
O ano de 2026 projeta-se como um período de elevada complexidade para os ecossistemas de Tecnologia da Informação e Segurança Cibernética. A aceleração da transformação digital, associada à adoção intensiva de Inteligência Artificial (IA), à crescente dependência de infraestruturas em nuvem e à ampliação da superfície de ataque baseada em identidade, redefine de forma estrutural o gerenciamento de riscos organizacionais.
Estudos recentes indicam que os riscos cibernéticos deixaram de ser predominantemente técnicos e passaram a assumir uma natureza sistêmica, envolvendo governança corporativa, conformidade regulatória, continuidade de negócios e sustentabilidade organizacional (WEF, 2024). Nesse contexto, a cibersegurança consolida-se como um elemento estratégico da alta administração, extrapolando o escopo operacional das áreas de tecnologia.
Este artigo analisa algumas tendências que poderão moldar o cenário da cibersegurança em 2026, com base em relatórios de mercado, frameworks internacionais e evidências empíricas, propondo direcionamentos estratégicos para tomada de decisão e investimentos.
Inteligência Artificial: Entre Oportunidade Estratégica e Risco Sistêmico
A Inteligência Artificial tornou-se um vetor essencial para eficiência operacional, automação e escalabilidade dos negócios. No entanto, sua adoção acelerada introduz riscos emergentes que desafiam os modelos tradicionais de segurança da informação e gestão de riscos (NIST, 2024).
As ferramentas baseadas em IA, especialmente modelos de linguagem de grande escala (LLMs), ampliam significativamente a produtividade organizacional. Todavia, também potencializam a industrialização de ataques cibernéticos, viabilizando campanhas de engenharia social altamente sofisticadas, automação de malware e exploração avançada de vulnerabilidades (ENISA, 2024).
O relatório State of Cybersecurity: 2025 Trends, da Arctic Wolf, aponta que preocupações relacionadas à IA, privacidade e conformidade superaram o ransomwarecomo a principal inquietação dos líderes de segurança, evidenciando uma mudança estrutural na percepção de risco (ARCTIC WOLF, 2025). Já as pesquisas complementares conduzidas pela TechnologyAdvice indicam que:
Esses dados corroboram análises que indicam que a ausência de governança adequada da IA amplia significativamente o risco de vazamento de informações estratégicas e de propriedade intelectual (ISO/IEC, 2023). Além disso, observa-se a proliferação de ataques cibernéticos impulsionados por IA, incluindo malware assistido por LLMs, técnicas de ofuscação adaptativa e geração automática de exploits, elevando o nível de sofisticação das ameaças (MITRE, 2024).
Governança da Inteligência Artificial e Gestão de Riscos
Do ponto de vista da governança, a IA introduz desafios relacionados à explicabilidade, responsabilização e supervisão humana. A dificuldade de atribuir responsabilidade por decisões automatizadas durante incidentes compromete processos de resposta, auditoria e “accountability” corporativa (OECD, 2023).
Não obstante o NIST AI Risk Management Framework (AI RMF 1.0) propõe diretrizes estruturadas para identificação, avaliação e mitigação de riscos associados à IA. Entretanto, estudos indicam que sua adoção ainda é limitada, especialmente em organizações de médio porte (NIST, 2024).
Nesta posição as organizações deixam de questionar se devem adotar IA e passam a discutir como governá-la, controlá-la e estabelecer níveis aceitáveis de confiança, alinhando inovação tecnológica a princípios de segurança, privacidade e conformidade regulatória.
Automação do SOC: De Diferencial Competitivo a Condição de Sobrevivência
Os Centros de Operações de Segurança (SOCs) enfrentam um cenário de sobrecarga operacional sem precedentes. Relatórios indicam que aproximadamente 90% dos SOCs lidam com volumes excessivos de alertas e falsos positivos, comprometendo a capacidade de resposta a incidentes relevantes (IBM, 2024). Além disso, 62% dos líderes de segurança relatam dificuldades significativas na retenção de profissionais qualificados, refletindo a escassez global de talentos em cibersegurança (ISC², 2024).
Embora cerca de 40% dos SOCs já utilizem IA em alguma capacidade, essa adoção frequentemente ocorre de forma fragmentada, fora de fluxos operacionais formalizados e sem governança adequada (GARTNER, 2024). Ainda assim, 74% dos CISOs acreditam que os benefícios da IA no SOC superam os riscos, indicando uma tendência irreversível de automação.
Gestão de Identidades e Acessos Privilegiados (IAM/PAM)
A identidade consolidou-se como uma das principais superfícies de ataque nos ambientes digitais contemporâneos. Estudos da Duo Security indicam que 75% dos líderes de segurança não possuem visibilidade completa sobre identidades, enquanto 94% reconhecem que a complexidade dos ambientes reduz a eficácia dos controles de segurança (DUO SECURITY, 2024). Em paralelo, observa-se um aumento consistente nos investimentos em segurança de identidade, refletindo o reconhecimento de que credenciais comprometidas e acessos privilegiados são vetores críticos de ataques modernos (VERIZON, 2024).
Entre os principais desafios destacam-se:
Resiliência Cibernética e Governança da Segurança da Informação
Apesar da crescente conscientização, muitas organizações permanecem despreparadas para lidar com ameaças avançadas. Estima-se que quase 90% não possuam maturidade suficiente para responder adequadamente a ataques impulsionados por IA ou incidentes de grande impacto (WEF, 2024).
A ausência de Planos de Continuidade de Negócios (PCN) testados e integrados a cenários cibernéticos compromete a capacidade de resposta e recuperação. Nesse contexto, a resiliência torna-se critério central na seleção de soluções e parceiros estratégicos (ISO/IEC 22301, 2019). Estratégias eficazes de resiliência para 2026 devem contemplar:
Critérios Estratégicos na Aquisição de Soluções de Cibersegurança
As organizações que não demonstram clareza, transparência e alinhamento estratégico tendem a ter problemas na consolidação da maturidade nas cadeias de suprimentos ou em processos de aquisição (GARTNER, 2024). Consequentemente, os decisores em segurança da informação concentram-se, cada vez mais, em critérios estratégicos de longo prazo, tais como:
Sustentabilidade do investimento no horizonte de três a cinco anos.
Conclusão
O cenário de cibersegurança em 2026 poderá marcado por elevada complexidade, interdependência tecnológica e riscos amplificados pela automação inteligente. A capacidade das organizações de enfrentar esse ambiente dependerá menos de soluções isoladas e mais da adoção de estruturas robustas de governança, resiliência e gestão integrada de riscos.
A convergência entre Inteligência Artificial, automação do SOC, gestão de identidades, GRC e continuidade de negócios não representa mais um diferencial competitivo, mas um requisito essencial para a sustentabilidade organizacional.
As Organizações que estruturarem suas estratégias com base em padrões reconhecidos, evidências empíricas e visão de longo prazo estarão mais preparadas para transformar a cibersegurança em um habilitador estratégico de valor.



