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Segmentação pé no chão: como cortar as rotas do atacante sem travar a operação

Como conter o impacto dos incidentes e limitar as rotas do atacante com medidas práticas e sustentáveis. Por Rodrigo Rocha

Quando se fala em segmentação, muita gente imagina um projeto interminável, caro e cheio de promessas que evaporam na primeira mudança de escopo. Eu prefiro tratar o tema como uma decisão pragmática de engenharia: reduzir o raio de explosão significa remover caminhos que hoje permitem que um incidente localizado se transforme em paralisação ampla. Não é redesenhar tudo, é reposicionar as passagens que interessam ao adversário e exigir mais prova de legitimidade onde o dano potencial é maior. Em termos práticos, trata-se de decidir quem chega aonde, por qual rota e com quais métodos de validação de identidade, para que a comprometimento de uma máquina não arraste sistemas que sustentam faturamento, produção ou qualquer outro sistema crítico.

O primeiro ponto é separar, com dedicação e detalhamento, administração de operação. Consoles de virtualização, gestão de backup, controladores de domínio, console administrativas dos firewalls e painéis que governam fluxos críticos não podem ficar nas mesmas rotas dos usuários comuns nem aparecer como destinos dentro do túnel de uma VPN tradicional. Quando o acesso remoto abre caminho direto para essas estruturas, todo esforço de autenticação vira porta aberta para escalar privilégios. Uma rede de administração restrita, acessível apenas a partir de estações de salto controladas, com dupla verificação e registro claro de quem fez o quê, corta metade das oportunidades que vemos exploradas em investigações. Essa contenção de rotas não atrapalha o dia a dia; ao contrário, dá previsibilidade à manutenção e impede “atalhos” que nascem da pressa e permanecem por esquecimento.

A seguir vem a separação entre identidade e produção. Servidores que sustentam o diretório, serviços de autenticação e cofres de segredo merecem isolamento lógico agressivo, porque a degradação desses componentes amplia qualquer incidente, exatamente como tenho visto em alguns ataques reais recentes, e outros nem tão recentes. Quando uma estação é comprometida, não pode haver caminho simples até os controladores de domínio, e as credenciais usadas no cotidiano não devem funcionar para administrar plataformas. Isso requer grupos de acesso definidos por função, contas de serviço com escopo mínimo e validade revisável, e um desenho que impeça o reaproveitamento automático de privilégios fora do domínio de trabalho de cada equipe. Ao quebrar esse reflexo de “uma credencial para tudo”, o ambiente passa a tolerar falhas sem colapsar.

Segmentar também significa proteger o que garante a volta. Repositórios de backup e servidores responsáveis por orquestrar restaurações precisam estar fora do alcance de rotas corriqueiras e, sempre que possível, sob controles adicionais de verificação. O atacante sabe que, se apagar a estrutura de recuperação, ganha tempo e aumenta seu poder de barganha. Ao retirar os repositórios do plano de dados da rede de usuário, ao impor camadas de autorização específicas e ao evitar que o caminho de administração de backup transite pela mesma VPN de uso geral, reduzimos drasticamente a chance de uma restauração virar a principal decepção no momento mais crítico.

Há um capítulo inevitável na conversa: segmentação não substitui telemetria, e telemetria sem segmentação vira cansaço. Um EDR maduro encurta o tempo de detecção e acelera a resposta porque transforma sinais dispersos em evidência utilizável e permite isolar uma máquina em minutos; quando esse isolamento respeita o desenho da rede e aciona políticas que bloqueiam rotas de administração e de dados entre segmentos, o efeito se multiplica. O SIEM, por sua vez, ganha precisão quando as hipóteses de detecção consideram fronteiras: alertas que disparam ao tentar cruzar do segmento de usuário para a gestão de virtualização, do segmento de estação para o de backup, do domínio de operação para o de identidade. A sinergia entre as tecnologias aparece de forma prática, não no discurso.

É útil, também, pensar na segmentação como um pacto de responsabilidades. Cada segmento precisa de um dono operacional que conheça os fluxos autorizados, valide exceções com prazo para expirar e acompanhe, em cadência regular, se o que foi aberto ainda se justifica. Exceções técnicas são inevitáveis, mas deixá-las sem data de validade equivale a criar passagens permanentes por onde ninguém mais olha. É o provisório definitivo, comum na nossa área. A governança não precisa ser pesada: basta registrar a razão, a duração e o responsável, e exigir revisão periódica com evidências de uso. Essa disciplina evita que o projeto se desfigure com o tempo e garante que a evolução do ambiente não traga de volta as rotas que havíamos cortado.

Por fim, a chave está em escolher por onde começar e manter o ritmo. Segmentação pé no chão prioriza o que muda resultado quando algo dá errado: retirar consoles de virtualização e backup das rotas de VPN de usuário, isolar controladores de domínio e cofres de segredo, impor administração a partir de estações de salto e alinhar detecções e contenções às novas fronteiras. No fim, você percebe que segmentação de verdade é muito além de planejar e implementar VLANs. Quando o ambiente internaliza essa lógica, cada falha passa a produzir impacto contido, a resposta acontece com menos improviso e o caminho de volta permanece preservado. É esse tipo de contenção que faz a diferença entre uma interrupção administrável e uma semana (e muito dinheiro) perdida.

Rodrigo Rocha

Atuo há mais de duas décadas na área de tecnologia e cibersegurança, ajudando organizações a evoluírem sua postura de proteção com foco em resultados reais. Sou co-fundador da Gruppen IT Security e graduando em Psicologia, unindo segurança digital, comportamento humano e gestão do risco de forma integrada. Escrevo sobre cibersegurança aplicada, cultura digital e resiliência no Café com Bytes.

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