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China deve liderar a produção de robôs humanoides a partir de 2026 e desafiar planos da Tesla

Com apoio de Pequim, empresas chinesas aceleram escala industrial de robôs humanoides enquanto EUA apostam em IA e integração vertical

O bilionário Elon Musk colocou os robôs humanoides no centro da estratégia da Tesla em 2025, defendendo que essa tecnologia pode sustentar uma avaliação de mercado de dezenas de trilhões de dólares. Apesar do discurso ambicioso, a montadora ainda não iniciou a venda comercial de seu robô humanoide Optimus, abrindo espaço para que concorrentes avancem.

Esse vácuo tende a ser ocupado por empresas chinesas, que devem sair na frente da Tesla e iniciar a produção em larga escala de robôs humanoides já em 2026. O movimento reflete a decisão de Pequim de transformar a robótica em um pilar estratégico nacional.

“Atualmente, a China está à frente dos Estados Unidos na fase inicial de comercialização de robôs humanoides”, afirmou Andreas Brauchle, sócio da consultoria Horváth, em entrevista à CNBC. Segundo ele, embora ambos os países devam alcançar mercados de tamanho semelhante no longo prazo, a China avança mais rapidamente neste momento inicial.

Os robôs humanoides são projetados para replicar a forma e os movimentos humanos, combinando inteligência artificial com hardware sofisticado, como semicondutores, sensores e atuadores. Defensores da tecnologia acreditam que essas máquinas poderão ser amplamente utilizadas em fábricas, hotéis, hospitais e até em residências.

Robótica como prioridade nacional na China

Nos últimos anos, a China elevou a robótica ao status de prioridade estratégica, com planos claros para estruturar cadeias de suprimentos completas e viabilizar a produção em massa desses sistemas. Em outubro, o presidente Xi Jinping e o Comitê Central divulgaram diretrizes do 15º Plano Quinquenal, que define áreas-chave para o desenvolvimento econômico e tecnológico do país.

O documento destaca o conceito de “inteligência artificial incorporada”, termo usado para descrever tecnologias que combinam IA diretamente com hardware físico, como robôs humanoides e veículos autônomos.

Para Pequim, essa tecnologia representa uma resposta a desafios estruturais, como o envelhecimento da população e a queda da taxa de natalidade, além de fortalecer a posição da China na disputa global por liderança tecnológica.

“O investimento em robôs humanoides é impulsionado por pressões demográficas, pela busca de novos vetores de crescimento econômico e pela intensificação da competição internacional”, explicou Karel Eloot, sócio sênior da McKinsey & Company.

Com menos trabalhadores disponíveis e custos trabalhistas em alta, os robôs passam a ser vistos como uma alternativa para sustentar a produtividade da segunda maior economia do mundo.

Corrida tecnológica com os Estados Unidos

A robótica também se insere na disputa tecnológica entre China e Estados Unidos. Como uma aplicação prática da inteligência artificial, o setor pode se tornar um novo campo de rivalidade a partir de 2026. Segundo o site Politico, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, tem se reunido com executivos do setor para discutir formas de acelerar o desenvolvimento da robótica, incluindo a possibilidade de uma ordem executiva sobre o tema.

Analistas da RBC Capital Markets estimam que o mercado global endereçável de robôs humanoides pode atingir US$ 9 trilhões até 2050, com a China respondendo por mais de 60% desse total.

Principais empresas chinesas de robôs humanoides

Diversas empresas chinesas já estão se preparando para escalar a produção. A Unitree, uma das startups mais comentadas do setor, planeja uma oferta pública inicial que pode avaliá-la em cerca de US$ 7 bilhões. A empresa possui vários modelos, incluindo humanoides, e chamou atenção ao lançar o robô H2, capaz de executar movimentos de dança.

A UBTech Robotics é outra protagonista. Seus robôs humanoides atendem tanto o setor industrial quanto aplicações comerciais, como atendimento ao público. O modelo Walker S2, voltado para fábricas, é capaz de trocar a própria bateria, operando continuamente por 24 horas.

Listada na bolsa de Hong Kong, a UBTech levantou cerca de US$ 400 milhões neste mês para financiar sua expansão. A empresa pretende entregar 500 robôs industriais ainda este ano e aumentar a produção de humanoides para 5.000 unidades em 2026 e 10.000 em 2027.

A AgiBot anunciou recentemente a saída de seu 5.000º robô humanoide da linha de produção, enquanto a montadora chinesa de veículos elétricos Xpeng apresentou seu robô humanoide de segunda geração, chamado Iron, com planos de iniciar a produção em massa no próximo ano.

Embora existam mais de 150 empresas de robôs humanoides na China, essas companhias estão entre as mais avançadas em escala e tecnologia.

Vantagens e limitações da China

A ampla capacidade industrial e a cadeia de suprimentos integrada dão à China uma vantagem relevante. “As empresas chinesas conseguem desenvolver e fabricar robôs com custos significativamente menores do que em outras regiões”, explicou Ethan Qi, diretor associado da Counterpoint Research. A UBTech, por exemplo, projeta reduções anuais de custo entre 20% e 30%.

Além disso, governos locais chineses oferecem subsídios e incentivos diretos para empresas de robótica.

Os Estados Unidos, por outro lado, mantêm vantagens em áreas como algoritmos avançados, autonomia e desenvolvimento de IA, segundo Brauchle. Para Eloot, as empresas americanas apostam na integração vertical, controlando desde componentes críticos — como atuadores — até o software de inteligência artificial.

Gargalos tecnológicos e risco de bolha

Apesar do avanço, o setor enfrenta obstáculos. Um dos principais é a dependência de chips estrangeiros, especialmente de empresas americanas como a Nvidia. Também existem desafios técnicos relacionados ao desempenho da IA em ambientes imprevisíveis, além de barreiras regulatórias.

Outro problema é a complexidade de replicar movimentos humanos finos, como os das mãos e dedos. “A maioria das mãos robóticas ainda tem graus de liberdade muito limitados”, observa Eloot.

O custo também é um fator crítico. Atualmente, o preço de produção de protótipos avançados varia entre US$ 150 mil e US$ 500 mil por unidade. Para competir com a mão de obra humana, esse valor precisaria cair para a faixa de US$ 20 mil a US$ 50 mil.

Mesmo com a robótica no centro da estratégia nacional, autoridades chinesas demonstram cautela. Em novembro, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma alertou para o risco de uma bolha de investimentos no setor, destacando o grande número de empresas lançando produtos semelhantes — um cenário que lembra ciclos anteriores vividos por tecnologias como os veículos elétricos.

Fonte: CNBC

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