
A D-Wave deu um passo importante na tentativa de transformar computadores quânticos de modelo de portas em máquinas capazes de operar com grandes quantidades de qubits. A companhia demonstrou uma tecnologia de controle criogênico escalável integrado ao próprio chip, solução desenvolvida para reduzir um dos maiores problemas de engenharia enfrentados pelo setor: a enorme quantidade de fios necessária para controlar processadores quânticos cada vez maiores.
A informação da imagem é verdadeira. O avanço foi anunciado originalmente em janeiro de 2026 e continua sendo uma peça importante da estratégia da D-Wave para desenvolver computadores quânticos de modelo de portas comercialmente viáveis.
A tecnologia aproveita conhecimentos que a empresa já utiliza em seus sistemas de quantum annealing e os adapta para sua nova arquitetura baseada em portas quânticas.
Milhares de qubits criam um problema de fios
Computadores quânticos superconductores precisam operar em temperaturas extremamente baixas, próximas do zero absoluto.
Nos sistemas da D-Wave, os processadores trabalham abaixo de 20 milikelvin. Nessas condições, cada conexão entre a eletrônica de controle e os qubits representa um desafio de engenharia.
Quanto maior o número de qubits, maior tende a ser também a quantidade de cabos necessários para controlá-los.
O problema é que esses fios ocupam espaço, conduzem calor para o interior do sistema criogênico e aumentam a complexidade da máquina. Em processadores com milhares ou eventualmente milhões de componentes quânticos, simplesmente adicionar mais cabos deixa de ser uma estratégia prática.
É justamente esse gargalo que a nova tecnologia tenta resolver.
Controle passa a ficar próximo dos qubits
A solução desenvolvida pela D-Wave utiliza circuitos de controle criogênico diretamente no ambiente do processador.
Em vez de depender de uma conexão dedicada para cada componente, o sistema utiliza multiplexação para controlar grandes quantidades de qubits utilizando muito menos linhas externas.
A empresa já emprega uma abordagem semelhante em seus processadores comerciais de annealing, nos quais conversores digitais-analógicos multiplexados conseguem controlar dezenas de milhares de qubits e acopladores utilizando apenas cerca de 200 fios de polarização.
Agora, a D-Wave demonstrou que princípios semelhantes também podem ser aplicados aos sistemas de modelo de portas.
Se a arquitetura funcionar conforme esperado em processadores maiores, será possível aumentar significativamente a quantidade de qubits sem aumentar na mesma proporção a complexidade física da infraestrutura criogênica.
Escalabilidade é um dos grandes desafios da computação quântica
Construir alguns qubits de alta qualidade já é tecnicamente complexo. Construir milhares deles funcionando de maneira coordenada é um problema muito maior.
Além da quantidade de conexões, computadores quânticos precisam enfrentar ruído, erros de operação, interferência eletromagnética e perda de coerência.
Esses problemas explicam por que a quantidade de qubits anunciada por um fabricante não representa, isoladamente, a capacidade real de uma máquina.
Para executar aplicações quânticas complexas será necessário criar qubits lógicos, formados por múltiplos qubits físicos trabalhando em conjunto para detectar e corrigir erros.
É nesse ponto que escalabilidade e correção de erros se encontram.
D-Wave aposta em qubits capazes de identificar erros
A estratégia da companhia para seus futuros computadores de modelo de portas utiliza os chamados dual-rail qubits.
Essa arquitetura foi reforçada após a aquisição da Quantum Circuits pela D-Wave no início de 2026.
Os dual-rail qubits possuem mecanismos que permitem identificar uma parcela significativa dos erros durante as operações. Segundo dados apresentados pela companhia, sua tecnologia consegue detectar aproximadamente 90% dos erros que ocorrem e alcançou fidelidade de portas superior a 99,9% quando esse mecanismo é considerado.
Um trabalho relacionado à tecnologia foi publicado em agosto na revista científica Nature, reforçando a estratégia de utilizar detecção de erros para reduzir a quantidade de hardware necessária para construir qubits lógicos confiáveis.
A expectativa da D-Wave é conseguir criar sistemas de correção de erros utilizando até uma ordem de grandeza menos qubits físicos por qubit lógico em comparação com determinadas abordagens convencionais.
Empresa quer chegar a 100 qubits lógicos
A D-Wave estabeleceu um roteiro ambicioso para sua plataforma de modelo de portas.
A companhia pretende avançar progressivamente na quantidade de qubits físicos e na capacidade de correção de erros, com o objetivo de alcançar 100 qubits lógicos capazes de executar mais de 1 milhão de operações com sucesso até 2032.
A estratégia inclui processadores intermediários e novas arquiteturas modulares.
A empresa também trabalha em empacotamento supercondutor entre múltiplos chips, outra tecnologia considerada fundamental para construir sistemas maiores.
A combinação é estratégica: controle criogênico reduz a quantidade de fios, enquanto conexões entre chips permitem distribuir o computador quântico entre diferentes módulos.
D-Wave agora disputa dois mercados quânticos
A companhia possui uma posição incomum no setor.
Historicamente, a D-Wave ficou conhecida por seus computadores de quantum annealing, arquitetura especializada principalmente em problemas de otimização.
Agora, está expandindo sua estratégia para computadores quânticos universais baseados em portas.
Esse modelo é semelhante, em conceito, ao caminho perseguido por empresas como IBM, Google e outras desenvolvedoras de hardware quântico.
A D-Wave pretende manter as duas tecnologias simultaneamente: annealing para aplicações que já podem ser exploradas comercialmente e sistemas de portas para aplicações quânticas mais amplas no futuro.
Entre os possíveis campos estão descoberta de materiais, química quântica, desenvolvimento de medicamentos, otimização avançada e aplicações relacionadas à inteligência artificial.
O desafio agora é transformar demonstração em máquina comercial
O avanço não significa que o problema da escalabilidade quântica esteja resolvido.
A demonstração comprova que o controle criogênico integrado pode funcionar sem comprometer significativamente a fidelidade dos qubits, mas ainda será necessário integrar essa tecnologia a sistemas cada vez maiores e demonstrar confiabilidade durante operações complexas.
Mesmo assim, o desenvolvimento ataca um problema fundamental.
Um computador quântico realmente útil não dependerá apenas de criar qubits melhores. Será necessário descobrir como controlar, conectar, resfriar e corrigir milhões de operações quânticas sem transformar a máquina em uma infraestrutura fisicamente impraticável.
Ao levar parte da eletrônica de controle para dentro do próprio ambiente criogênico, a D-Wave tenta eliminar justamente um desses gargalos.
Se a estratégia conseguir escalar, o avanço poderá ajudar a transformar computadores quânticos de máquinas experimentais extremamente complexas em sistemas modulares capazes de crescer de forma muito mais eficiente.



