Governança em Inteligência Artificial:
O risco invisível técnico, legal e financeiro por trás da adoção acelerada. Por Deiverson Viegas

A Inteligência Artificial deixou de ser uma tecnologia experimental e passou a fazer parte do dia a dia das empresas brasileiras. Ferramentas de IA generativa são utilizadas para redigir contratos, analisar dados, apoiar decisões estratégicas, desenvolver software, automatizar atendimentos e acelerar processos internos. No entanto, essa adoção rápida e muitas vezes informal expõe um problema crítico: a maioria das organizações está usando IA sem qualquer modelo estruturado de governança e isso tem impactos que vão muito além da tecnologia.
Na prática, esse cenário se traduz em colaboradores utilizando diferentes ferramentas de IA de forma descentralizada, sem diretrizes claras, sem critérios sobre quais dados podem ser inseridos, sem avaliação de riscos e sem definição de responsabilidades. Dados sensíveis, estratégicos ou pessoais acabam sendo compartilhados com múltiplas plataformas externas, muitas vezes sem que a empresa tenha clareza sobre onde essas informações são processadas, armazenadas ou reutilizadas. O risco é elevado, mas frequentemente invisível para a alta gestão.
Além dos riscos legais e de segurança da informação, há um fator que costuma ser subestimado: o custo financeiro da ausência de governança em IA. Empresas sem controle acabam contratando diversas soluções de IA simultaneamente, com planos individuais, duplicação de funcionalidades e ausência de padronização. O resultado é um aumento silencioso de despesas recorrentes, difícil de mapear e ainda mais difícil de justificar sob a ótica de retorno sobre investimento (ROI).
Esse custo não é apenas direto, relacionado a assinaturas e licenças. Ele se estende ao retrabalho causado por respostas inconsistentes, decisões baseadas em informações imprecisas, integração ineficiente entre ferramentas e perda de produtividade. Cada área passa a “reinventar” seu próprio uso de IA, gerando dependência tecnológica desorganizada e elevando o custo operacional da empresa como um todo.
A ausência de governança também impacta a gestão de riscos. Sem critérios claros, a empresa pode utilizar IAs que não atendem requisitos mínimos de segurança, privacidade ou conformidade com a LGPD. Um único incidente envolvendo vazamento de dados, uso indevido de informações ou falhas em decisões automatizadas pode gerar custos muito superiores ao investimento necessário para estruturar um modelo de governança desde o início incluindo multas, passivos jurídicos, danos reputacionais e perda de confiança do mercado.
Outro ponto crítico é a falsa percepção de neutralidade da IA. Modelos aprendem a partir de dados e instruções humanas, carregando vieses, limitações e imprecisões. Sem governança, não há critérios formais para validação de resultados, revisão de decisões automatizadas ou definição de limites claros entre o apoio da IA e a decisão humana. Isso expõe a organização a erros estratégicos que, além de riscos éticos e legais, podem gerar impactos financeiros relevantes.
Governança em IA não significa frear a inovação, mas organizar o uso da tecnologia de forma eficiente, segura e sustentável. Um modelo básico começa pela definição de políticas claras: quais ferramentas podem ser utilizadas, para quais finalidades, quais tipos de dados são permitidos, quais são proibidos e quais critérios devem ser atendidos para a contratação de novas soluções. Isso permite reduzir custos, eliminar redundâncias e aumentar a eficiência do uso da IA.
Outro pilar essencial é integrar a governança de IA às estruturas já existentes de segurança da informação, privacidade, compliance e gestão de riscos. Avaliações de impacto, classificação de dados, controle de acessos, registro de uso e revisão periódica dos resultados gerados pela IA devem fazer parte do ciclo de vida dessas soluções. Além disso, é fundamental estabelecer responsabilidades claras, garantindo que decisões apoiadas por IA sejam sempre supervisionadas e validadas por pessoas.
O cenário brasileiro tende a se tornar mais exigente nos próximos anos. A evolução regulatória, a atuação das autoridades de proteção de dados e a pressão do mercado por transparência e ética tornarão insustentável o uso descontrolado de IA. Empresas que se anteciparem, estruturando governança desde agora, não apenas reduzirão riscos, mas também otimizarão custos e extrairão mais valor real da tecnologia.
A Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosa, mas poder sem governança gera risco e desperdício. O verdadeiro diferencial competitivo não estará em quem usa mais IA, mas em quem sabe usá-la com critério, controle e alinhamento estratégico. Governança em IA não é custo adicional: é o que transforma inovação em resultado sustentável.



