
A Uber anunciou uma das maiores reestruturações de sua história. A companhia vai eliminar aproximadamente 3.300 postos de trabalho, equivalentes a cerca de 10% de seus funcionários globais, enquanto reduz níveis hierárquicos e direciona mais recursos para áreas consideradas estratégicas — entre elas os robotáxis.
Os cortes foram anunciados em 2 de setembro de 2026 pelo CEO Dara Khosrowshahi e representam a maior redução de pessoal realizada pela Uber desde a pandemia de Covid-19.
A informação apresentada na imagem está correta em linhas gerais, mas merece uma precisão: a Uber não afirmou que está demitindo 3.300 pessoas exclusivamente para financiar robotáxis. A companhia diz que pretende simplificar sua estrutura e criar capacidade para investir em crescimento e inovação, incluindo transporte por aplicativo, entregas e veículos autônomos.
Uber cresceu — e diz ter ficado complexa demais
A justificativa apresentada pela companhia chama atenção porque a reestruturação não ocorre durante uma crise operacional.
Segundo Khosrowshahi, a Uber se tornou significativamente maior e mais forte nos últimos cinco anos, mas esse crescimento criou efeitos colaterais.
Mais níveis hierárquicos, equipes fragmentadas, funções duplicadas e processos de coordenação passaram a tornar determinadas decisões mais lentas.
A nova estrutura pretende atacar justamente esse problema.
A Uber tinha aproximadamente 34 mil funcionários no final de 2025. A redução de 10% leva o corte para a faixa dos 3.300 postos anunciados.
Motoristas e entregadores parceiros não fazem parte desse número, já que não são contabilizados como funcionários corporativos da empresa.
Número de gestores será reduzido em 20%
Uma das maiores mudanças acontecerá na gestão.
A Uber pretende reduzir em aproximadamente 20% o número de posições gerenciais.
Isso não significa que todos esses gestores serão demitidos. Parte deles poderá continuar na empresa como profissionais sem responsabilidade direta sobre equipes.
A estratégia busca eliminar situações em que existem muitas camadas entre os funcionários responsáveis pela execução e a alta liderança.
A empresa também reduziu em cerca de 20% a quantidade de profissionais posicionados a mais de sete níveis hierárquicos abaixo do CEO.
O objetivo é construir uma organização mais horizontal.
“Microequipes” entram na mira
Outro alvo são as chamadas micro-teams.
São equipes extremamente pequenas nas quais um gestor possui apenas um ou dois subordinados.
A Uber afirma ter reduzido praticamente pela metade esse tipo de estrutura.
A lógica é simples: se uma organização possui milhares de pequenas equipes, acaba criando um número enorme de gestores, reuniões, processos de aprovação e comunicação entre departamentos.
Ao ampliar o número de pessoas supervisionadas por cada gerente, a empresa espera reduzir burocracia interna.
Essa tendência já aparece em outras grandes companhias de tecnologia, que procuram organizações mais enxutas e com menos camadas intermediárias.
Engenharia, ciência e delivery serão reorganizados
A mudança não ficará restrita aos cargos de gestão.
A Uber também está consolidando equipes operacionais.
Áreas de Core Services Engineering e Science serão aproximadas, enquanto diferentes operações de delivery passarão por uma reorganização.
Restaurantes, varejo e entregas diretas possuíam estruturas parcialmente separadas.
Agora, parte dessas operações será combinada em níveis global, regional e nacional.
A empresa acredita que manter estruturas independentes estava provocando duplicação de trabalho e retardando decisões.
Trabalho totalmente remoto praticamente acaba
A reestruturação também traz uma mudança importante para quem trabalha fora dos escritórios.
A Uber pretende limitar os empregos 100% remotos a aproximadamente 1% de sua força de trabalho.
Funcionários que atualmente trabalham integralmente à distância poderão ser solicitados a se mudar para regiões próximas aos principais escritórios.
A política híbrida também será fiscalizada com maior rigor.
A empresa exige presença física três dias por semana para a maioria dos profissionais sujeitos à política.
Globalmente, equipes deverão ficar mais concentradas em grandes centros, especialmente Nova York e San Francisco, além de hubs regionais e tecnológicos.
Robotáxis se tornaram questão estratégica
Por trás da reorganização existe uma transformação que pode alterar profundamente o negócio da Uber.
Veículos autônomos estão deixando de ser apenas experimentos.
Empresas como Waymo já operam serviços comerciais sem motorista em cidades americanas, enquanto Tesla e diversos fabricantes de tecnologia autônoma ampliam seus projetos.
Para a Uber, existe uma ameaça óbvia.
Seu negócio foi construído conectando passageiros a motoristas humanos.
Se uma parcela significativa das viagens passar a ser realizada por veículos autônomos, a empresa precisa garantir que continue sendo a plataforma onde essas viagens são solicitadas.
Uber prefere ser marketplace dos robotáxis
A estratégia atual é diferente daquela adotada há uma década.
A Uber já tentou desenvolver internamente sua própria tecnologia de direção autônoma, mas vendeu sua divisão Advanced Technologies Group para a Aurora em 2020.
Agora, prefere construir parcerias.
Em vez de necessariamente fabricar o veículo e desenvolver todo o sistema autônomo, a Uber pretende utilizar sua enorme base de usuários para conectar passageiros às frotas de diferentes empresas.
