
Um dos maiores projetos de infraestrutura digital planejados para o Brasil acaba de superar uma etapa fundamental: garantir acesso à rede de transmissão de energia elétrica.
A Agência Nacional de Energia Elétrica — Aneel — autorizou a Scala Data Centers a conectar a Scala AI City, projetada para Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre, à Rede Básica do Sistema Interligado Nacional — SIN.
A decisão consta do Despacho nº 3.506, de 3 de setembro de 2026, publicado no Diário Oficial da União em 10 de setembro. O parecer de acesso elaborado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico — ONS — trabalha com a entrada da instalação em janeiro de 2028, inicialmente com demanda de 120 megawatts.
Esse número é importante porque representa apenas a configuração inicial analisada para a conexão.
O projeto completo da Scala é muito maior.
A conexão será feita diretamente na Rede Básica
O AI City não dependerá simplesmente da rede convencional de distribuição utilizada por residências e pequenos estabelecimentos.
A conexão prevista ocorrerá em uma linha de transmissão de:
525 quilovolts — 525 kV.
O acesso será realizado por meio do seccionamento do circuito 1 da linha:
Guaíba 3–Nova Santa Rita.
A infraestrutura pertence à Axia Energia, antiga CGT Eletrosul.
Na prática, parte da linha existente será aberta para permitir que a futura subestação do empreendimento seja inserida no sistema elétrico.
Serão aproximadamente 3,34 quilômetros de nova transmissão
O projeto técnico prevê um trecho em circuito duplo com aproximadamente:
3,34 km
entre o ponto onde a linha Guaíba 3–Nova Santa Rita será seccionada e a futura subestação:
Scala AI City.
A partir dela, instalações de uso exclusivo levarão a energia até uma segunda subestação, responsável por reduzir a tensão de:
525 kV para 34,5 kV.
Essa redução é necessária porque a energia chega pela Rede Básica em altíssima tensão, adequada para transmissão a grandes distâncias, mas precisa ser transformada para níveis compatíveis com a infraestrutura interna do campus.
Dois transformadores estarão prontos desde a energização
Na configuração inicial estudada, dois transformadores estarão disponíveis desde o começo:
um em operação principal;
outro energizado como reserva.
Segundo a documentação analisada, esse desenho é suficiente para suportar os:
120 MW previstos para 2028.
A redundância é particularmente importante para data centers.
Uma instalação desse tipo não pode depender de uma arquitetura elétrica semelhante à de um prédio convencional.
Ela precisa lidar com:
falhas;
manutenções;
oscilações;
contingências
sem provocar interrupções relevantes nos servidores.
O ONS concluiu que a entrada do data center é tecnicamente possível
O parecer do Operador Nacional do Sistema Elétrico avaliou como a nova carga afetaria o sistema de transmissão regional.
A conclusão foi de que, nas condições consideradas, a entrada de 120 MW em janeiro de 2028 preserva os limites técnicos de:
tensão
e:
carregamento
das linhas e equipamentos da região.
A análise incluiu tanto a situação normal de operação quanto cenários de:
contingência simples.
Isso não significa que qualquer expansão futura do AI City esteja automaticamente autorizada.
O parecer atual corresponde ao cenário efetivamente estudado.
E essa distinção é fundamental
A Scala apresenta o AI City como um complexo que poderá alcançar vários gigawatts de capacidade no longo prazo.
Mas:
120 MW autorizados para a conexão inicial não significam autorização automática para 5 GW.
Cada grande expansão depende de:
capacidade disponível;
novos estudos;
infraestrutura;
transmissão;
regulação;
licenciamento.
O próprio Ministério de Minas e Energia já havia reconhecido, em 2025, uma alternativa de acesso do projeto à Rede Básica como compatível com o planejamento da expansão elétrica. O MME mencionou um planejamento de 1,8 GW de demanda até 2033 e um potencial posterior de até 5 GW, ressaltando que o patamar maior exigiria novos estudos da Empresa de Pesquisa Energética e demais etapas do setor elétrico.
120 MW já representam uma carga muito grande
Para entender o porte, um data center moderno de inteligência artificial pode consumir uma quantidade de eletricidade muito superior à de instalações tradicionais de TI.
Os principais responsáveis são:
GPUs;
aceleradores;
servidores de alta densidade;
equipamentos de rede;
refrigeração;
bombas;
UPS;
sistemas elétricos auxiliares.
A IA está transformando data centers em verdadeiras:
cargas industriais de energia.
E 120 MW são apenas a primeira etapa elétrica analisada
Segundo o cronograma levado ao ONS, a Scala pretende manter demanda de:
120 MW durante todo o ano de 2028,
tanto nos horários de ponta quanto fora deles.
Esse detalhe é relevante porque data centers funcionam de forma diferente de muitos consumidores.
Uma indústria pode reduzir produção durante determinados horários.
Um shopping possui forte variação entre dia e madrugada.
Um data center de IA pode operar:
24 horas por dia.
Servidores não dormem à noite
Treinamento de inteligência artificial pode continuar:
durante a madrugada;
finais de semana;
feriados.
Inferência também acontece continuamente conforme usuários utilizam:
chatbots;
sistemas corporativos;
aplicativos;
serviços de nuvem.
Por isso, data centers podem apresentar uma curva de consumo muito mais constante do que outras atividades econômicas.
Para o sistema elétrico, não importa apenas:
quanto será o pico.
Importa também:
por quanto tempo aquela carga permanecerá elevada.
O empreendimento terá que monitorar qualidade de energia
O parecer estabelece exigências técnicas adicionais.
A Scala deverá revisar o estudo de:
distorção harmônica de tensão.
A razão é que a análise anterior utilizou medições de um modelo de equipamento diferente daquele que será efetivamente instalado no empreendimento.
Um dos componentes relevantes são os sistemas:
UPS — Uninterruptible Power Supply.
UPS mantém servidores funcionando durante problemas elétricos
Uma UPS atua como uma camada intermediária entre:
rede elétrica;
servidores.
Em caso de:
queda;
oscilação;
falha temporária,
ela ajuda a manter os equipamentos energizados enquanto outros sistemas, como geradores ou fontes alternativas, assumem.
Mas grandes equipamentos eletrônicos também podem provocar efeitos sobre a:
qualidade da energia.
Por isso, o ONS exige estudos específicos.
Scala terá que medir a qualidade antes e depois da conexão
A empresa deverá fazer medições:
antes da entrada em operação;
depois da energização.
Além disso, haverá:
monitoramento contínuo.
Os resultados deverão ser encaminhados ao ONS:
a cada seis meses.
Isso permite verificar se a operação real corresponde ao comportamento previsto nos estudos.
Parte da infraestrutura poderá passar para a Axia Energia
Outro detalhe importante da autorização envolve os ativos utilizados para seccionar a linha.
Caso a própria Scala execute determinadas instalações relacionadas à intervenção, elementos como:
barramentos;
entradas;
extensões de linha
deverão ser transferidos à Axia Energia:
sem indenização.
Depois disso, passam a fazer parte da concessão de transmissão e da própria:
Rede Básica.
O contrato com o ONS já foi assinado
Antes de pedir formalmente a autorização à Aneel, a Scala avançou em outra etapa decisiva.
O Contrato de Uso do Sistema de Transmissão — CUST foi assinado com o ONS em:
7 de agosto de 2026.
A solicitação à Aneel foi protocolada em:
12 de agosto.
Poucas semanas depois veio o Despacho nº 3.506.
Essa sequência demonstra o avanço do projeto pela complexa cadeia necessária para conectar uma carga desse porte ao sistema elétrico brasileiro.
O projeto já havia enfrentado uma disputa regulatória
A trajetória até o CUST não foi totalmente linear.
Em maio de 2026, a Aneel indeferiu pedidos cautelares apresentados pela Scala relacionados às regras para acesso à Rede Básica nos projetos de:
Jundiaí
e:
Scala AI City em Eldorado do Sul.
A empresa buscava preservar condições associadas aos pareceres de acesso enquanto eram analisadas questões regulatórias ligadas à contratação do uso do sistema de transmissão. A decisão consta do Despacho nº 1.618, de maio de 2026.
