
A conectividade das escolas públicas brasileiras ganhará uma nova expansão. A Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (Eace) vai incluir mais 5.734 escolas públicas no programa Aprender Conectado, ampliando a meta inicialmente prevista de 40 mil para 45.734 unidades de ensino em todo o país.
A chamada Fase 6 é uma etapa adicional e será financiada graças à economia obtida na execução das fases anteriores do programa. A ampliação representa crescimento de aproximadamente 15% sobre o alcance originalmente previsto e deverá chegar a escolas onde a conexão à internet ainda é inexistente ou insuficiente para atividades pedagógicas.
A iniciativa está diretamente relacionada às obrigações estabelecidas no leilão do 5G, que determinou a aplicação de recursos das operadoras vencedoras na conectividade de escolas públicas.
Economia permitiu ampliar o programa
Nas cinco primeiras fases do Aprender Conectado foram disponibilizados cerca de R$ 3,1 bilhões. Segundo informações apresentadas pela Eace, aproximadamente R$ 800 milhões permaneceram como saldo remanescente dessas etapas, permitindo ampliar o número de escolas beneficiadas.
A execução específica da nova fase, porém, tem orçamento aprovado de R$ 453,5 milhões, conforme informações oficiais da Eace.
Isso significa que a expansão não depende de uma nova fonte de financiamento para começar. Parte dos recursos que já haviam sido destinados ao projeto poderá ser utilizada para alcançar milhares de unidades adicionais.
Programa já conectou quase 30 mil escolas
O Aprender Conectado já levou infraestrutura para quase 30 mil escolas, distribuídas por mais de 3,3 mil municípios brasileiros.
Segundo os dados apresentados pela entidade, aproximadamente 3,5 milhões de estudantes já foram alcançados pelas ações do programa.
A dimensão do projeto também mostra como o desafio da conectividade escolar brasileira vai além das grandes cidades.
Entre as unidades já atendidas, mais de 18,5 mil estão em áreas rurais. O programa também chegou a mais de 1,5 mil escolas indígenas e aproximadamente 1,4 mil escolas quilombolas.
As demais estão principalmente em regiões urbanas consideradas socialmente vulneráveis.
Nova fase chegará a 2.246 municípios
As 5.734 escolas adicionais estão distribuídas por 2.246 municípios e 26 das 27 unidades da Federação.
A maior quantidade está no Nordeste, que terá 2.333 escolas beneficiadas.
Na sequência aparecem o Sudeste, com 2.071 unidades; o Sul, com 553; o Norte, com 442; e o Centro-Oeste, com 335 escolas.
A distribuição demonstra a escala nacional da nova etapa.
Pela primeira vez, uma fase do programa alcançará escolas em praticamente todo o território brasileiro.
67% das escolas estão em áreas urbanas vulneráveis
Outro dado ajuda a compreender o perfil das instituições escolhidas.
Segundo a Eace, 67% das escolas da nova fase estão localizadas em zonas urbanas socialmente vulneráveis, enquanto 33% ficam em áreas rurais.
Além disso, 91% das unidades pertencem às redes municipais de ensino.
A escolha das instituições beneficiadas é responsabilidade do Ministério da Educação (MEC), considerando dados do Censo Escolar e critérios estabelecidos pela Estratégia Nacional de Escolas Conectadas.
A lista e a prioridade de atendimento passam posteriormente pelo Grupo de Acompanhamento do Custeio a Projetos de Conectividade de Escolas (Gape).
Projeto não significa apenas colocar um ponto de internet
Um aspecto importante do Aprender Conectado é que a proposta vai além da simples contratação de uma conexão.
Na Fase 6, a contratação prevê uma solução integrada envolvendo rede externa e infraestrutura interna por 24 meses.
Para o acesso em banda larga, a prioridade será a utilização de fibra óptica.
Dependendo das condições de cada localidade, porém, poderão ser utilizadas outras tecnologias, como rádio, combinação de fibra e rádio ou FWA (Fixed Wireless Access).
Isso é especialmente importante em regiões rurais e localidades onde a instalação de fibra pode apresentar maior dificuldade técnica ou econômica.
Wi-Fi precisa chegar às áreas pedagógicas
Não basta a internet chegar até o portão da escola.
A rede interna deverá disponibilizar uma solução de Wi-Fi dimensionada para os ambientes pedagógicos e administrativos, permitindo que professores, estudantes e funcionários realmente utilizem a conexão.
Também está prevista a instalação do Medidor Educação Conectada, baseado no Simet, do NIC.br.
O equipamento permite acompanhar indicadores relacionados à qualidade da conexão.
Esse monitoramento é importante porque uma escola pode tecnicamente possuir internet, mas apresentar velocidade ou estabilidade insuficientes para atividades educacionais.
39 escolas sequer possuem energia elétrica
Talvez o dado que melhor demonstre o tamanho do desafio brasileiro esteja em um pequeno grupo de instituições.
Entre as 5.734 escolas selecionadas, 39 não possuem acesso à rede elétrica.
Nesses locais, levar apenas internet não resolveria o problema.
Por isso, o projeto prevê também a instalação de sistemas fotovoltaicos off-grid, capazes de produzir energia independentemente da rede convencional.
