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2026 não será sobre inovação. Será sobre sustentação.

Por Fernanda Nogueira

Durante anos, o discurso dominante no mundo corporativo foi o da inovação acelerada. Novas ferramentas, automações, inteligência artificial, plataformas digitais e decisões cada vez mais rápidas passaram a ser tratadas quase como um fim em si mesmas, sinônimo de competitividade, modernidade e vantagem estratégica.

Em 2026, esse discurso começa a mostrar seus limites.

O próximo ciclo não será definido por quem adota mais tecnologia, mas por quem consegue sustentar decisões complexas em ambientes instáveis, com responsabilidade jurídica, previsibilidade operacional e confiança institucional. Não se trata de frear a inovação, mas de compreender que velocidade sem estrutura cobra seu preço.

A mudança não é barulhenta. Ela acontece de forma silenciosa, quase invisível, mas é profunda. Abaixo, reunimos alguns dos principais vetores que ajudam a compreender esse novo cenário.

I. O risco deixa de ser exceção e passa a ser o ambiente

Até pouco tempo, o risco era tratado como evento: algo que poderia ou não acontecer. Em 2026, ele se consolida como condição permanente de operação. Clima, instabilidade regulatória, dependência tecnológica, pressões reputacionais e criminalidade digital já não atuam de forma isolada. Esses fatores se combinam, se retroalimentam e produzem efeitos em cadeia.

Esse contexto exige uma ruptura com modelos tradicionais de gestão baseados apenas em probabilidade e impacto. O desafio deixa de ser identificar riscos individualmente e passa a ser compreender como eles convergem, se amplificam e atravessam decisões estratégicas.

Empresas que continuam tratando risco como checklist tendem a reagir tarde. As que o integram à governança passam a decidir melhor e com menos sobressaltos.

II. A governança deixa de ser discurso e vira filtro de mercado

Em 2026, governança não será mais um diferencial competitivo. Ela se torna um critério implícito de acesso. Não por força de uma lei específica, mas por uma transformação prática nas relações econômicas.

Contratações, parcerias, auditorias, integrações tecnológicas e negociações de longo prazo passam a incorporar filtros claros de compliance: controle de dados, rastreabilidade decisória, clareza contratual, maturidade em segurança da informação e capacidade real de resposta a incidentes.

Empresas que não conseguem demonstrar previsibilidade, organização e responsabilidade deixam de ser vistas como fornecedores de risco aceitável e simplesmente deixarão de ser escolhidas.

III. Dados e inteligência artificial reposicionam o papel do Direito

A intensificação do uso de dados e inteligência artificial reposiciona, de forma definitiva, o papel do Direito nas organizações. Em 2026, não saber quais dados são tratados, por quem, com que finalidade e sob qual lógica algorítmica deixa de ser falha técnica e passa a ser fragilidade jurídica.

A IA amplia eficiência, mas também dilui responsabilidades quando não existe governança clara. Decisões automatizadas, vieses invisíveis, dependência de plataformas globais e opacidade de modelos começam a ser avaliados como riscos contratuais, regulatórios e reputacionais.

O mercado passa a diferenciar quem usa IA como atalho de quem a integra com critério, supervisão humana e responsabilidade institucional.

IV. Segurança deixa de ser custo e passa a ser estratégia

A convergência entre riscos físicos, digitais e institucionais transforma o papel da segurança corporativa. Em 2026, ela deixa de ser uma função periférica e passa a ocupar o centro da estratégia de continuidade.

Infraestruturas críticas, cadeias logísticas, ambientes digitais e pessoas tornam-se superfícies integradas de exposição. Um incidente localizado pode gerar impactos sistêmicos, tanto jurídicos, como financeiros e reputacionais.

Nesse cenário, segurança bem estruturada não é apenas proteção. É capacidade de operar mesmo sob pressão, absorver choques, preservar a confiança e manter o negócio de pé quando o ambiente se torna adverso.

V. O jurídico muda de posição: de contenção para infraestrutura

Talvez a mudança mais sensível esteja no papel do jurídico. O modelo reativo, excessivamente formalista e desconectado do negócio perde espaço. Em ambientes complexos, decisões jurídicas tardias não protegem, inviabilizam.

Em 2026, o jurídico relevante é aquele que:

  • participa da construção das decisões, e não apenas da sua revisão;

  • compreende tecnologia, dados e operação;

  • traduz risco em critérios objetivos de decisão;

  • sustenta a inovação sem comprometer a segurança jurídica.

Nesse novo arranjo, o Direito deixa de atuar como limite externo e passa a funcionar como infraestrutura de crescimento, sustentando decisões, contratos e relações em ambientes cada vez mais exigentes.

Em síntese, 2026 não inaugura uma era de maior velocidade, mas de maior seletividade. As instituições serão avaliadas não pelo que prometem inovar, mas pelo que conseguem sustentar com consistência ao longo do tempo.

Governança, risco, dados, segurança e jurídico deixam de ser áreas de apoio e passam a ser elementos estruturantes da estratégia.

O mercado não perguntará quem é mais disruptivo. Perguntará quem é confiável quando tudo fica instável. E essa resposta não se constrói com discursos ou slogans de inovação, ela se constrói com estrutura e cultura.

Fernanda Nogueira

Advogada com mais de 15 anos de atuação estratégica na área empresarial, com expertise em proteção de dados, compliance, contratos complexos e ativos intelectuais. Atualmente é Diretora Jurídica, de Compliance e Riscos da TM1 Brand Experience, onde lidera projetos de grande porte e complexidade, além de ativações de marcas e estandes em feiras e festivais. Antes disso, foi sócia do João Bosco Leopoldino Advocacia, assessorando empresas de biotecnologia, diagnóstico in vitro e tecnologia, com foco em contratos estratégicos, programas de integridade e proteção jurídica de marcas, softwares e know-how. É palestrante e autora de livros e artigos jurídicos nas áreas de direito digital, compliance e proteção de dados pessoais. Possui MBA em Gestão Estratégica de Negócios, mestrado em ciências jurídico-empresariais pela Universidade de Lisboa/PT e certificações em proteção de dados. Atualmente, também atua como consultora jurídica independente, apoiando empresas que buscam inteligência jurídica aliada à agilidade e inovação na tomada de decisão.

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