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Redata coloca Brasil no radar global de data centers e pode acelerar investimentos em IA, diz vice-presidente da AWS

Regime aprovado pelo Congresso reduz tributos federais sobre equipamentos destinados a data centers e busca tornar o país mais competitivo na corrida mundial por infraestrutura de nuvem e inteligência artificial. AWS já anunciou US$ 5,6 bilhões em investimentos no Brasil.

O Brasil pode estar entrando em uma nova fase na disputa global por data centers. A aprovação do Redata, regime especial de tributação voltado ao setor, foi recebida positivamente pela Amazon Web Services (AWS), que enxerga na medida uma oportunidade para tornar o país mais competitivo na atração de investimentos internacionais em infraestrutura digital.

A avaliação foi feita por Paula Bellizia, vice-presidente da AWS para a América Latina, após a aprovação do projeto pelo Senado. Para a executiva, o novo ambiente tributário coloca o Brasil no radar global justamente quando empresas disputam capacidade computacional para sustentar o crescimento da inteligência artificial.

A proposta passou pelo Senado em 1º de setembro e segue para sanção presidencial.

Redata reduz um dos principais custos dos data centers

Um dos objetivos centrais do programa é diminuir o peso tributário sobre equipamentos necessários para construir e ampliar data centers.

O modelo prevê a suspensão e posterior redução a zero de tributos federais como IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação para equipamentos enquadrados nas regras do regime.

Esse ponto é particularmente importante porque grande parte da infraestrutura utilizada em data centers de alta capacidade precisa ser importada.

Servidores, aceleradores de inteligência artificial, equipamentos de rede e outros componentes podem representar bilhões de reais em investimentos. Uma carga tributária elevada, portanto, influencia diretamente a decisão sobre onde instalar novos complexos.

O governo estima uma renúncia fiscal próxima de R$ 5,2 bilhões em 2026, seguida por aproximadamente R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.

ICMS ainda é uma peça importante

A aprovação do Redata, entretanto, não resolve sozinha toda a questão tributária.

O regime trata principalmente dos impostos federais. Uma segunda frente envolve o ICMS, tributo estadual que também pesa sobre equipamentos destinados aos data centers.

No Confaz, representantes dos estados discutem uma proposta para reduzir em até 90% a alíquota incidente sobre determinados equipamentos.

A definição dessa questão poderá ter impacto significativo na competitividade brasileira, principalmente porque os projetos de inteligência artificial estão crescendo rapidamente em tamanho e custo.

Em grandes instalações, uma diferença relativamente pequena na tributação pode representar centenas de milhões de reais.

AWS já anunciou US$ 5,6 bilhões para o Brasil

A AWS possui uma relação de longa duração com o mercado brasileiro.

A empresa instalou sua região de nuvem no país em 2011. Na época, o Brasil recebeu a oitava região da AWS no mundo e a primeira da América Latina.

Desde então, a companhia afirma ter investido aproximadamente US$ 3,8 bilhões em infraestrutura brasileira.

Em 2024, anunciou outros US$ 1,8 bilhão, equivalentes a cerca de R$ 10,1 bilhões na cotação utilizada na época, para expansão, construção, conexão, operação e manutenção de data centers no país até 2034.

Somados, os investimentos anunciados chegam a aproximadamente US$ 5,6 bilhões.

Apesar da avaliação positiva sobre o Redata, a AWS ainda não anunciou uma nova rodada de investimentos especificamente vinculada à aprovação do regime.

IA está consumindo toda a capacidade disponível

O momento da aprovação ajuda a explicar a importância da medida.

A demanda mundial por infraestrutura destinada à inteligência artificial está crescendo em velocidade extraordinária.

Segundo a AWS, sua capacidade computacional global dobrou desde 2022 e está novamente em processo de duplicação em 2026.

Mesmo com essa expansão, a capacidade global de infraestrutura de IA da companhia já está praticamente comprometida para 2027, enquanto parte das negociações começa a avançar para 2028.

A empresa também anunciou recentemente um acordo com a Nvidia para triplicar a capacidade de GPUs disponível aos clientes da AWS.

Isso mostra o tamanho da corrida atual.

Empresas não estão mais disputando apenas os melhores modelos de inteligência artificial. Elas estão disputando fisicamente GPUs, energia, terrenos, redes de fibra óptica e espaço dentro de data centers.