Agora, com o CUST assinado e a nova autorização, a conexão de 120 MW avança formalmente.
Mas autorização elétrica não significa que o data center esteja pronto para operar
Essa distinção também é importante.
O empreendimento ainda depende de outras etapas.
Entre elas:
licenciamento ambiental;
licenciamento urbanístico;
acessos viários;
obras civis;
subestações;
data centers;
conectividade;
instalação de equipamentos.
A empresa vinha conduzindo os processos de licenciamento ao longo de 2026. Em julho, a previsão divulgada pela Scala era de início das operações entre o fim de 2028 e o começo de 2029, dependendo da evolução dessas etapas.
Portanto, o janeiro de 2028 presente no parecer elétrico deve ser entendido como:
previsão de disponibilidade/conexão considerada no planejamento do sistema, não garantia de que todo o complexo comercial estará operando naquela data.
O AI City nasceu com uma ambição muito maior
O projeto foi anunciado como uma verdadeira:
“cidade de data centers”.
A área fica em Eldorado do Sul, próxima à infraestrutura elétrica de alta tensão.
O investimento inicialmente divulgado para a primeira fase é de aproximadamente:
R$ 3 bilhões.
Em estimativas anteriores, a companhia afirmou que a implantação inicial poderia gerar cerca de:
3 mil empregos diretos e indiretos.
Esses números são projeções divulgadas para o projeto e não devem ser confundidos com empregos já criados ou investimentos integralmente realizados.
O potencial de 5 GW mostra uma dimensão completamente diferente
O planejamento de longo prazo divulgado para o campus chegou a mencionar:
até 5 GW.
Para comparação técnica, o próprio Ministério de Minas e Energia afirmou em 2025 que, caso o projeto alcançasse todo esse potencial, sua demanda poderia corresponder a aproximadamente:
20% da carga máxima então registrada na Região Sul do Brasil.
Esse número ajuda a mostrar a dimensão do desafio energético.
Não estamos falando apenas de:
construir prédios com servidores.
Estamos falando de:
planejamento do sistema elétrico.
Um campus de vários gigawatts muda a escala da discussão
5 GW equivalem a:
5.000 MW.
Compare com a primeira etapa:
120 MW.
O potencial completo seria mais de:
40 vezes maior
do que a demanda inicial analisada para 2028.
Por isso, não seria tecnicamente correto interpretar a autorização atual como uma aprovação para todo o projeto de 5 GW.
Ela representa:
um primeiro degrau.
A chegada da IA mudou o mercado de data centers
Durante anos, data centers foram construídos principalmente para:
hospedagem;
cloud;
sites;
bancos de dados;
sistemas corporativos.
A inteligência artificial mudou brutalmente a densidade computacional necessária.
Um rack convencional podia trabalhar com:
poucos quilowatts.
Racks modernos para IA podem superar:
100 kW
e, em algumas arquiteturas, chegar ainda mais alto.
A Scala apresenta o AI City justamente como uma infraestrutura preparada para cargas de alta densidade, incluindo sistemas de:
resfriamento líquido.
Resfriamento líquido tornou-se estratégico
GPUs de alta performance geram enorme quantidade de calor.
Quanto mais potência é concentrada em um único rack:
mais difícil fica remover esse calor apenas com ar.
Por isso, novos data centers voltados para IA adotam sistemas em que líquidos circulam próximos:
aos chips;
às placas;
aos servidores.
Isso permite elevar:
a densidade computacional por metro quadrado.
Mas também aumenta a complexidade de:
projeto;
operação;
manutenção.
Energia não é suficiente sem conectividade
Um megadata center precisa de outra infraestrutura essencial:
telecomunicações.
Em julho, a Eletronet foi anunciada como primeira provedora de conectividade do AI City e pretende instalar um:
Ponto de Presença — PoP
dentro do empreendimento.
A arquitetura foi apresentada como neutra, permitindo integração com diferentes redes e rotas nacionais e internacionais.
Isso é particularmente importante para workloads de IA e cloud.
Um data center pode ter energia e mesmo assim ser pouco competitivo
Se os dados precisam viajar por rotas:
longas;
caras;
sem redundância;
com alta latência,
a infraestrutura perde atratividade.
Grandes clientes exigem múltiplas opções de:
fibra;
operadoras;
rotas;
interconexão.
Por isso, energia e telecom caminham juntas.
Rio Grande do Sul pode ganhar uma nova categoria de infraestrutura
Historicamente, grandes concentrações de data centers brasileiros foram atraídas principalmente para:
São Paulo;
Barueri;
Santana de Parnaíba;
Campinas;
Rio de Janeiro.
A implantação de um campus de grande escala em Eldorado do Sul pode ampliar a presença desse tipo de infraestrutura no Sul do país.
Mas a execução precisa acompanhar:
as autorizações;
o licenciamento;
a demanda comercial;
a expansão elétrica.
A proximidade da transmissão é um dos ativos do projeto
Grandes data centers muitas vezes enfrentam um problema aparentemente simples:
não existe energia suficiente perto do terreno.
Construir longas linhas de transmissão pode adicionar:
anos;
custos;
licenciamento;
complexidade.
A Scala escolheu a região justamente considerando a proximidade com infraestrutura energética relevante.
Agora a autorização para seccionar a linha de 525 kV transforma essa vantagem geográfica em:
um caminho técnico formal de conexão.
O Brasil enfrenta uma corrida para receber data centers de IA
O anúncio acontece em um momento em que a infraestrutura de inteligência artificial virou tema central do setor tecnológico.
Empresas globais estão buscando locais com:
energia;
fibra;
terreno;
água ou soluções eficientes de refrigeração;
segurança energética;
conectividade internacional.
A disponibilidade de eletricidade passou a ser uma das principais limitações para expansão mundial de IA.
O desafio é evitar confundir anúncio com capacidade instalada
Projetos de data centers frequentemente divulgam números como:
1 GW;
2 GW;
5 GW.
Esses valores normalmente representam:
capacidade planejada ou potencial de desenvolvimento.
Não significam necessariamente que:
essa carga existe hoje;
todos os prédios estão contratados;
todos os clientes já foram definidos;
toda a infraestrutura recebeu autorização.
No caso da Scala AI City, o avanço concreto agora é:
120 MW de conexão previstos no parecer do ONS para a primeira etapa.
E esse avanço é significativo
O empreendimento já possui:
alternativa reconhecida pelo planejamento energético;
Contrato de Uso do Sistema de Transmissão;
autorização da Aneel para acesso;
definição técnica do ponto de conexão.
Essas são etapas essenciais para qualquer consumidor de altíssima potência.
Sem elas:
não existe AI City em grande escala.
A próxima corrida será para transformar megawatts autorizados em servidores operando
Agora será preciso construir:
subestação;
linhas;
salas;
sistemas de refrigeração;
redundância;
rede de telecom;
infraestrutura interna.
E, finalmente:
encher os prédios com capacidade computacional.
É nessa última parte que entram:
GPUs;
CPUs;
aceleradores;
storage;
switches;
servidores.
Em data centers de IA, o investimento tecnológico colocado pelos clientes pode superar em muito:
o custo da própria construção civil.
O projeto mostra como IA e setor elétrico passaram a falar a mesma língua
Até poucos anos atrás, notícias sobre inteligência artificial normalmente envolviam:
algoritmos;
modelos;
software;
startups.
Agora elas envolvem:
525 kV;
subestações;
transformadores;
gigawatts;
linhas de transmissão.
Isso resume uma das maiores mudanças provocadas pela IA.
A inteligência artificial continua sendo software.
Mas para rodar em grande escala ela depende cada vez mais de:
infraestrutura pesada.
E a decisão da Aneel sobre a Scala AI City deixa essa realidade particularmente clara no Rio Grande do Sul.
O empreendimento ainda tem um longo caminho até alcançar a escala anunciada para o futuro.
Mas uma das perguntas mais importantes para qualquer data center de inteligência artificial acaba de receber uma resposta concreta:
de onde virá a energia da primeira etapa.
A resposta é a Rede Básica brasileira, por uma conexão de 525 kV, com demanda inicial de 120 MW prevista para 2028.



