymouth, na Inglaterra, e começou a firmar contratos com clientes, incluindo o governo britânico, para aplicações meteorológicas e de defesa.
Com a demanda em crescimento, Laverack afirma que a empresa pretende buscar investimentos de capital de risco em breve para ampliar a produção e expandir suas operações.
Fonte: Tech Crunch



