
Durante décadas, o GPS transformou-se em uma infraestrutura praticamente invisível para operações militares. Veículos, aeronaves, tropas e sistemas logísticos passaram a depender de sinais transmitidos por satélites para saber exatamente onde estão.
O problema é que adversários também aprenderam a atacar essa dependência.
O Exército dos Estados Unidos acaba de conceder um contrato de US$ 11,26 milhões à TERN, startup de Austin, no Texas, para implantar uma tecnologia capaz de manter veículos localizados e navegando sem depender de GPS, GNSS, sinal celular ou outra infraestrutura externa.
O acordo envolve duas tecnologias: o Independently Derived Positioning System (IDPS), voltado à localização e navegação, e o Vehicle Health & Maintenance System (VHMS), destinado a acompanhar condições e prontidão dos veículos.
A TERN descreve sua solução de maneira bastante ambiciosa: uma espécie de “Google Maps para o campo de batalha”.
GPS virou alvo de guerra eletrônica
A decisão do Exército americano acontece em um cenário no qual interferências contra sistemas de navegação por satélite deixaram de ser uma ameaça teórica.
Conflitos recentes demonstraram a utilização cada vez maior de jamming, técnica que interfere ou bloqueia sinais de rádio, e spoofing, na qual sinais falsos podem fazer receptores calcularem posições incorretas.
Isso cria um problema fundamental.
Um veículo militar pode possuir sistemas avançados de comunicação, sensores e armamentos, mas, se sua navegação depende exclusivamente de sinais externos que podem ser bloqueados ou manipulados, existe um ponto de vulnerabilidade estrutural.
É justamente essa dependência que a TERN pretende reduzir.
O sistema tenta descobrir onde o veículo está olhando para o próprio veículo
A arquitetura é diferente do GPS tradicional.
Em vez de perguntar aos satélites onde está, o sistema utiliza informações produzidas pelo próprio veículo.
A TERN instala um dispositivo conectado ao sistema de diagnóstico, ligado a um tablet utilizado pelo operador. A tecnologia acompanha passivamente dados gerados durante a movimentação e aplica métodos proprietários para transformá-los em informações de posicionamento.
A empresa afirma combinar seu mecanismo de inteligência artificial com dados de sensores existentes no veículo e mapas armazenados localmente, permitindo produzir coordenadas e manter a navegação sem precisar consultar continuamente uma infraestrutura externa.
O processamento acontece localmente
Esse detalhe é especialmente importante em ambientes militares.
O IDPS utiliza processamento na borda, ou edge computing.
Isso significa que a informação necessária para determinar a posição pode ser processada dentro do próprio sistema embarcado, em vez de depender constantemente de:
satélites;
internet;
rede celular;
servidores remotos.
Em uma área de conflito, essa independência pode ser decisiva.
Imagine dirigir dentro de um túnel por centenas de quilômetros
Um exemplo simples ajuda a compreender o problema.
Quando um smartphone entra em um túnel, o GPS pode perder contato com os satélites.
Aplicativos de navegação tentam compensar isso utilizando informações disponíveis no aparelho e no veículo, mas existe um limite.
Agora imagine que o túnel não dure:
500 metros.
Imagine que toda uma região seja eletronicamente equivalente a esse túnel porque sinais externos foram bloqueados.
Um sistema militar precisa continuar sabendo:
onde está.
A TERN afirma conseguir fazer justamente isso
Segundo a empresa, o IDPS foi projetado para funcionar em locais como:
túneis;
desertos;
ambientes urbanos;
estradas;
terrenos off-road;
áreas com sinais degradados.
A companhia afirma que sua arquitetura mantém o conhecimento de localização localmente e não depende de GPS ou de outras redes de radiofrequência para continuar posicionando o veículo.
Isso também muda a superfície de ataque.
Se não existe sinal GPS sendo recebido naquele processo, o adversário não pode simplesmente interferir nesse mesmo sinal para enganar o sistema.
Isso não significa que a tecnologia seja impossível de atacar
Essa distinção é importante.
“Não depende de GPS” não significa:
“não pode ser hackeada”.
Qualquer sistema digital possui uma superfície potencial de ataque.
Software pode apresentar vulnerabilidades.
Hardware pode ser comprometido.
Mapas podem estar desatualizados.
Sensores podem apresentar erros.
Dados internos podem ser manipulados.
A vantagem específica do IDPS é retirar da equação uma dependência externa extremamente conhecida e explorável:
o sinal de posicionamento por satélite.
A startup diz que seu sistema apenas “escuta” os dados do veículo
Outro detalhe interessante é a maneira como o equipamento se integra.
O CEO e cofundador Shaun Moore explicou que o dispositivo conectado ao sistema de diagnóstico escuta passivamente as informações disponíveis e não interfere no fluxo normal dos dados do veículo.
Esses sinais são posteriormente processados pelos algoritmos da TERN para calcular localização e fornecer navegação ao operador.
Essa abordagem também facilita a adaptação a plataformas existentes.
Em vez de construir um veículo completamente novo em torno da tecnologia, a proposta é instalar o sistema em frotas já disponíveis.
Isso é extremamente importante para o Exército
Forças armadas possuem enormes quantidades de equipamentos que permanecem em serviço durante décadas.
Substituir toda uma frota porque surgiu uma nova tecnologia de navegação seria:
caro;
lento;
logisticamente complexo.
Uma solução que possa ser adicionada a veículos existentes possui uma vantagem importante:
retrofit.
O equipamento antigo ganha uma nova capacidade sem precisar ser completamente redesenhado.
O contrato vai além da localização
Os US$ 11,26 milhões não são destinados exclusivamente ao IDPS.
O Exército também receberá o Vehicle Health & Maintenance System, ou VHMS.
A plataforma monitora continuamente a condição e a prontidão dos veículos e combina essas informações com a localização da frota.
Isso pode oferecer aos comandantes uma visão integrada de:
onde cada veículo está;
qual sua condição;
se está operacional;
se precisa de manutenção.
A própria TERN afirma que essas informações podem ser integradas aos ambientes de comando e controle já utilizados pelas forças militares.
Saber onde está o veículo não basta
Imagine uma unidade com:
200 veículos.
O comandante precisa saber quais estão disponíveis.
Um deles pode estar operacional.
Outro pode apresentar falha.
Outro pode precisar de manutenção.
Outro pode estar parado.
Outro pode estar se deslocando.
Combinar:
posição + condição mecânica
produz uma fotografia operacional muito mais útil do que simplesmente mostrar pontos em um mapa.
O contrato é de aproximadamente US$ 11,264 milhões
Documentos públicos relacionados ao contrato apontam um valor de US$ 11.263.793.
Trata-se de um contrato de preço fixo ligado à Fase III do programa Small Business Innovation Research (SBIR). O trabalho está previsto para ser realizado em Austin, Texas, com conclusão estimada para 19 de agosto de 2027.
O financiamento vem de recursos do Exército americano destinados a pesquisa, desenvolvimento, testes e avaliação.
Mas não sabemos quantos veículos receberão o sistema nesta etapa
Essa é uma limitação importante das informações divulgadas.
A TERN não revelou ao TechCrunch a escala exata da implantação associada ao novo contrato.
Portanto, seria precipitado transformar o acordo em afirmações como:
“todo o Exército americano abandonará o GPS”;
“milhares de veículos já receberão a tecnologia”;
“GPS será substituído pelo IDPS”.
Nada disso foi anunciado.
O que existe é um contrato relevante para implantar e ampliar o uso de uma alternativa de posicionamento em veículos militares.
O Exército já vinha testando essa abordagem
O contrato atual não surgiu do nada.
A TERN já havia participado de iniciativas e avaliações relacionadas ao governo americano. A empresa informa que sua tecnologia foi testada tanto pelo Departamento de Defesa quanto pelo Departamento de Transportes dos Estados Unidos.
A startup também venceu em 2025 a competição xTechOverwatch, organizada pelo Exército americano, depois de participar de uma seleção que envolveu centenas de empresas.
