News
Tendência

O crédito virou vilão. O varejo discorda.

Por Carol Franco

Em meio às leituras sobre endividamento e inadimplência, empresas reveem estruturas de capital e modelos de risco sem abrir mão de um instrumento que sempre moveu o consumo. Dados e inteligência artificial começam a pesar nessa equação e deslocam a discussão para a qualidade das decisões.

 O crédito virou presença constante nas análises sobre o varejo brasileiro. Endividamento, inadimplência, juros e alavancagem ajudam a explicar o momento, mas dizem pouco quando tratados como um diagnóstico único. Dentro das empresas, as situações são bem diferentes. Há varejistas que reduziram dívida, outros que reorganizaram a estrutura de capital e aqueles que voltaram a investir em crédito próprio. Ao mesmo tempo, dados e tecnologia deram mais recursos para avaliar quem recebe crédito e em quais condições.

Alberto Serrentino, fundador da Varese Retail, e uma das principais referências brasileiras em varejo e consumo, faz uma ressalva importante à leitura de crise generalizada. “Tecnicamente nós não estamos em crise. O varejo está crescendo. Está crescendo pouco, mas está crescendo”, afirma. Isso não diminui o peso do cenário econômico, sobretudo para empresas que chegaram a esse período mais alavancadas. Quem teve condições de reduzir dívida fez esse movimento. E a experiência recente deve deixar marcas nas próximas decisões. “Tudo que está acontecendo nos últimos anos já está mudando a postura do varejo em relação à estrutura de capital e alavancagem”, diz Serrentino.

Dívida, por si só, não é o problema. Empresas recorrem a capital para financiar expansão, aquisições e investimentos. O risco aparece quando essa estrutura deixa pouca margem para atravessar mudanças bruscas no custo do dinheiro. Os últimos anos tornaram essa diferença bastante concreta.

O debate fica mais confuso quando o crédito tomado pela empresa e aquele oferecido ao consumidor aparecem na mesma conta. São coisas diferentes. E, no segundo caso, reduzir a discussão a endividamento e inadimplência deixa de fora uma parte importante da história do varejo brasileiro. Muito antes de fintechs e da ampliação do acesso ao sistema bancário, grandes redes já financiavam seus clientes por meio do crediário. Depois vieram bancos, aquisições de carteiras, parcerias e joint ventures. Em diferentes momentos, parte dessas operações voltou para dentro dos próprios varejistas.“O varejo voltou a ser um provedor de crédito, que é fundamental como oxigênio para o negócio”, afirma Serrentino.

A imagem do oxigênio ajuda a entender por que simplesmente fechar a torneira não é uma resposta suficiente. O crédito sustenta consumo e venda. A questão é o risco assumido para fazer essa roda funcionar, nem toda carteira reproduz o quadro geral de inadimplência. “Para quem tem financeira, para quem tem operação de crédito próprio, ela está bastante saudável”, diz Serrentino. Há uma razão para olhar essas operações com atenção. O varejista sabe muito sobre quem compra dele. Letícia Alcântara, Head de Crédito, considera esse conhecimento um dos principais ativos do setor. “O varejo tem um ativo incrível nas mãos: conhece profundamente seus clientes”, afirma.

Esse conhecimento vai além das informações tradicionalmente usadas na análise de crédito. O varejista sabe o que o cliente compra, com que frequência volta, quais categorias procura e como se relaciona com a empresa nos diferentes canais. Isoladamente, nenhum desses dados resolve uma decisão de risco. Juntos, podem revelar diferenças entre consumidores que parecem iguais quando observados apenas por indicadores financeiros convencionais.

O trabalho está justamente em descobrir quais informações têm valor para cada carteira. Nem toda variável melhora um modelo. É preciso testar, comparar resultados e acompanhar o comportamento do crédito concedido. O histórico comercial, quando bem usado, acrescenta uma dimensão que o varejo conhece melhor do que quase qualquer outro setor. A inteligência artificial aumenta a capacidade de fazer essas relações. Serrentino cita o uso de IA por varejistas para aperfeiçoar modelos de risco e score. Com mais poder de processamento, é possível cruzar volumes maiores de informação e identificar padrões que antes passavam despercebidos.

Isso não transforma tecnologia em política de crédito. A decisão continua dependente de critérios, dados confiáveis, acompanhamento e governança. Para Letícia, esse ponto é central. “No fim, não é sobre conceder mais ou menos crédito. É sobre conceder melhor, acompanhar e planejar com eficiência”, afirma. A frase contraria uma lógica antiga. Em momentos ruins, fecha-se o crédito. Quando o cenário melhora, volta-se a abrir. Só que duas pessoas com o mesmo score podem ter histórias muito diferentes com uma empresa. Quanto mais elementos entram na análise, menor a necessidade de tratar toda a carteira da mesma forma.

Há ainda outra conta, a da própria empresa. O varejista precisa decidir quanto risco aceita na concessão ao consumidor e, ao mesmo tempo, quanto risco suporta em sua estrutura de capital. Uma decisão não substitui a outra. Nos dois casos, os últimos anos elevaram o custo do erro. É por isso que falar em uma “pandemia do crédito” pode esconder mais do que revelar. Uma empresa excessivamente alavancada, uma família endividada, uma carteira mal formada e uma financeira saudável aparecem nas estatísticas do mesmo universo, mas têm causas, riscos e respostas diferentes. O número agregado chama atenção. Para decidir, é preciso abri-lo.

O varejo tem uma vantagem nesse processo. Não começou ontem a conhecer o consumidor. Financia clientes há décadas e acumulou uma quantidade de informação que ganhou novo valor com a evolução dos modelos de risco e da tecnologia. A IA acrescenta capacidade de processamento a esse patrimônio.

Do lado da estrutura de capital, a lição também é menos dramática do que o discurso sobre crise sugere. A dívida continuará a financiar crescimento. O que os últimos anos colocaram à prova foi a capacidade de cada empresa suportar seu nível de alavancagem quando o dinheiro ficou mais caro.

Talvez seja esse o ponto que se perde quando o crédito é tratado como vilão. Crédito não é uma coisa só. Não é igual para todas as empresas, carteiras ou consumidores. E os números gerais, embora importantes, não substituem a análise de quem concede, de quem toma e das condições em que essa relação acontece.

Para o varejo, a pergunta mais útil talvez não seja quanto crédito deve existir. É outra: para quem, em que condições e com base em quais informações? O setor conhece há décadas o poder de financiar seu consumidor. Agora tem mais instrumentos para decidir quando esse crédito faz sentido.

O crédito pode ter virado vilão no discurso. O varejo não está aprendendo a viver sem ele. Está aprendendo a usá-lo melhor.

 

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo