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Falar a língua do financeiro: como apresentar risco cibernético e destravar orçamento sem prometer milagres

Por Rodrigo Rocha

Quando o tema é comunicação com a diretoria, especialmente em conselhos com forte viés financeiro, costumo ouvir dos meus clientes a mesma dificuldade: como transformar segurança em números que façam sentido para quem decide. Medo difuso de ataque não aprova orçamento. O que muda a conversa é  relacionar, de forma objetiva, quanto custa parar de faturar e quanto custa reduzir a chance e a duração dessa parada. Em um hospital, a interrupção de prontuário, prescrição e autorizações impacta leitos, qualidade assistencial e receitas; em uma indústria, a queda do ERP e dos sistemas de chão de fábrica interrompe ordens de produção e notas de faturamento. Falar nesses termos desloca a pauta do catálogo de ferramentas para a continuidade do negócio. 

O primeiro passo é traduzir cenários em impacto financeiro com poucos números e sem jargão. Diretoria entende três métricas simples: tempo para perceber que algo saiu do padrão, tempo para conter o problema e tempo para retomar a operação. Quando essas métricas são lidas ao lado do custo por hora parada e do faturamento por hora, a equação aparece com nitidez. Em saúde, cada minuto sem sistema clínico tem custo assistencial e risco regulatório; em manufatura, uma hora sem linha produz perdas diretas e atrasos contratuais. O orçamento deixa de ser visto como despesa abstrata quando é apresentado como compra de tempo: minutos a menos para detectar, horas a menos para recuperar, dias a menos de incerteza. 

Nessa mesma lógica, vale ser claro sobre o papel do sensor no endpoint. Um EDR mais robusto reduz o tempo de detecção e acelera as respostas porque
transforma sinais fracos em evidências utilizáveis e permite isolar máquinas em minutos, antes que a movimentação lateral escale o impacto. Não é promessa grandiosa; é redução mensurável do tempo entre o primeiro indício e a ação concreta. Quando esse encurtamento de ciclo é mostrado com dados do próprio ambiente, a diretoria entende por que investir ali compra tempo com retorno direto no fluxo de caixa. 

Outra barreira recorrente é a expectativa de blindagem total. Ser franco aqui constrói confiança. Risco residual existe, mesmo com investimento. O  compromisso que vale é reduzir a frequência dos piores eventos e encurtar a sua duração. Isso significa afirmar sem rodeios que incidentes continuarão a  acontecer, mas que as decisões de orçamento estão alinhadas para transformar uma crise longa em uma interrupção gerenciável. Em um hospital, a meta é retomar rapidamente o que sustenta a segurança do paciente; em uma indústria, é reerguer os sistemas que recolocam a produção para girar e voltam a emitir notas. Essa honestidade tira a conversa do terreno do amuleto e a coloca no campo da previsibilidade operacional. 

 

Também é comum ouvir que a diretoria quer visibilidade, não telas complexas. A resposta não é um painel exuberante, e sim um marcador constante. Levar mensalmente os três tempos que importam, acompanhados de duas ou três leituras de risco claramente monetizadas, cria linguagem comum entre finanças e tecnologia. Quando se explica por que uma melhoria de detecção economiza horas de paralisação, por que um teste de restauração reduz incerteza na  retomada, por que a revisão de privilégios derruba rotas de abuso, o orçamento ganha propósito concreto. Em vez de uma lista de aquisições, surge um roteiro de redução de tempo parado que pode ser auditado reunião após reunião. 

Há ainda o tema da escolha e da sequência. Conselhos com perfil financeiro querem saber por que investir primeiro em uma frente e não em outra. A linha de raciocínio que costuma funcionar é amarrar cada bloco de investimento a uma queda mensurável em um daqueles três tempos. Telemetria no endpoint com EDR reduz o intervalo entre sinal e ação. Disciplina de backup com imutabilidade e teste real diminui a novela de retomada. Governança de identidade com a fricção adequada derruba escadas de privilégio que encurtam o caminho do atacante. Essa amarração evita promessas vagas e permite que a diretoria acompanhe o retorno em marcos objetivos, sem depender de fé no discurso técnico. 

No fim, aprovação de orçamento não é um exercício de slides; é uma questão de qualidade da comunicação com a alta direção. Quando conseguimos traduzir risco em impacto no negócio — tempo parado, receita afetada, custos adicionais — e mantemos essa conversa de forma constante, com a mesma régua e sem rodeios, o tema deixa de soar abstrato e vira gestão. A disciplina de voltar todo mês com os três tempos, os cenários que doem e as metas de redução faz a diferença. Assim, aos poucos, a segurança da informação ganha relevância estratégica dentro da empresa, não por insistência retórica, mas porque passa a demonstrar, de maneira objetiva, onde protege resultado e onde compra tempo para o negócio continuar operando. 

 

Rodrigo Rocha

Atuo há mais de duas décadas na área de tecnologia e cibersegurança, ajudando organizações a evoluírem sua postura de proteção com foco em resultados reais. Sou co-fundador da Gruppen IT Security e graduando em Psicologia, unindo segurança digital, comportamento humano e gestão do risco de forma integrada. Escrevo sobre cibersegurança aplicada, cultura digital e resiliência no Café com Bytes.

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