Colunistas
Tendência

Bug de software paralisa grid da F1 no ùltimo final de semana

Falha no software padrão fornecido pela FIA deixou carros parados na volta de formação do GP do Bahrein, disputado em Sepang, e obrigou a entidade a programar uma correção às pressas.

A Fórmula 1 viveu no último domingo, 4 de outubro, uma cena inédita em sua história: carros de ponta, avaliados em centenas de milhões de dólares, parando na pista porque o software se recusou a liberar potência. O episódio ocorreu na volta de formação do GP do Bahrein, realizado no circuito de Sepang, na Malásia, sob chuva forte.

Pilotos como Max Verstappen e Lewis Hamilton, que largariam na primeira fila, perderam aceleração e chegaram a ficar praticamente imóveis. A direção de prova abortou a largada, e a corrida só começou depois de mais de 50 minutos de espera, tempo em que a FIA escreveu, validou e distribuiu um “patch” emergencial para as 11 equipes do grid.

O que travou os carros

As unidades de potência de 2026 dividem a força quase meio a meio entre o motor a combustão e o sistema elétrico, cuja participação foi praticamente triplicada em relação à geração anterior. Toda essa energia é dosada por software, trecho a trecho da pista.

Na chuva, o regulamento reduz a entrega elétrica para 250 kW. Durante as duas voltas de formação atrás do safety car, o pelotão se comprimiu num efeito sanfona e alguns carros quase pararam. Segundo Nikolas Tombazis, diretor de monopostos da FIA, nesse momento um bug impediu que a unidade de potência voltasse a liberar energia para o carro arrancar de novo.

Em nota oficial, a FIA atribuiu a falha a uma combinação sem precedentes de quatro fatores: rotação baixa do motor, pouca aderência, configurações de gerenciamento de energia para pista molhada e a divisão de setores do circuito de Sepang.

Todos os carros com motor Ferrari foram afetados, além de uma unidade da Red Bull Powertrains e uma da Audi. Os motores Mercedes escaparam, mas Tombazis atribuiu a diferença ao acaso: nem todos os carros chegaram a velocidades tão baixas na volta de formação.

O ponto mais sensível é a origem do defeito. O software não pertence a uma equipe ou montadora: é o programa padrão usado por todo o grid, desenvolvido e validado pela própria FIA com o fornecedor da central eletrônica padrão, a Motion Applied, e com as equipes. A entidade reconheceu que a falha não apareceu nos testes de pré-temporada.

Uma atualização de software no grid

Com a bandeira vermelha, os 20 carros voltaram ao pit lane. Engenheiros da FIA identificaram o problema e escreveram a correção em cerca de 20 minutos, numa solução comparada à atualização de um celular ou notebook.

O patch não consertou o defeito em si. Ele contornou o problema retirando a limitação de potência para chuva nos trechos da pista onde o bug se manifestava. Como a mudança valia igualmente para todos, não houve vantagem competitiva para nenhuma equipe. Os oficiais ainda precisaram conferir, carro a carro, se a atualização havia sido instalada corretamente antes de autorizar a nova largada.

Quando a corrida finalmente começou, o resultado foi uma prova movimentada, com clima variável, vencida por Max Verstappen, justamente o piloto cuja largada lenta na primeira volta de formação ajudou a disparar a falha. FIA, equipes e fabricantes de motores conduzem agora uma revisão completa do incidente para desenvolver uma solução definitiva.

Pilotos reagem: “inaceitável”

A confusão dominou as conversas depois da bandeirada. Lando Norris, da McLaren, classificou as falhas eletrônicas como “horríveis” e disse que o episódio reforça a necessidade de a F1 abandonar os motores híbridos.

Fernando Alonso, da Aston Martin, avaliou que há tecnologia demais envolvida na categoria e que o público não valoriza isso. Verstappen, mesmo vencedor, comparou a cena das voltas de formação a uma corrida de kart de brinquedo.

As críticas reforçam uma queixa recorrente desde o início da temporada: a de que o regulamento de 2026 privilegia o gerenciamento de energia por software em detrimento da habilidade do piloto.

Lição que vai além das pistas

O episódio de Sepang ilustra um risco que extrapola o automobilismo. Quando um único software, imposto por um regulador e usado por todos os participantes, falha diante de um cenário não testado, o erro deixa de ser individual e passa a ser sistêmico: todo o grid fica exposto ao mesmo defeito ao mesmo tempo.

A mesma lógica vale para sistemas bancários, plataformas governamentais e, cada vez mais, para modelos de inteligência artificial adotados em larga escala. A resposta rápida da FIA evitou um prejuízo maior, mas expôs perguntas centrais de governança: quem testa o software padrão, contra quais cenários extremos, e quem responde quando ele falha.

Na F1, a conta foi um atraso de 50 minutos e um constrangimento público. Em outros setores, a mesma combinação de complexidade, centralização e testes insuficientes pode custar muito mais.

Calza Neto

Advogado e estrategista em Direito Digital, Proteção de Dados, Propriedade Intelectual e Governança de Inteligência Artificial. Fundador do CNK Advogados e do CNK Digital Trust, atua como DPO, perito judicial e consultor em projetos complexos de LGPD, cibersegurança e compliance regulatório para empresas, instituições públicas e organizações altamente reguladas. Reconhecido por unir rigor jurídico, visão estratégica e pensamento tecnológico, trabalha na proteção de ativos intangíveis, na mitigação de riscos e na construção de confiança digital como vantagem competitiva. Conselheiro da Rwd Lider a Digitais e Membro Efetivo do IASP

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo