
Rivalidades entre grandes potências e impasses estratégicos figuram entre os riscos mais críticos para o cenário global no curto prazo, com projeções que se estendem até 2026. A avaliação consta no Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial (WEF), divulgado nesta quarta-feira, que aponta um ambiente internacional marcado por instabilidade crescente.
De acordo com o estudo, cerca de metade dos executivos e líderes empresariais ouvidos espera um período de forte turbulência nos próximos dois anos. Apenas 1% dos entrevistados acredita em um cenário de estabilidade, reforçando a percepção de que o mundo se aproxima de um ponto de inflexão.
O levantamento ouviu aproximadamente 1.300 líderes de governos, empresas e organizações da sociedade civil e descreve um contexto em rápida transformação. Nesse ambiente, o chamado “confronto geoeconômico” desponta como a principal preocupação para o curto prazo, impulsionado pela intensificação da concorrência entre países e pelo uso estratégico de instrumentos econômicos, como tarifas, regulações, cadeias de suprimentos e restrições de capital. Segundo o relatório, esse movimento pode resultar em uma contração significativa do comércio global.
Para a diretora-gerente do Fórum Econômico Mundial, Saadia Zahidi, os conflitos armados entre Estados e seus desdobramentos preocupam de forma especial. “Quase um terço dos entrevistados demonstra elevada apreensão com o impacto desses conflitos sobre a economia global e sobre o estado do mundo em 2026”, afirmou em entrevista à CNBC.
O documento também revela que os riscos econômicos foram os que mais cresceram em relevância na avaliação dos participantes. Entre as principais preocupações estão a possibilidade de recessão, o avanço da inflação e a formação de bolhas de ativos, em um contexto de alto endividamento público e mercados financeiros voláteis.
Na avaliação de John Doyle, CEO da Marsh McLennan — maior corretora de seguros do mundo e parceira do WEF na elaboração do relatório —, o cenário atual não se caracteriza por uma única grande crise, mas por diversas crises simultâneas. Entre os desafios enfrentados pelas empresas, ele destaca guerras comerciais, conflitos culturais, a rápida evolução tecnológica e os impactos de eventos climáticos extremos.
A desinformação e a disseminação de notícias falsas aparecem como o segundo maior risco de curto prazo, seguidas pela polarização social, marcada pelo aumento das divisões entre grupos com visões opostas. Já a desigualdade é apontada como o principal risco interconectado ao longo da próxima década, dificultando a cooperação necessária para enfrentar choques econômicos.
Um dos pontos que mais avançou no ranking foi o risco associado à inteligência artificial. O tema saltou da 30ª posição entre os riscos de curto prazo no ano anterior para o quinto lugar entre os riscos de longo prazo. O relatório alerta que o deslocamento da força de trabalho provocado pela automação pode ampliar a desigualdade de renda, aprofundar divisões sociais e reduzir o consumo, criando ciclos de estagnação econômica e insatisfação social, mesmo diante de ganhos expressivos de produtividade.
O estudo também chama atenção para a convergência acelerada entre aprendizagem de máquina e computação quântica, ressaltando que esse avanço pode gerar um ambiente altamente complexo, com o risco de perda de controle humano sobre determinados sistemas.
Apesar de os riscos ambientais terem sido relegados a um segundo plano no curto prazo, eventos climáticos extremos seguem como a maior preocupação dos líderes globais para os próximos dez anos. A estimativa é de que as perdas globais seguradas decorrentes de catástrofes naturais alcancem US$ 107 bilhões em 2025, superando a marca de US$ 100 bilhões pelo sexto ano consecutivo e evidenciando um aumento expressivo em relação ao início dos anos 2000.