A plataforma poderia funcionar como uma espécie de marketplace global de robotáxis.
O usuário abriria o aplicativo da Uber e poderia solicitar uma viagem realizada por um veículo autônomo de um parceiro.
Mais de US$ 10 bilhões estão comprometidos com autonomia
A escala dessa estratégia é significativa.
A Uber já assumiu compromissos superiores a US$ 10 bilhões relacionados a parceiros e projetos de veículos autônomos, buscando construir uma rede que possa incluir diferentes fabricantes e tecnologias.
A empresa trabalha com nomes como Waymo, Avride, Lucid, Nuro, Rivian e Pony AI em diferentes iniciativas.
Essa abordagem permite diversificar o risco.
Se uma tecnologia autônoma dominar determinado mercado, a Uber pode tentar integrá-la à plataforma em vez de necessariamente competir diretamente contra ela.
Demissões não foram atribuídas à inteligência artificial
Outro ponto importante é separar a reestruturação da atual onda de demissões associadas à IA.
Ao contrário de executivos de diversas empresas de tecnologia, Khosrowshahi não atribuiu os 3.300 cortes diretamente à inteligência artificial.
A justificativa oficial está concentrada na simplificação organizacional, eliminação de duplicações e redirecionamento dos investimentos.
Isso não significa que IA seja irrelevante para a Uber.
A companhia utiliza inteligência artificial em áreas como previsão de demanda, preços, atendimento, logística, segurança, desenvolvimento de software e operações.
Mas afirmar que “IA substituiu 3.300 funcionários da Uber” não seria sustentado pelo anúncio.
Empresa está cortando mesmo com negócio crescendo
Talvez esse seja o aspecto mais significativo da decisão.
Uber não está promovendo uma grande redução porque suas operações estejam entrando em colapso.
No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou US$ 14,2 bilhões em receita, crescimento de aproximadamente 12% na comparação anual.
As reservas brutas também avançaram, assim como o número de viagens.
A empresa registrou lucro líquido de aproximadamente US$ 2,4 bilhões, embora parte do resultado tenha sido influenciada por ganhos relacionados a investimentos.
Isso reforça uma tendência observada em grandes empresas de tecnologia: crescimento e demissões deixaram de ser fenômenos contraditórios.
Big Tech quer crescer sem crescer o quadro na mesma velocidade
Durante décadas, expansão empresarial normalmente significava contratar mais pessoas.
A lógica começa a mudar.
Automação, IA, consolidação de ferramentas e estruturas administrativas mais enxutas estão permitindo que empresas tentem aumentar receita sem expandir proporcionalmente sua força de trabalho.
A Uber está aplicando essa lógica principalmente à hierarquia.
Se gestores supervisionam equipes maiores, menos posições intermediárias são necessárias.
Se operações antes separadas passam a compartilhar estruturas, funções duplicadas podem desaparecer.
E se decisões percorrem menos níveis até chegar à execução, a empresa acredita que pode responder mais rapidamente às mudanças do mercado.
Robotáxi pode transformar a economia da Uber
Existe ainda uma questão maior.
Hoje, uma parcela importante do valor pago pelo passageiro é destinada ao motorista.
Em uma frota autônoma, essa estrutura econômica muda.
Desaparece o motorista, mas aparecem outros custos: aquisição ou financiamento do veículo, manutenção, limpeza, carregamento, seguros, operação da frota e tecnologia autônoma.
Quem controlar essa infraestrutura poderá capturar uma parcela diferente do valor de cada viagem.
A Uber precisa encontrar seu lugar nessa nova cadeia antes que ela amadureça.
Empresa tenta evitar repetir um erro estratégico
O risco para a Uber não é necessariamente que os robotáxis eliminem o transporte por aplicativo.
É que eliminem a necessidade de uma plataforma intermediária.
Se Waymo, Tesla ou outra empresa conseguir construir simultaneamente a tecnologia autônoma, uma grande frota e um aplicativo utilizado diretamente pelos passageiros, parte da função desempenhada atualmente pela Uber poderia ser reduzida.
A estratégia de parcerias tenta impedir justamente isso.
A Uber quer convencer fabricantes de veículos autônomos de que não precisam construir do zero uma gigantesca rede mundial de usuários.
Podem simplesmente conectar suas frotas ao marketplace da companhia.
Corte de 3.300 funcionários revela uma disputa pelo futuro da mobilidade
A reestruturação anunciada pela Uber vai além de uma rodada tradicional de demissões.
A companhia está reduzindo gestores, eliminando microequipes, consolidando operações, restringindo o trabalho remoto e liberando recursos para suas maiores apostas estratégicas.
Entre elas está uma tecnologia que pode modificar justamente o mercado que transformou a Uber em uma gigante global.
Durante a primeira revolução da mobilidade, a empresa utilizou smartphones para conectar passageiros a milhões de motoristas.
Na próxima, parte desses motoristas poderá simplesmente não existir.
Por isso, os 3.300 cortes representam também uma preparação para uma nova fase da indústria.
A Uber não quer necessariamente construir todos os carros autônomos do futuro.
Ela quer garantir que, quando esses veículos estiverem circulando em grande escala, os passageiros ainda abram o aplicativo da Uber para chamá-los.



