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O que muda em 2026: governança virou evidência

Por João Back

Em 2026, quase toda empresa no Brasil “usa IA”. Isso não quer dizer muita coisa. É como dizer que sua empresa “usa planilha”. Ok. A pergunta real é outra: quando der problema, você consegue reconstruir o que aconteceu?

Quase todo mundo diz “a gente tem governança de IA”. O teste vem cinco minutos depois, quando alguém pergunta: qual versão do modelo estava rodando? Quais dados entraram? Quais fontes foram consultadas? Quais regras estavam ativas? Quem aprovou?

Se a resposta é “depende” ou “a gente vê depois”, então não é governança. É um documento bem-intencionado e uma operação no escuro.

Muita gente trata governança como moralismo ou burocracia. Isso é um erro de categoria. Governança, no sentido útil, é engenharia de confiança. E em 2026 a virada é simples: governança não é mais política. É evidência.

Política descreve intenção. Evidência prova comportamento. A era em que governança era um PDF assinado e um treinamento anual acabou. IA moderna — especialmente LLMs e agentes — muda rápido, é conectada a ferramentas, consulta bases, gera decisões intermediárias. O risco não é só “usar errado”. É não conseguir explicar depois.

Quando você não consegue reconstruir o que aconteceu, todo incidente vira uma discussão interminável. A área técnica diz uma coisa. O jurídico diz outra. O fornecedor diz que “não foi bem assim”. E no meio disso alguém quer saber se houve dano, se houve discriminação, se houve vazamento, se houve descumprimento de regra. Sem evidência, você vira refém de versões.

As empresas maduras em 2026 fazem três coisas que as otimistas não fazem. Não são coisas glamourosas. Por isso funcionam.

1) Inventário vivo de IA

Primeiro passo: pare de não saber quantas IAs existem na sua empresa.

Sempre existe “uma automação com IA” em algum lugar. Um chatbot plugado em dados. Um time testando um modelo externo com CSV de cliente. Um fornecedor que colocou “inteligência” num módulo novo. Sem inventário, você não governa nada. Você só descobre depois.

O inventário não precisa ser um monstro. Precisa ser vivo. E universal o bastante pra não virar uma discussão religiosa. Campos simples resolvem:

– dono do sistema (quem responde)
– finalidade (pra quê existe)
– quem usa (interno/cliente)
– dados envolvidos (pessoais? sensíveis? de terceiros?)
– fornecedor/modelo e onde roda
– integrações (o que acessa e o que pode acionar)
– criticidade (baixo/médio/alto)

Inventário não é burocracia. É o mapa do risco. Sem mapa, toda surpresa parece “azar”.

2) Dossiê do modelo

Depois vem a parte que quase ninguém gosta. Justamente por isso vira diferencial.

O dossiê do modelo é o prontuário da IA. É a memória institucional do que foi decidido quando as pessoas ainda lembravam por que decidiram. Sem isso, você tem dependência de indivíduos específicos e decisões que evaporam quando alguém muda de área.

O dossiê não precisa ser um tratado acadêmico. Precisa ser objetivo. O mínimo que uma empresa consegue sustentar é:

– o que o sistema faz e o que ele não pode fazer
– riscos previstos (inclusive para pessoas)
– testes e resultados (qualidade, segurança, vieses, robustez)
– controles exigidos (guardrails, revisão humana, bloqueios)
– plano de monitoramento e de desligamento/fallback

Dossiê é o que transforma opinião em decisão sustentada. E, numa crise, isso vale ouro.

3) Trilha de decisão e telemetria

A terceira perna é a que separa “a gente usa IA” de “a gente consegue operar IA”.

Se sua IA não deixa trilha, ela é uma caixa-preta. Caixa-preta em processo real vira risco jurídico e operacional. Em 2026, governança séria exige telemetria: logs padronizados sobre versões, prompts, fontes consultadas e ferramentas acionadas.

Não é pra vigiar pessoas. É pra tornar a IA auditável e corrigível.

Em linguagem normal, a trilha tem que capturar:

– qual modelo e qual versão estavam ativos
– quais instruções/prompt foram usados (versão)
– quais dados entraram (com mascaramento quando necessário)
– quais fontes foram consultadas (se houver RAG)
– quais ações foram executadas (quando a IA aciona sistemas)
– quais bloqueios/alertas ocorreram
– quando houve validação humana e por quem

Sem trilha de decisão, “aprendizado” vira “desculpa”. E desculpa não escala.

Até aqui, muita gente concorda, e mesmo assim trava. Porque tenta governar tudo igual.

Esse é o jeito mais rápido de matar a adoção e criar governança de faz-de-conta, aquela em que todo mundo dribla porque é impossível cumprir. O caminho adulto é governança proporcional, por criticidade. Baixo, médio e alto impacto.

– Baixo impacto: produtividade interna sem dados sensíveis → regras básicas + inventário.
– Médio impacto: dados pessoais ou influência em atendimento/oferta → dossiê mínimo + logs + testes padronizados.
– Alto impacto: efeito relevante (crédito, fraude, RH, saúde) → dossiê completo + monitoramento contínuo + revisão humana em pontos críticos + auditoria periódica.

Governança boa não é a que exige tudo. É a que exige o suficiente.

E em 2026 existe uma camada nova que muita empresa ainda não entendeu, porque ainda pensa em “controle de acesso” como login.

Para LLMs e agentes, controle de acesso é capacidade.

Duas pessoas podem usar o mesmo assistente, mas com poderes diferentes. Uma só pode perguntar. Outra pode enviar documentos. Outra pode consultar dados de cliente. Outra pode acionar ferramentas que alteram registros.

Acesso por capacidade é segregação de funções aplicada a IA. E reduz risco sem amputar produtividade. Capacidades típicas:

– enviar/analisar documentos
– acessar base de clientes (com/sem PII)
– acionar e-mail/CRM/tickets
– executar ações transacionais (alterar cadastro, aprovar, cancelar)
– rodar agentes autônomos (só em sandbox ou produção controlada)

Quando você faz isso direito, a empresa não precisa escolher entre “libera geral” e “proíbe tudo”. Ela consegue ser ambiciosa e responsável ao mesmo tempo, que é o único jeito que funciona.

Em 2026, o mercado brasileiro não separa mais empresas por “quem usa IA”. Separa por quem usa IA com controle real.

Política é intenção. Evidência é governança.

Inventário, dossiê e trilha de decisão não são burocracia. São o que permite crescer sem virar refém de incidentes, retrabalho e perda de confiança.

Se você não consegue provar, você não governa.

João Back

CTO e CISO da SinapseTech, especialista em Segurança da Informação, Segurança Cibernética, Privacidade de Dados e GRC. Atua na liderança de projetos estratégicos, ajudando organizações a proteger seus ativos digitais, elevar níveis de maturidade e gerar valor de negócio por meio de tecnologia, governança e inovação orientada por dados.

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