
O Brasil está prestes a ganhar uma infraestrutura de data center concebida especificamente para atender à nova geração de sistemas de inteligência artificial. A Ascenty está construindo em Sumaré, no interior de São Paulo, uma instalação de alta densidade preparada desde o projeto inicial para suportar grandes cargas computacionais de IA.
A informação de que o empreendimento pode movimentar R$ 30 bilhões está correta, mas exige uma distinção importante: esse valor não corresponde integralmente ao investimento direto da Ascenty.
A companhia anunciou US$ 1,2 bilhão, aproximadamente R$ 6 bilhões, para a expansão de sua infraestrutura de IA no Brasil, envolvendo quatro novos data centers no estado de São Paulo. Segundo estimativas apresentadas pela empresa, clientes poderão adicionar cerca de R$ 24 bilhões em supercomputadores e equipamentos, levando o ecossistema relacionado ao projeto à casa dos R$ 30 bilhões.
Sumaré 3 nasce preparado para inteligência artificial
Batizado de Sumaré 3, o novo data center será construído no campus onde a Ascenty já possui outras duas unidades.
A instalação terá aproximadamente 48 mil metros quadrados e capacidade inicial de 90 MW, com possibilidade de adicionar outros 90 MW no futuro.
As obras começaram em março de 2026, e a previsão divulgada pela companhia aponta para entrega no terceiro trimestre de 2027.
A unidade é apresentada pela Ascenty como a primeira da América Latina projetada desde sua concepção para suportar cargas de trabalho de inteligência artificial em larga escala.
Isso significa que elementos como distribuição elétrica, densidade dos racks e principalmente refrigeração foram planejados considerando equipamentos muito mais exigentes do que servidores convencionais.
IA está mudando a engenharia dos data centers
O treinamento e a execução de grandes modelos de inteligência artificial exigem enormes conjuntos de GPUs funcionando simultaneamente.
Essa concentração de processamento gera um desafio físico: calor.
Enquanto racks tradicionais de servidores operam com densidades relativamente baixas, ambientes voltados para IA podem atingir níveis de consumo energético muito superiores. A Ascenty prepara sua nova infraestrutura para densidades que podem chegar a 1 MW por rack em determinados cenários.
Por isso, o Sumaré 3 contará com resfriamento líquido direto no chip, tecnologia que aproxima o líquido refrigerante dos componentes que produzem maior quantidade de calor.
O projeto também prevê circuito fechado de refrigeração, estratégia desenvolvida para reduzir significativamente — ou até eliminar durante a operação — o consumo contínuo de água associado a determinados sistemas tradicionais de resfriamento.
Quatro novos data centers já estão contratados
Sumaré faz parte de uma expansão ainda maior.
A Ascenty anunciou quatro novas instalações preparadas para inteligência artificial no estado de São Paulo, que juntas representam 150 MW de nova capacidade contratada.
Um detalhe chama atenção: toda essa capacidade já estava pré-locada quando o investimento foi anunciado.
Além do Sumaré 3, a companhia está ampliando sua infraestrutura em Vinhedo, outro importante polo de data centers do país.
A velocidade da demanda também impressiona. Segundo a Ascenty, os novos contratos de IA fechados representam mais de 40% de toda a capacidade construída pela empresa ao longo de aproximadamente 15 anos de operação.
Brasil entra na disputa pela infraestrutura da IA
O anúncio acontece em um momento estratégico para o mercado brasileiro.
O crescimento da inteligência artificial está provocando uma corrida mundial por terrenos, energia elétrica, chips, redes de fibra óptica e capacidade de processamento. Data centers deixaram de ser apenas estruturas destinadas a armazenar sites e sistemas corporativos e passaram a ocupar posição central na disputa tecnológica global.
O Brasil possui algumas vantagens importantes nessa corrida, incluindo uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis, disponibilidade territorial e uma das maiores economias digitais da América Latina.
Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados à disponibilidade de energia, transmissão elétrica, tributação de equipamentos importados e velocidade de licenciamento de grandes projetos.
O debate ganhou ainda mais força com o avanço do Redata, regime especial criado para incentivar investimentos em data centers por meio de benefícios tributários para equipamentos e infraestrutura tecnológica.
Sumaré se consolida como corredor tecnológico
A escolha de Sumaré também não acontece por acaso.
Localizada na Região Metropolitana de Campinas, a cidade está próxima de importantes redes de telecomunicações, centros empresariais e infraestrutura elétrica, além de integrar um dos principais corredores tecnológicos do país.
A região já concentra investimentos de grandes companhias de tecnologia e infraestrutura digital.
No caso do Sumaré 3, a expectativa é de aproximadamente 600 empregos durante o pico das obras, além de cerca de 120 postos permanentes especializados depois da entrada em operação.
Data centers se tornam as novas fábricas da economia digital
O projeto da Ascenty mostra uma transformação estrutural provocada pela inteligência artificial.
Durante décadas, grandes investimentos industriais estavam associados principalmente a fábricas, refinarias, siderúrgicas e complexos automotivos. A economia digital começa a produzir uma nova categoria de megaprojeto: instalações que concentram bilhões de reais em chips e consomem centenas de megawatts para produzir capacidade computacional.
Nesse cenário, data centers passam a funcionar como verdadeiras fábricas de processamento da economia da IA.
O investimento em Sumaré é um exemplo dessa mudança. Mais do que construir um local para armazenar servidores, o projeto prepara uma infraestrutura capaz de sustentar supercomputadores destinados ao treinamento e à operação de sistemas avançados de inteligência artificial.
Com bilhões de reais envolvidos e toda a nova capacidade já contratada, o projeto também deixa um sinal claro: a corrida global pela inteligência artificial já chegou à infraestrutura física brasileira.