Brasil ganha vantagem com energia renovável

Nesse cenário, o país possui um ativo estratégico: sua matriz elétrica.

Data centers de inteligência artificial podem consumir enormes quantidades de eletricidade, tornando a disponibilidade e a origem da energia fatores fundamentais para novos investimentos.

O Redata estabelece condições ambientais para os projetos beneficiados, incluindo requisitos relacionados ao uso de energia proveniente de fontes renováveis. A versão aprovada no Senado também abriu espaço para fontes consideradas de baixa emissão.

Para a AWS, a matriz elétrica brasileira majoritariamente renovável representa uma vantagem competitiva.

A companhia também mantém a meta global de se tornar “water positive” até 2030, devolvendo às comunidades mais água do que utiliza diretamente em suas operações.

A preocupação é relevante porque energia e água estão entre os principais pontos de discussão sobre a expansão mundial dos data centers.

Metade das empresas brasileiras já utiliza IA

A demanda interna também começa a pesar na decisão sobre onde instalar infraestrutura.

Segundo números citados pela AWS, cerca de 50% das aproximadamente 12 milhões de empresas brasileiras já utilizam inteligência artificial em algum nível.

O cenário mudou rapidamente.

Historicamente, novas tecnologias de nuvem e computação chegavam primeiro aos grandes mercados internacionais e depois eram adotadas em maior escala no Brasil.

Agora, segundo Bellizia, essa diferença diminuiu.

Empresas brasileiras estão avançando de projetos experimentais para aplicações reais de IA, aumentando a necessidade de processamento, armazenamento e serviços em nuvem.

Negócio de IA e chips da AWS supera US$ 25 bilhões

A corrida também aparece nos resultados financeiros.

A AWS registrou crescimento de 36,7% no segundo trimestre de 2026, seu ritmo mais acelerado em 18 trimestres.

Os negócios relacionados a inteligência artificial e chips, considerados separadamente, já ultrapassaram uma taxa anualizada de receita de US$ 25 bilhões cada.

Isso ajuda a explicar por que países estão criando políticas específicas para disputar novos investimentos.

Um data center de IA não representa apenas um prédio cheio de servidores. Grandes projetos movimentam construção civil, energia, telecomunicações, equipamentos, serviços especializados e infraestrutura de conectividade.

Brasil disputa bilhões em uma corrida mundial

O Redata chega justamente quando vários países estão oferecendo incentivos para atrair infraestrutura de inteligência artificial.

O Brasil possui vantagens importantes: grande mercado consumidor, demanda crescente por serviços digitais, disponibilidade territorial, extensa infraestrutura de telecomunicações e matriz elétrica relativamente limpa.

Mas também enfrenta obstáculos.

Além da tributação estadual ainda em discussão, projetos de grande porte dependem da disponibilidade de energia, linhas de transmissão, licenciamento, conectividade e previsibilidade regulatória.

São Paulo continua sendo o principal mercado brasileiro de data centers, mas outras regiões começam a receber projetos bilionários, especialmente locais capazes de oferecer grandes volumes de energia e conectividade.

Data centers se tornam infraestrutura estratégica

A aprovação do Redata mostra que data centers deixaram de ser tratados apenas como imóveis destinados a armazenar servidores.

Na economia da inteligência artificial, essas instalações começam a desempenhar papel semelhante ao de grandes infraestruturas industriais.

É dentro delas que milhares de GPUs são conectadas para treinar modelos, executar agentes de IA, processar dados e oferecer serviços digitais para milhões de pessoas e empresas.

Quem conseguir atrair essa infraestrutura poderá ganhar não apenas investimentos, mas também maior capacidade computacional disponível localmente para empresas, startups e pesquisadores.

O Redata tenta justamente reduzir uma das desvantagens históricas brasileiras nessa disputa: o custo tributário dos equipamentos.

A AWS evita vincular imediatamente novos bilhões ao programa, mas a avaliação de sua liderança regional é significativa. Em um momento em que a capacidade mundial de IA já está sendo contratada com anos de antecedência, tornar o Brasil competitivo para receber novos data centers pode definir quanto da infraestrutura da próxima geração digital será construída dentro do país.

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