
A integração de agentes de inteligência artificial aos sistemas corporativos está criando uma nova superfície de ataque para empresas. Pesquisas de segurança envolvendo o ServiceNow demonstraram como criminosos poderiam explorar falhas e configurações do Now Assist para transformar ferramentas criadas para automatizar tarefas em instrumentos para roubo de dados e comprometimento de ambientes empresariais.
Um dos casos mais graves envolve a vulnerabilidade identificada como CVE-2025-12420, que recebeu pontuação 9,3 de 10 na escala CVSS. Batizada de BodySnatcher, a falha permitia que um atacante não autenticado se passasse por outro usuário e realizasse operações utilizando as permissões dessa vítima.
O cenário era especialmente preocupante porque o ataque poderia começar apenas com o conhecimento do endereço de e-mail corporativo de um funcionário.
A exploração combinava problemas na API do Virtual Agent com mecanismos utilizados pelos agentes de IA do Now Assist. Em determinadas condições, isso permitiria contornar controles tradicionais de identidade, incluindo autenticação multifator e sistemas de login único.
IA poderia agir com privilégios da vítima
O impacto vai além do simples acesso a uma conta.
Depois de assumir a identidade de um usuário, um invasor poderia acionar agentes de inteligência artificial com as mesmas permissões disponíveis para aquela pessoa. Caso a vítima tivesse privilégios administrativos, o criminoso poderia utilizar esses recursos para executar operações altamente sensíveis.
Entre os cenários demonstrados pelos pesquisadores estavam criação de contas administrativas clandestinas, alteração de registros e acesso a informações armazenadas dentro da plataforma.
A ServiceNow corrigiu a vulnerabilidade e distribuiu atualizações para os ambientes afetados. Não foram apresentadas evidências públicas de exploração da BodySnatcher em ataques reais.
Prompt injection abre outra frente de ataque
Outro problema identificado no ecossistema do Now Assist envolve ataques conhecidos como prompt injection, técnica na qual instruções maliciosas são inseridas em conteúdos que posteriormente serão processados por um modelo de inteligência artificial.
Nesse cenário, o próprio agente pode acabar interpretando comandos escondidos em registros, documentos ou outras informações corporativas.
O risco cresce quando diferentes agentes conseguem interagir entre si.
Pesquisadores demonstraram ataques de segunda ordem nos quais um agente inicialmente comprometido poderia utilizar outros agentes disponíveis no ambiente para realizar tarefas que individualmente não teria autorização para executar.
Essa combinação poderia resultar em cópia de informações confidenciais, alteração de registros e escalada de privilégios.
Roubo de dados pode ocorrer sem clique
Uma das características mais preocupantes dessa nova geração de ataques é a possibilidade de comprometimento sem a interação tradicional esperada da vítima.
Em ataques convencionais de phishing, por exemplo, normalmente é necessário convencer alguém a clicar em um link, abrir um arquivo ou fornecer uma senha.
Com agentes autônomos, a lógica pode mudar.
Se uma instrução maliciosa estiver armazenada em um conteúdo posteriormente analisado automaticamente pela IA, o agente pode processá-la utilizando suas próprias permissões. Dependendo da configuração, isso cria caminhos para que informações sejam acessadas ou movimentadas sem que o funcionário execute conscientemente uma ação.
É justamente essa combinação entre acesso a dados, capacidade de tomar decisões e permissão para executar tarefas que transforma agentes de IA em um novo desafio para as equipes de segurança.
ServiceNow reforçou proteções contra ataques à IA
A ServiceNow vem incorporando mecanismos adicionais de proteção ao Now Assist. Entre eles está o Now Assist Guardian, responsável por analisar interações com modelos generativos e identificar possíveis tentativas de prompt injection.
A tecnologia pode registrar ou bloquear solicitações consideradas suspeitas, dependendo das políticas configuradas pelos administradores.
Ainda assim, a própria natureza dos modelos generativos torna impossível tratar esse tipo de defesa como uma barreira absoluta. Novas técnicas podem surgir e determinadas tentativas de manipulação podem escapar dos mecanismos automáticos de detecção.
Por isso, organizações que utilizam agentes autônomos precisam adotar controles adicionais, como restrição de privilégios, segmentação de agentes, monitoramento das ações executadas pela IA e revisão das permissões concedidas às ferramentas.
Agentes de IA mudam a lógica da cibersegurança
O caso ServiceNow representa uma mudança importante no cenário de ameaças.
Durante décadas, boa parte da segurança corporativa foi construída para impedir que usuários não autorizados acessassem sistemas. Agora surge um problema adicional: o atacante pode tentar convencer uma inteligência artificial já autorizada a executar a ação por ele.
Quanto mais autonomia esses agentes recebem para consultar bancos de dados, criar registros, executar workflows e interagir com outros sistemas, maior pode ser o impacto de uma manipulação bem-sucedida.
A expansão da IA agêntica nas empresas, portanto, exigirá que organizações tratem esses sistemas não apenas como ferramentas de produtividade, mas também como novas identidades digitais com privilégios próprios.
E isso significa que controlar o que uma IA pode acessar, com quem pode interagir e quais ações pode executar deverá se tornar uma parte cada vez mais importante das estratégias de cibersegurança corporativa.



