
Há algo de paradoxal no nosso tempo. Nunca tivemos tanta tecnologia à disposição para analisar dados, prever tendências e automatizar decisões. Ainda assim, a principal mensagem do 27º Congresso do IBGC foi simples: quanto mais avançada a tecnologia, maior a necessidade de discernimento humano.
Em praticamente todos os painéis, da inteligência artificial ao agronegócio, da saúde mental à geopolítica, reapareceu a mesma convicção: máquinas processam informações; pessoas assumem responsabilidades.
A neurocientista Heather Collins alertou para um risco silencioso. Ao terceirizarmos excessivamente nosso raciocínio para a IA, podemos atrofiar justamente aquilo que nos diferencia: pensamento crítico, julgamento e capacidade de interpretar contexto. Em outras palavras, a IA pode nos tornar mais eficientes, mas não necessariamente mais inteligentes.
Talvez a síntese mais elegante do congresso tenha vindo da palestra de Jubran Coelho, da KPMG. Ao discutir o futuro das empresas, ele apresentou quatro movimentos que precisam avançar simultaneamente: gerar valor real com a tecnologia, construir confiança por meio da governança, desenvolver pessoas para um ambiente de trabalho cada vez mais híbrido e fortalecer a qualidade dos dados que sustentam as decisões. A transformação digital não é uma questão tecnológica, mas essencialmente humana.
Outra reflexão relevante surgiu nos debates sobre liderança. Em um ambiente de pressão permanente, resultados sustentáveis dependem menos de controle e mais de confiança, propósito e saúde mental. Empresas não adoecem apenas por falta de recursos; adoecem quando perdem conexão humana.
Talvez a principal provocação do congresso tenha sido dirigida aos conselhos e líderes empresariais. Não basta perguntar o que a tecnologia pode fazer. A pergunta estratégica é outra: o que os seres humanos precisam continuar fazendo para que a tecnologia seja uma aliada e não uma substituta do bom senso?
O futuro certamente será digital. Mas, se houve uma conclusão dominante nos dois dias de debates, ela foi inequívoca: a vantagem competitiva continuará pertencendo às organizações capazes de combinar tecnologia com julgamento, dados com sabedoria, eficiência com propósito.
Porque, no fim das contas, o algoritmo recomenda. Quem responde continua sendo o ser humano.
Fernando Röhsig – Conselheiro de Administração (CCA – IBGC).



