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USP lança cátedra de IA Responsável em parceria com Google

Por Ricardo Brasil

O lançamento da Cátedra de IA Responsável da USP, em parceria com o Google, inaugura um novo ciclo para o ecossistema brasileiro ao aproximar pesquisa de ponta, práticas de mercado e debate regulatório. A iniciativa sinaliza que maturidade em IA exige não apenas tecnologia, mas governança, transparência e propósito público.

Um movimento estrutural para a maturidade da IA no Brasil

Depois de dois anos atuando diretamente com IA Responsável, tive a oportunidade de participar de um evento que considero um marco para o ecossistema brasileiro: o lançamento da Cátedra de IA Responsável da USP, realizado em fevereiro de 2025. A iniciativa, apoiada pelo Google, chega com o objetivo de promover pesquisa, formação de talentos, boas práticas e instrumentos de governança para o uso seguro e ético de inteligência artificial.

O timing não poderia ser mais relevante. Estamos em um momento de aceleração regulatória global, especialmente após a aprovação do AI Act europeu em 2024, e o Brasil está amadurecendo seu próprio debate sobre diretrizes de uso responsável em instituições públicas e privadas. Da minha perspectiva como profissional da área, essa convergência entre academia, indústria e regulação é exatamente o que precisávamos.

A USP já contava com centros de excelência como o C4AI e laboratórios avançados de ética computacional. O que essa nova cátedra faz é adicionar uma camada institucional dedicada especificamente a princípios, auditoria, explicabilidade e impacto social. Nesses dois anos trabalhando com IA Responsável, vi na prática como esses temas ganham relevância à medida que empresas e governos ampliam o uso de IA em processos críticos e demandam modelos mais transparentes e auditáveis. Segundo as notícias institucionais da própria universidade, o foco é fomentar intercâmbio contínuo entre ciência, tecnologia aplicada e formulação de políticas.

O que mais me marcou no evento foi o ambiente de colaboração madura entre academia, setor privado e governo. A sensação predominante não era apenas de celebração, mas de construção coletiva. Havia um consenso claro de que uma IA realmente responsável precisa fazer parte do núcleo da inovação, e não ser apenas um conjunto de controles isolados. Para quem trabalha diariamente com esses desafios, ver esse alinhamento foi revigorante.

O que diferencia esta cátedra das iniciativas anteriores

Na minha experiência acompanhando o desenvolvimento do campo de IA Responsável no Brasil, identifiquei alguns elementos estruturantes que tornam essa cátedra única no cenário nacional e que reforçam tanto sua originalidade quanto seu impacto potencial.

Integração entre pesquisa e aplicação industrial

A parceria com o Google aproxima estudos acadêmicos de problemas reais enfrentados por empresas de grande porte. Isso facilita a investigação de vieses, fairness, explicabilidade e auditoria técnica, ampliando a viabilidade prática dos resultados. Como profissional que atua na interface entre teoria e prática, vejo esse movimento como essencial para superar a distância que muitas vezes existe entre a academia e o mercado.

Participação ativa em debates regulatórios

A USP já participa de discussões sobre o Marco Legal da IA no Brasil. A cátedra fortalece essa capacidade institucional e promete contribuir de forma mais sistemática com legislações, órgãos reguladores e o sistema de justiça por meio de relatórios, pareceres e evidências científicas. Nesses dois anos, percebi como a falta de referências técnicas sólidas dificulta o avanço regulatório. A cátedra pode preencher essa lacuna.

Formação de novas competências

O mercado brasileiro carece de profissionais especialistas em governança, auditoria algorítmica, risk assessment e observabilidade. Sinto isso na pele quando busco expandir equipes ou encontrar parceiros capacitados. A iniciativa pretende formar talentos para suprir essa demanda crescente e incentivar a adoção responsável em escala.

Desenvolvimento de métricas e protocolos

Durante o evento, os coordenadores da cátedra mencionaram a importância de criar métricas padronizadas para avaliar vieses, explicabilidade e impacto social. Na minha prática profissional, a ausência de métricas é um dos obstáculos mais frequentes. Consultorias como McKinsey e Gartner confirmam que essa é uma das principais barreiras para adoção responsável de IA em empresas e instituições públicas.

IA Responsável como alicerce para políticas, regulação e desenvolvimento ético

Acredito que a maturidade do ecossistema de IA depende de avanços em quatro frentes que a cátedra pretende influenciar diretamente.

Criação de políticas públicas informadas por evidências

Governos precisam de parâmetros técnicos sólidos para classificar riscos, definir obrigações e orientar compras públicas de sistemas de IA. A cátedra pretende apoiar esse movimento por meio da produção de estudos e modelos de referência. Da minha perspectiva, essa conexão entre pesquisa e política pública é fundamental para evitar tanto regulação excessiva quanto permissividade inadequada.

Regulação equilibrada e orientada pela proteção do cidadão

O Brasil vive um momento de intensa discussão regulatória. Nesses dois anos, acompanhei debates que oscilavam entre extremos, muitas vezes por falta de análises técnicas independentes. A academia pode reduzir esses ruídos ao oferecer evidências embasadas. A cátedra reforça essa capacidade de contribuir com diferentes setores regulados.

