
A Cisco está reduzindo sua força de trabalho em quase 4 mil posições como parte de uma ampla reorganização destinada a direcionar recursos para áreas consideradas estratégicas, principalmente inteligência artificial, segurança, chips e tecnologias ópticas.
A informação que circula na imagem é verdadeira, mas os cortes não são um anúncio feito agora em setembro. A reestruturação foi anunciada oficialmente pela companhia em 13 de maio de 2026, com as primeiras notificações aos funcionários começando no dia seguinte e seguindo posteriormente em diferentes países.
Segundo a Cisco, menos de 4 mil empregos seriam afetados, representando menos de 5% de sua força de trabalho global.
O movimento chama atenção porque não acontece em meio a uma crise financeira. Pelo contrário: a empresa atravessa um período de forte crescimento impulsionado justamente pela corrida mundial pela inteligência artificial.
Cisco quer transferir recursos para a era da IA
Ao comunicar a decisão aos funcionários, o CEO Chuck Robbins afirmou que empresas capazes de vencer na era da inteligência artificial precisarão direcionar investimentos para áreas nas quais existe maior demanda e potencial de crescimento.
A Cisco decidiu concentrar recursos principalmente em silício, óptica, cibersegurança e inteligência artificial, além de ampliar o uso interno de ferramentas de IA pelos próprios funcionários.
A companhia estima que o programa de reestruturação poderá gerar até US$ 1 bilhão em despesas, incluindo indenizações, benefícios de desligamento e outros custos relacionados.
A maior parte do processo deverá ser concluída até o final do ano fiscal de 2027.
Demissões acontecem junto com receitas recordes
O contraste entre cortes e desempenho financeiro é um dos pontos mais relevantes do anúncio.
Quando apresentou a reestruturação, a Cisco havia acabado de divulgar receita trimestral recorde de US$ 15,8 bilhões, crescimento de 12% na comparação anual.
Poucos meses depois, os números avançaram ainda mais.
No quarto trimestre fiscal de 2026, a empresa registrou US$ 17,3 bilhões em receita, alta de 18% sobre o mesmo período do ano anterior.
No ano fiscal completo, encerrado em julho, o faturamento atingiu US$ 63,3 bilhões, crescimento de 12%.
Isso mostra que a redução de pessoal não representa simplesmente uma tentativa tradicional de cortar despesas diante de queda nas vendas. A estratégia envolve redistribuir capital e profissionais para tecnologias consideradas prioritárias.
Pedidos relacionados à IA chegam a US$ 9,3 bilhões
A inteligência artificial está rapidamente se transformando em uma das principais oportunidades comerciais da Cisco.
Grandes empresas de tecnologia precisam conectar enormes clusters de GPUs utilizados para treinamento e execução de modelos. Isso exige switches, sistemas ópticos, chips, redes de alta velocidade e tecnologias de segurança — justamente áreas nas quais a Cisco pretende ampliar sua presença.
Somente no quarto trimestre fiscal, a companhia recebeu cerca de US$ 4 bilhões em pedidos de infraestrutura de IA de hyperscalers.
Considerando todo o ano fiscal de 2026, esses pedidos alcançaram aproximadamente US$ 9,3 bilhões.
A empresa afirma ter obtido cerca de US$ 4 bilhões em receita relacionada a essa infraestrutura durante o período e projeta atingir US$ 7,5 bilhões no ano fiscal de 2027.
Os pedidos de produtos de networking também cresceram 40% no último trimestre fiscal.
IA começa a reorganizar as próprias empresas de tecnologia
O caso da Cisco acompanha uma tendência observada em diferentes gigantes do setor.
A inteligência artificial não está apenas criando novos produtos. Ela também começa a influenciar como as próprias empresas estruturam suas equipes, distribuem investimentos e definem quais profissionais serão necessários nos próximos anos.
Nesse cenário, parte das companhias está reduzindo posições em determinadas áreas ao mesmo tempo em que contrata especialistas e amplia investimentos relacionados à IA.
A Cisco afirmou que a reestruturação não está direcionada exclusivamente à economia de custos, mas principalmente à realocação de recursos para áreas de crescimento.
Esse detalhe é importante porque diferencia o atual movimento de uma demissão tradicional provocada por dificuldades financeiras.
Cisco já realizou outros grandes cortes
Essa também não é a primeira grande reestruturação recente da companhia.
Em 2024, a Cisco realizou duas rodadas relevantes de demissões. Uma delas atingiu aproximadamente 4 mil trabalhadores e outra afetou cerca de 7% da força de trabalho, o equivalente na época a aproximadamente 5,6 mil pessoas.
Novos cortes menores também ocorreram posteriormente.
A sequência demonstra como até empresas estabelecidas estão ajustando rapidamente suas estruturas diante das mudanças provocadas por computação em nuvem, segurança e inteligência artificial.
Menos funcionários, mais infraestrutura de IA
A transformação da Cisco também evidencia uma mudança mais ampla na economia das Big Techs.
Durante anos, crescimento no setor tecnológico esteve diretamente associado à expansão do número de funcionários. Na corrida atual pela inteligência artificial, parte significativa dos investimentos está sendo direcionada para outro lugar: GPUs, chips, redes, data centers, energia e infraestrutura computacional.
No caso da Cisco, existe uma particularidade importante. A companhia não precisa apenas utilizar inteligência artificial internamente — ela pretende fornecer parte da infraestrutura necessária para que outras empresas consigam construir seus próprios sistemas de IA.
Quanto maior for a quantidade de GPUs instaladas em grandes data centers, maior será também a necessidade de conectar essas máquinas com redes extremamente rápidas e eficientes.
É justamente nesse mercado que a Cisco enxerga uma das maiores oportunidades de sua próxima fase.
Os quase 4 mil cortes, portanto, fazem parte de uma transformação estrutural: enquanto algumas posições desaparecem, bilhões de dólares estão sendo direcionados para as tecnologias que deverão sustentar a próxima geração da computação.