O novo contrato mostra uma evolução importante:
da demonstração para uma implantação financiada.
Um contrato anterior já previa unidades do sistema
Há ainda registros públicos de uma aquisição anterior relacionada ao IDPS que especificava 30 unidades de um sistema de posicionamento veicular da TERN.
A solicitação descrevia uma solução de hardware e software baseada em IA capaz de localizar veículos quando GPS/GNSS estivesse indisponível ou degradado, aproveitando sistemas e dados internos dos próprios veículos.
Esse registro ajuda a demonstrar que o relacionamento da startup com o Exército antecede o contrato de US$ 11,26 milhões.
Não significa, porém, que o novo contrato esteja limitado às mesmas 30 unidades.
A origem da empresa está ligada à experiência militar
Um dos fundadores, Brett Harrison, serviu no Afeganistão integrando uma força-tarefa de operações especiais.
Segundo ele, essa experiência influenciou diretamente o interesse em desenvolver uma tecnologia de posicionamento que pudesse funcionar em condições reais e não apenas como demonstração experimental.
Harrison afirmou que a equipe, desde o início, queria algo:
implantável e escalável.
Não apenas um projeto científico capaz de funcionar em condições controladas.
O outro cofundador veio do mundo da tecnologia
Shaun Moore, CEO da TERN, possui experiência no setor tecnológico e passou anteriormente pela Trueface, empresa de reconhecimento facial adquirida pela Pangiam.
A combinação de experiência militar e engenharia ajudou a moldar a proposta da startup:
resolver um problema de infraestrutura digital usando informações que os veículos já produzem.
A empresa fez até um teste de 1.300 milhas
Harrison relatou ter utilizado a tecnologia durante uma viagem de aproximadamente 1.300 milhas entre Austin e Laguna Beach, na Califórnia.
Segundo o relato da empresa ao TechCrunch, o sistema da TERN manteve a posição do veículo durante todo o trajeto, enquanto o GPS tradicional teria sofrido dezenas de interrupções.
Esse resultado é uma afirmação da própria companhia, não um teste independente publicado com metodologia comparativa completa.
Ainda assim, ilustra a ambição comercial da tecnologia.
A proposta não é exclusivamente militar
Embora o contrato com o Exército dê enorme visibilidade à TERN, uma tecnologia independente de GPS possui aplicações civis óbvias.
Veículos podem perder precisão de posicionamento em:
garagens subterrâneas;
túneis;
cânions urbanos;
regiões remotas;
áreas atingidas por desastres;
locais com interferência.
A empresa também apresenta aplicações para veículos de emergência, incluindo ambulâncias, polícia e bombeiros.
Isso abre a possibilidade de utilizar a mesma arquitetura em mercados civis.
Veículos autônomos são outra oportunidade
A TERN também vê sua tecnologia como uma camada potencial para sistemas autônomos.
Um veículo sem motorista precisa saber com grande precisão:
onde está;
para onde está indo;
como se relaciona com o mapa.
Se perder GPS ou conectividade significar perder completamente a localização, existe um problema de segurança e confiabilidade.
Uma arquitetura capaz de manter o posicionamento independentemente de sinais externos pode funcionar como uma camada adicional de redundância.
A TERN já fala em veículos terrestres não tripulados
O interesse militar também pode avançar nessa direção.
Sistemas terrestres autônomos ou remotamente operados precisam continuar funcionando em ambientes nos quais o adversário provavelmente tentará interromper:
GPS;
comunicações;
links de dados.
Para um veículo não tripulado, perder posicionamento pode significar perder capacidade operacional.
A TERN pretende adaptar sua arquitetura modular para esse tipo de plataforma.
A guerra na Ucrânia transformou GPS em assunto estratégico
Um dos maiores laboratórios reais de guerra eletrônica dos últimos anos tem sido o conflito entre Rússia e Ucrânia.
Interferências contra sistemas de navegação passaram a afetar não apenas equipamentos militares, mas também aviação civil e outras atividades em regiões próximas.