Desenvolvimento seguro, ético e auditável

Empresas necessitam de diretrizes aplicáveis ao desenvolvimento de sistemas. Entre essas diretrizes estão avaliação de risco por tipo de modelo, mitigação de vieses, monitoramento de drift, documentação de decisões e explicabilidade. São práticas que se tornam obrigatórias à medida que modelos passam a operar em ambientes críticos. Na minha atuação, vejo empresas buscando essas diretrizes, mas encontrando pouco material brasileiro adaptado à nossa realidade.

Observabilidade como eixo central da confiança

Observabilidade em IA significa acompanhar, em tempo real, desempenho, segurança, justiça e consistência dos modelos. A academia brasileira ainda possui produção limitada nessa área. A cátedra pode acelerar esse campo ao unir engenharia de software, ciência de dados e ética computacional. Como profissional que trabalha com implementação de sistemas de IA, considero a observabilidade um dos pilares mais negligenciados e, ao mesmo tempo, mais críticos.

Como a parceria USP e Google pode acelerar a maturidade do ecossistema

Minha tese central é que essa parceria cria um ciclo virtuoso entre pesquisa científica e viabilidade tecnológica. A indústria contribui com escala e problemas reais. A academia acrescenta rigor, independência e visão de longo prazo.

Durante o evento, pesquisadores e executivos demonstraram alinhamento em torno de um ponto essencial: IA responsável não reduz inovação. Pelo contrário, cria as condições para que ela aconteça de forma sustentável e aceitável pela sociedade. Essa convergência entre pragmatismo e propósito público reforçou muito meu otimismo sobre o impacto da iniciativa. Nesses dois anos de trabalho, enfrentei inúmeras vezes a percepção equivocada de que governança é um freio à inovação. Ver esse entendimento maduro sendo compartilhado por líderes acadêmicos e empresariais foi encorajador.

A cátedra pode estimular colaboração entre universidades e empresas, promover frameworks de governança alinhados ao AI Act, formar talentos em áreas críticas e produzir conhecimento com impacto direto em decisões regulatórias e industriais. Também pode orientar mecanismos de transparência necessários para construir confiança social na IA.

Caminhos práticos para profissionais e pesquisadores

A partir da minha experiência e das discussões que presenciei no lançamento da cátedra, algumas recomendações emergem claramente para profissionais e pesquisadores.

Primeiro, é essencial adotar padrões mais elevados de governança interna. Isso inclui políticas de uso, processos de revisão ética e práticas de controle de qualidade. Nesses dois anos, vi organizações que incorporaram esses padrões desde o início terem muito mais facilidade para escalar seus projetos de IA.

Segundo, devemos aplicar métricas de fairness, explicabilidade e risco, além de manter documentação consistente. A ausência dessas práticas cria dívidas técnicas e éticas que se tornam cada vez mais difíceis de resolver.

Terceiro, é fundamental investir em equipes multidisciplinares que combinem tecnologia, humanidades e aspectos regulatórios. A complexidade da IA Responsável não pode ser abordada por uma única disciplina. Na minha prática, as soluções mais robustas sempre vieram de equipes diversas.

Por último, recomendo acompanhar a agenda legislativa e buscar cooperação com instituições acadêmicas, aproveitando oportunidades de pesquisa aplicada. A cátedra da USP pode ser um ponto de partida para essas parcerias.

Conclusão

A Cátedra de IA Responsável da USP em parceria com o Google representa um marco para o Brasil ao conectar pesquisa, políticas públicas, regulação e aplicação prática em empresas e instituições. Depois de dois anos trabalhando intensamente com IA Responsável, vejo um potencial real para colocar o país em posição de destaque na América Latina e fortalecer a confiança social no uso de IA.

A maturidade do ecossistema dependerá da capacidade de transformar princípios em prática e de manter o espírito colaborativo que observei no evento de lançamento. Como profissional da área, saio desse momento com renovado otimismo e com a certeza de que estamos construindo algo significativo para o futuro da IA no Brasil.

Ricardo Brasil, Especialista em IA Responsável e Diretor de TI na GWS Engenharia

Colunista Café com Bytes | Tecnologia | Inteligência Artificial

 

Ricardo Brasil

Executivo de IA e Transformação Digital | Colunista Café com Bytes Com mais de 20 anos liderando inovação e transformação em larga escala nos EUA e América Latina, trago para o Café com Bytes uma perspectiva estratégica sobre o futuro da IA corporativa. Minha jornada começou em cibersegurança, onde construí expertise em gestão de riscos e governança de TI, alicerces que hoje orientam minha atuação em IA Responsável e Agentic AI. Foi na Microsoft que adquiri minha experiência mais significativa em IA, desenvolvendo frameworks de governança e estratégias empresariais que garantem que a IA seja implantada com impacto, ética e escala. Sou autor do livro “5 Passos para a IA Responsável”, onde sistematizo essa abordagem prática para implementação ética de IA nas organizações. Já liderei equipes globais de 500+ profissionais e conduzi integrações pós-M&A e programas de excelência operacional. Combino visão estratégica com execução disciplinada, sempre traduzindo tecnologias emergentes em resultados de negócio mensuráveis. Aqui no Café com Bytes, compartilho insights práticos sobre IA corporativa, governança tecnológica, cibersegurança e liderança em transformação digital para executivos que precisam navegar a revolução da IA com confiança, segurança e clareza estratégica.

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