A estrutura deverá incluir painel solar, inversor, controlador de carga e banco de baterias de lítio.
Somente depois de solucionar a ausência de eletricidade será possível manter roteadores, equipamentos de rede e dispositivos necessários à conexão.
Energia solar já faz parte do Aprender Conectado
Essa não é a primeira vez que o programa precisa enfrentar o problema energético.
Nas etapas anteriores, a Eace já instalou sistemas de geração de energia em mais de 1,5 mil escolas para viabilizar a infraestrutura de conectividade.
Os equipamentos também podem fornecer iluminação para salas de aula.
Na prática, portanto, um programa criado para levar internet acaba produzindo impactos que vão além da conectividade.
Em regiões remotas, a infraestrutura necessária para colocar uma escola online pode melhorar também suas condições básicas de funcionamento.
Origem está no leilão do 5G
A Eace foi criada como consequência do edital do leilão do 5G realizado pela Anatel.
Parte dos compromissos assumidos pelas empresas vencedoras envolveu recursos destinados à conectividade das escolas públicas.
A entidade administra a execução do projeto, contrata fornecedores, acompanha a instalação da infraestrutura e garante a manutenção dos sistemas.
Isso transforma parte do investimento relacionado à implantação da nova geração de telefonia móvel em infraestrutura educacional.
Conectividade escolar ganhou importância com digitalização
A expansão acontece em um momento no qual o acesso à internet deixou de ser apenas complementar dentro da educação.
Plataformas digitais, conteúdos multimídia, ambientes virtuais de aprendizagem e sistemas administrativos dependem cada vez mais de conectividade.
A própria chegada da inteligência artificial à educação tende a aumentar essa necessidade.
Ferramentas baseadas em IA generativa podem ser utilizadas para apoio ao professor, produção de materiais, pesquisa, tradução e atividades personalizadas.
Mas nenhuma dessas tecnologias produz impacto em escolas que não possuem infraestrutura adequada.
Por isso, a desigualdade digital pode se transformar também em desigualdade educacional.
Não basta conectar: é preciso manter
Outro desafio aparece depois da instalação.
Infraestrutura de telecomunicações exige manutenção.
Equipamentos apresentam falhas, enlaces podem sofrer interrupções e a demanda de dados cresce conforme estudantes e professores começam a utilizar novos serviços.
A inclusão de contratos com duração definida e mecanismos de monitoramento ajuda justamente a evitar que a conectividade seja tratada apenas como uma instalação pontual.
O objetivo precisa ser garantir disponibilidade suficiente para utilização cotidiana.
Fibra continua sendo prioridade
A preferência por fibra óptica também revela uma preocupação com a qualidade futura da infraestrutura.
Uma escola pode inicialmente utilizar a internet para atividades relativamente simples.
Mas o consumo tende a crescer.
Vídeos educacionais em alta resolução, videoconferências, serviços em nuvem, plataformas de IA e dezenas de dispositivos conectados simultaneamente exigem muito mais capacidade do que atividades básicas de navegação.
Instalar uma infraestrutura preparada para esse crescimento reduz a necessidade de substituir completamente a tecnologia poucos anos depois.
Conectividade pode transformar escolas rurais
Nas regiões rurais, o impacto pode ser ainda maior.
Uma escola conectada pode acessar conteúdos que antes não estavam disponíveis localmente.
Professores podem participar de capacitações a distância.
Alunos podem utilizar plataformas educacionais.
Gestores conseguem acessar sistemas administrativos e serviços públicos digitais.
A conectividade também reduz parte da distância entre escolas localizadas em regiões remotas e grandes centros urbanos.
É justamente por isso que a presença de milhares de escolas rurais entre as unidades atendidas representa uma das dimensões mais relevantes do programa.
Meta sobe para quase 46 mil escolas
Com a inclusão das novas unidades, a meta da Eace passa oficialmente de 40 mil para 45.734 escolas públicas.
A implantação da Fase 6 está prevista para ocorrer até o fim de 2027.
A expansão é significativa porque surgiu a partir da própria eficiência financeira das etapas anteriores.
Em vez de encerrar a execução após alcançar a meta inicialmente contratada, o saldo disponível permitirá ampliar a quantidade de instituições beneficiadas.
Internet chega onde às vezes nem energia existe
A nova etapa do Aprender Conectado também expõe os extremos da infraestrutura brasileira.
Enquanto escolas de grandes centros discutem inteligência artificial, ensino híbrido e plataformas digitais, outras instituições ainda precisam receber energia elétrica para que seja possível instalar internet.
É justamente nesse cenário que a conectividade pode produzir seu maior impacto.
Com as 5.734 novas unidades, o programa chegará a quase 46 mil escolas, levando infraestrutura não apenas para regiões urbanas, mas também para comunidades rurais e socialmente vulneráveis.
O avanço mostra ainda um efeito importante do leilão do 5G: além da expansão das redes móveis comerciais, parte dos recursos associados ao processo está sendo utilizada para construir uma infraestrutura digital que poderá permanecer por muitos anos dentro das escolas públicas brasileiras.