Drones, munições guiadas, aeronaves e sistemas logísticos podem depender de algum nível de posicionamento por satélite.
Quanto maior essa dependência:
maior o incentivo para interferir nela.
Jamming e spoofing são problemas diferentes
No jamming, o objetivo é normalmente impedir que o receptor consiga utilizar adequadamente o sinal.
É como colocar tanto ruído em uma conversa que ninguém consegue ouvir.
No spoofing, a ameaça pode ser ainda mais traiçoeira.
O receptor recebe um sinal:
mas o sinal mente.
Ele pode acreditar que está em uma localização diferente daquela em que realmente se encontra.
Em operações militares, a diferença entre:
“não sei onde estou”
e:
“acredito estar no lugar errado”
pode ser enorme.
Por isso, o futuro provavelmente não será “GPS ou não GPS”
A arquitetura mais resiliente tende a utilizar múltiplas fontes.
GPS.
Navegação inercial.
Sensores.
Mapas.
Visão computacional.
Referências terrestres.
Outras técnicas de posicionamento.
O objetivo é evitar que a perda de uma única fonte provoque:
perda completa de navegação.
A tecnologia da TERN entra justamente nessa estratégia de redundância e independência.
IA aqui não significa um chatbot dirigindo o veículo
Outro cuidado importante é evitar o uso genérico da expressão “inteligência artificial”.
O contrato não significa que o Exército esteja instalando um ChatGPT dentro de veículos para decidir para onde soldados devem ir.
A IA da TERN é utilizada para interpretar dados de sensores e mapas e produzir informações de posicionamento.
É uma aplicação específica de inteligência artificial voltada a:
Positioning, Navigation and Timing — PNT.
E a empresa afirma que não precisa adicionar uma floresta de sensores
Uma das vantagens comerciais defendidas pela TERN é justamente aproveitar dados já disponíveis nos veículos.
Soluções alternativas de posicionamento podem exigir equipamentos adicionais sofisticados.
Quanto mais sensores novos forem necessários:
maior o custo;
mais complexa a instalação;
mais difícil a manutenção.
A proposta da startup é utilizar grande parte da informação que já existe internamente e transformá-la em uma estimativa confiável de posição.
Isso explica por que US$ 11 milhões podem valer mais do que parecem
Para uma gigante de defesa, US$ 11,26 milhões é um contrato relativamente pequeno.
Para uma startup de tecnologia de posicionamento, entretanto, um contrato operacional com o Exército americano funciona também como:
validação;
referência;
campo de testes;
porta de entrada para contratos maiores.
Se a tecnologia demonstrar desempenho consistente em ambientes militares reais, a TERN poderá disputar outras oportunidades dentro do Departamento de Defesa e de governos aliados.
A empresa já ganhou reconhecimento internacional
A TERN integra o grupo de Technology Pioneers 2026 do Fórum Econômico Mundial e também participou da iniciativa DIANA da OTAN, voltada à aceleração de tecnologias de uso dual. A própria empresa destaca ainda testes realizados com órgãos federais americanos e sua vitória no xTechOverwatch do Exército.
Isso mostra uma estratégia clara:
posicionar o IDPS não apenas como produto automotivo, mas como infraestrutura de resiliência de navegação.
A grande disputa é pela localização quando ninguém consegue ouvir os satélites
GPS funciona tão bem que, para grande parte das pessoas, tornou-se quase sinônimo de localização.
Mas GPS é apenas:
uma maneira de descobrir onde estamos.
E depende de uma infraestrutura externa.
A TERN está apostando que veículos podem aprender a determinar sua própria posição utilizando aquilo que já sabem sobre:
seu movimento;
seus sensores;
seu ambiente;
seus mapas.
O Exército americano agora colocou US$ 11,26 milhões nessa aposta.
Não significa o fim do GPS.
Nem significa que a tecnologia da TERN substituirá sistemas de navegação por satélite em todas as operações.
Significa algo estrategicamente mais importante: as forças armadas americanas querem que seus veículos continuem sabendo onde estão mesmo quando alguém conseguir desligar, bloquear ou enganar o GPS.



