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Eu apanhei da Direita e da Esquerda!

Por Diego Baldi

Tu achas que minha mãe escolhia o pé direito ou o pé esquerdo na hora de me dar uns corretivos? Que nada! A que estava mais próxima era a que voava em modo teleguiado! O design de borracha anatômica, dependendo da força que era empenhada no arremesso, funcionava igual a um bumerangue: acertava o cara nas pernas e voltava na mão do pai ou da mãe num piscar de olhos. E quando nossos pais estavam com outro calçado que não eram as Havaianas, a derrota maior era ter que tirar a própria Havaiana do pé, entregar na mão da mãe e ser “sapecado” pelos próprios calçados. Isto era o fim moral, vergonha mundial. Eu apanhei do pé direito, do esquerdo, com preguinho, com tira azul e chinelo preto remendado, etc.

Essa onipresença doméstica, onde o chinelo serve tanto para o lazer quanto para a disciplina, é a prova cabal de que a trajetória das Sandálias Havaianas transcende a categoria de calçados para se estabelecer como um fenômeno sociológico e industrial brasileiro. O êxito da marca não é fruto do acaso, mas o resultado de uma amálgama precisa entre uma engenharia de materiais superior, um esforço contínuo de atualização tecnológica e uma estratégia de comunicação que oscila entre a genialidade cultural e o risco calculado.

No alicerce industrial, a hegemonia das Havaianas fundamenta-se em uma decisão química crucial: a rejeição do PVC em favor de uma liga proprietária de borrachas. Enquanto o mercado de baixo custo aposta em termoplásticos injetados, a Alpargatas desenvolveu uma fórmula que une a elasticidade do látex natural à resistência da borracha sintética (SBR). O processo produtivo, caracterizado pela vulcanização e pelo corte automatizado, garante um produto que resiste à deformação e ao calor. Essa base tecnológica viabiliza o sistema de fixação mecânica das tiras — que, ao dispensar adesivos químicos, utiliza a memória elástica do material para criar um travamento estrutural, estabelecendo um padrão de durabilidade que justifica a fidelidade do consumidor.

Paralelamente à preservação dessa fórmula química, a empresa atravessa uma complexa jornada de atualização rumo à Indústria 4.0. A evolução tecnológica da Alpargatas transcendeu a mecanização robusta do século XX para abraçar a digitalização de processos, incorporando inteligência artificial na previsão de demanda e sistemas de IoT (Internet of Things) para monitoramento em tempo real do chão de fábrica. No entanto, essa transformação impõe desafios operacionais severos, notadamente na integração de parques industriais legados com novos ecossistemas digitais. O grande obstáculo contemporâneo reside em harmonizar a rigidez da produção em massa com a agilidade logística e a personalização exigidas pelo modelo Direct-to-Consumer (DTC), sem comprometer as margens de lucro que sustentam o negócio.

Entretanto, a excelência técnica e a digitalização, por si sós, não constroem um mito. É na esfera da comunicação que a marca transforma borracha em identidade nacional, frequentemente flertando com a controvérsia para manter-se relevante. Historicamente, a publicidade das Havaianas adotou o humor e a quebra de tabus como linguagem padrão. O episódio de 2009, protagonizado por uma avó que discutia abertamente a vida sexual, exemplifica essa abordagem: a marca utilizou o choque moral para se posicionar como moderna, transformando a censura em reforço de marca.

Contudo, a dinâmica das polêmicas evoluiu. O cenário de 2025, marcado pela campanha de fim de ano com Fernanda Torres e o slogan sobre “não começar com o pé direito”, demonstrou que a marca não está imune à intensa polarização política. A interpretação de um trocadilho sobre superstições como uma afronta ideológica revela os novos riscos da comunicação de massa. Diferente das controvérsias antigas, de cunho comportamental, as atuais tocam em nervos políticos expostos, exigindo da empresa uma gestão de crise muito mais sofisticada para proteger seus ativos intangíveis sem alienar parcelas significativas do mercado.

Para ilustrar essa ironia cíclica, basta olhar para trás: em um passado não tão distante, o jogador Romário comprou um par de Havaianas amarelas e mandou apenas o pé esquerdo para a Argentina, no endereço de Maradona, pois, “segundo a propaganda”, o pé direito é nosso. Hoje, colocar no lixo as Havaianas novas que você ganhou do Amigo Secreto da empresa ou da família diz muito mais sobre aproveitar o clickbait da hora e entrar na onda do que um ato genuíno de desfazer-se de um produto ruim — enquanto a concorrência, atenta, surfa nessas novas ondas publicitárias. Sendo assim, resta a memória de quem passou a infância inteira apanhando “de direita e de esquerda”, provando que, politizadas ou não, as Havaianas sempre deixaram suas marcas — às vezes, literalmente.

Diego Baldi

Profissional de Tecnologia com mais de duas décadas de experiência em TI, apaixonado por churrasco, comunicação e tudo que envolve boas ideias e bons encontros. Ao longo da minha jornada, atuei em diversos projetos ligados à transformação digital, inovação e segurança da informação, sem nunca perder o olhar curioso e humano sobre as conexões que a tecnologia permite.

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