
A disputa mais relevante do nosso tempo não é por dados, infraestrutura ou conectividade. É por atenção. Em ambientes digitais, quem controla o fluxo de estímulos acaba influenciando decisões — individuais, coletivas e, cada vez mais, educacionais. Quando essa lógica entra na escola, o debate deixa de ser tecnológico e passa a ser cognitivo.
No Brasil, o caminho escolhido nos últimos anos tem sido claro: mais telas, mais dispositivos, mais tecnologia no ambiente educacional. Projetos de lei e políticas públicas avançam com o objetivo de institucionalizar a chamada Educação Digital, ampliando o acesso a equipamentos, conectividade, plataformas e conteúdos tecnológicos desde as primeiras etapas de ensino. A narrativa é positiva: inclusão, modernização, preparo para o futuro.
Esse movimento, porém, já começa a gerar contradições institucionais explícitas. Ao mesmo tempo em que o Estado amplia o uso de telas, o Congresso discute mecanismos para lidar com os efeitos colaterais desse uso intensivo. Um exemplo é o PL 2218/2015, que teve aprovação relevante na Comissão de Saúde da Câmara no final de 2025 e propõe a criação de um Protocolo de Tratamento no SUS para o uso compulsivo de tecnologia. O texto reconhece o vício em internet, jogos eletrônicos e redes sociais como um problema de saúde pública — alinhado à classificação da OMS, que já reconhece o Gaming Disorder. Se aprovado, o SUS passará a oferecer linha de cuidado específica, com atendimento psicológico, grupos de apoio e capacitação de profissionais de saúde para identificar sintomas como ansiedade severa ao ficar offline, a chamada nomofobia. O projeto ainda tramita na CCJ e, se avançar, seguirá para o Senado e sanção presidencial.
O ponto crítico é que estrutura não é sinônimo de método. Distribuir telas não garante aprendizado. Inserir tecnologia no currículo não assegura atenção. Em um ambiente onde estímulos competem o tempo todo, a presença constante de dispositivos pode se tornar mais um fator de dispersão do que de aprofundamento. Não por falha técnica, mas por limitação humana.
É aqui que a discussão ganha densidade. Atenção é um recurso finito. Crianças e adolescentes não processam informação como adultos — e adultos, por sua vez, também estão longe de lidar bem com ambientes de hiperestimulação. Quando a escola incorpora telas sem um projeto pedagógico sólido, corre o risco de terceirizar a atenção para sistemas desenhados para reter, não para ensinar.
Somente ao final desse percurso vale olhar para o movimento da Suécia, justamente para evitar leituras simplistas. Em 2023, um dos países mais digitalizados do mundo decidiu reduzir o uso de telas nas séries iniciais, reforçando livros físicos, escrita manual e leitura profunda. Não por rejeição à tecnologia, mas por reconhecer que o uso excessivo estava competindo com habilidades básicas de concentração e compreensão.
O gesto sueco não é retrocesso. É calibração. Depois de experimentar a digitalização ampla, o país percebeu que tecnologia sem critério pedagógico afeta o que deveria fortalecer. A pergunta deixa de ser “usar ou não usar tecnologia” e passa a ser quando, como e com que propósito.
No fim, o dilema é universal. Quem controla a atenção molda decisões, hábitos e formas de pensar. Em educação, isso significa definir não apenas o conteúdo ensinado, mas a qualidade da presença mental de quem aprende. Telas podem ser ferramentas poderosas — ou distrações permanentes. A diferença está no projeto, não no dispositivo.
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No Café Com Bytes, a reflexão é direta: tecnologia na educação não é corrida por modernidade, é exercício de maturidade. Antes de multiplicar telas, talvez seja preciso decidir quem está no controle da atenção — e a serviço de quê.
E você: estamos formando pensamento — ou apenas tentando tratar os efeitos colaterais depois?



