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O fim da era do “suporte” e o início da era do “valor”

Por Jeremias Goedert

Durante décadas, o sucesso de um departamento de TI foi medido pelo silêncio: se os telefones não tocavam, e os sistemas estavam operacionais, o trabalho era considerado bem-feito. Eu mesmo, ao longo de mais de 25 anos de carreira liderando equipes em setores, que vão da indústria ao varejo, vi a tecnologia ser tratada muitas vezes como um “mal necessário” ou um centro de custos confinado ao suporte operacional. No entanto, o paradigma mudou drasticamente. Em uma era definida pela Inteligência Artificial e pela digitalização acelerada, a TI deixou de ser quem apenas “mantém as luzes acesas”, para se tornar o motor estratégico que dita o ritmo de crescimento de qualquer organização.

É necessária uma nova linguagem da TI, do “uptime” ao ROI, e o primeiro passo para esta transformação é cultural. O novo dialeto do CIO e dos gestores de tecnologia não pode ser composto apenas por “bits e bytes”, mas sim por indicadores que o Conselho de Administração compreenda: eficiência operacional, redução de custos e geração de receita.

O sucesso técnico — garantir que o “sistema não cai” — é hoje o mínimo esperado. O verdadeiro valor acrescentado surge quando a tecnologia é utilizada para otimizar o EBITDA (o problema já começa quando não se sabe o que esta sopa de letrinhas quer dizer). Na minha trajetória, tive – mais de uma vez – o desafio de modernizar operações nas quais a prioridade era converter o gasto tecnológico em investimento estratégico. Ao alinhar a infraestrutura aos objetivos de negócio, conseguimos não só melhorar a performance, mas também reduzir orçamentos em percentuais significativos (em alguns casos, até 25%), liberando capital para que a empresa pudesse investir no seu core business ou reinvestir em tecnologia (o melhor caminho).

Um erro comum que observo no mercado é a procura por uma “solução mágica”: muitas organizações investem milhões em ERPs robustos como SAP, Totvs ou Dynamics AX, ou ainda tentam implementar a Inteligência Artificial da moda, sem antes olhar para dentro.

A experiência em grandes implementações ensinou-me uma lição valiosa: o software é a parte fácil; o desafio real são os processos e as pessoas. Implementar uma ferramenta de ponta sobre processos ineficientes é apenas “automatizar o caos”. A transformação digital é, na sua essência, 20% tecnologia e 80% gestão de mudança. Sem um Business Blueprint bem definido, e sem o engajamento das equipes, a tecnologia será sempre vista como uma barreira, e não como uma aliada.

Olhando para o futuro (que já é presente) a TI está (ou deveria estar) transitando de um modelo reativo para um modelo preditivo. Com o avanço do Analytics e da IA, áreas que tenho explorado profundamente em especializações nos últimos anos, a tecnologia passa a antecipar cenários em vez de apenas relatar o que aconteceu.

Contudo, esta evolução exige uma governança rígida. Não existe IA eficiente sem dados higienizados e infraestrutura moderna em nuvem. O papel do líder de tecnologia hoje é garantir que esta inovação ocorra de forma segura, ética e, acima de tudo, sustentável financeiramente. A cibersegurança e a conformidade, como a LGPD, não são apenas requisitos legais, mas sim garantias da continuidade do negócio.

O novo departamento de TI não entrega apenas “disponibilidade”; entrega competitividade. A transição de ser um setor de suporte para um que entrega resultado ao negócio, profissionais de tecnologia, saiamos da nossa zona de conforto técnica e passemos a habitar a zona de decisão estratégica.

A tecnologia estratégica é uma jornada de parceria. Se a sua empresa ainda vê a TI apenas como o departamento que resolve problemas de rede, é hora de mudar a conversa (ou de casa). O caminho para a mesa de decisões começa na mudança da nossa própria mentalidade: deixar de ser um centro de custos para ser o maior catalisador de valor da empresa.

E na sua empresa? A TI já é vista como uma alavanca de crescimento ou ainda é tratada como um custo a ser reduzido? Vamos seguir esse debate nos comentários?

Jeremias Goedert

Executivo sênior com mais de 25 anos de experiência em Tecnologia da Informação e Inovação, especializado em liderar a transformação digital em grandes organizações nacionais e multinacionais. Com sólida formação em Inteligência Artificial, Data Science, Segurança da Informação e Gestão Estratégica , acumula resultados expressivos na modernização de processos e implementação de sistemas robustos como SAP, Totvs e Dynamics AX. Atualmente atua como Head de TI na Tax.Co e sua trajetória inclui passagens estratégicas por empresas como Sport Club Internacional, Group Indigo, Grupo Valeant e Bausch + Lomb, onde se destacou pela gestão de equipes multidisciplinares, otimização de orçamentos e fortalecimento da governança e cibersegurança. Possui sólida formação acadêmica pela PUC-RS e FGV, destacando-se pela graduação em Administração com ênfase em Análise de Sistemas e MBAs focados em Gestão Estratégica de TI , Inteligência Artificial, Analytics e Data Science.

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