
O Brasil deu um novo passo na cooperação militar em segurança digital ao sediar o primeiro Exercício de Defesa Cibernética da Rede de Cooperação entre Exércitos Sul-Americanos (RECESA), iniciativa criada para aproximar as Forças Armadas da região diante de ameaças que podem ultrapassar fronteiras nacionais.
Realizado em Brasília até 21 de agosto, o treinamento reuniu representantes de Exércitos sul-americanos para analisar situações simuladas envolvendo ataques contra sistemas, redes e infraestruturas críticas. A atividade foi coordenada pelo Estado-Maior do Exército Brasileiro e executada pelo Comando de Defesa Cibernética.
Mais do que um treinamento técnico, o exercício procurou responder a uma questão que ganhou importância estratégica nos últimos anos: como diferentes países poderiam coordenar suas ações caso um grande ataque digital atingisse serviços essenciais ou estruturas militares da região?
Militares enfrentaram problemas cibernéticos simulados
Durante o exercício, as delegações receberam os chamados Problemas Cibernéticos Simulados (PCS).
Esses cenários reproduzem situações que poderiam ocorrer durante um incidente real. A partir do problema apresentado, representantes de cada país analisam a ameaça e demonstram os procedimentos utilizados por suas próprias forças.
O formato permite comparar metodologias, identificar diferenças entre protocolos nacionais e compartilhar experiências.
Entre as situações apresentadas estavam operações de espionagem, utilização de inteligência artificial e tentativas de comprometimento de serviços essenciais. Os participantes também avaliaram como um ataque poderia produzir consequências nos níveis político, estratégico e operacional.
Esse último ponto é particularmente relevante.
Um incidente cibernético contra uma infraestrutura crítica dificilmente permanece apenas como problema de tecnologia. Dependendo do alvo e da dimensão da interrupção, os efeitos podem rapidamente chegar à economia, à segurança pública e às relações entre países.
Inteligência artificial entrou nos cenários de ataque
A presença da inteligência artificial entre os cenários analisados demonstra como a tecnologia já passou a fazer parte do planejamento relacionado à defesa cibernética.
Ferramentas de IA podem ser utilizadas tanto para fortalecer sistemas defensivos quanto para ampliar capacidades ofensivas.
Na defesa, algoritmos podem auxiliar na análise de grandes volumes de eventos, identificação de comportamentos suspeitos e investigação de incidentes.
No outro lado, criminosos e grupos patrocinados por Estados podem explorar ferramentas automatizadas para acelerar reconhecimento de redes, produzir campanhas de engenharia social e aumentar a escala de determinadas operações.
O exercício brasileiro não significa que ataques reais tenham sido realizados contra infraestruturas dos países participantes. Os cenários foram desenvolvidos justamente para permitir que militares experimentassem procedimentos e decisões dentro de um ambiente controlado.
Infraestrutura crítica está no centro da preocupação
Outro componente importante do treinamento envolve a proteção de infraestrutura crítica.
Energia, telecomunicações, sistemas financeiros, transportes e serviços públicos dependem cada vez mais de redes digitais.
Essa transformação trouxe eficiência, mas também criou novas superfícies de ataque.
Uma invasão contra uma organização comum pode resultar em roubo de informações ou interrupção de sistemas. Quando o alvo controla infraestrutura essencial, as consequências podem chegar ao mundo físico.
Uma operação contra sistemas industriais pode, dependendo das condições, interferir no funcionamento de equipamentos, interromper serviços ou comprometer processos essenciais.
É justamente por isso que defesa cibernética deixou de ser apenas uma responsabilidade dos departamentos de TI.
Ataques digitais podem ultrapassar fronteiras
A cooperação regional também responde a uma característica fundamental da internet: fronteiras geográficas possuem pouca importância para os atacantes.
Um servidor utilizado em uma operação pode estar localizado em um país, enquanto o invasor está em outro e a vítima em um terceiro.
Infraestruturas sul-americanas também possuem diferentes níveis de interdependência.
Redes de telecomunicações, serviços digitais e sistemas financeiros conectam países e empresas. Isso significa que determinados incidentes podem gerar efeitos indiretos em outras regiões.
A criação de canais permanentes entre equipes militares pode facilitar o compartilhamento de informações quando uma ameaça é identificada.
O objetivo é evitar que o primeiro contato entre os países aconteça somente durante uma crise.
RECESA foi criada em 2023
A estrutura utilizada para organizar o treinamento é relativamente recente.
A Rede de Cooperação entre Exércitos Sul-Americanos (RECESA) foi criada em 2023 como espaço permanente de diálogo entre os Exércitos da região.
O treinamento realizado no Brasil foi a primeira atividade da rede especificamente dedicada à defesa cibernética.
A criação desse tipo de estrutura reflete uma transformação mais ampla no conceito de defesa.
Forças militares tradicionalmente foram organizadas para atuar em ambientes físicos — terra, mar e ar.
O espaço digital adicionou outro campo de operações.
Um adversário não precisa necessariamente atravessar uma fronteira física para tentar comprometer sistemas de comando, comunicações ou infraestrutura estratégica.
Colômbia e Uruguai participaram das atividades
Representantes de diferentes países acompanharam o treinamento em Brasília.
Entre os participantes mencionados oficialmente estavam a Coronel Milena Realpe, do Exército da Colômbia, e o Coronel Rahi, do Exército do Uruguai.
As delegações destacaram justamente a importância do intercâmbio técnico e da criação de canais de contato entre as instituições.
Esse relacionamento pode ser tão importante quanto as ferramentas utilizadas durante o exercício.
Em um incidente de grande escala, equipes precisam rapidamente descobrir quem possui determinada informação, quem pode ajudar na investigação e quais autoridades precisam ser acionadas.
Construir esses contatos antecipadamente reduz parte dessa dificuldade.
Brasil vem ampliando estrutura de defesa cibernética
O exercício também reforça o papel que o Brasil vem tentando construir nessa área.
O país possui uma estrutura militar específica para operações e defesa no ambiente digital, tendo o Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) como uma das principais organizações responsáveis pelo setor.
A defesa cibernética também aparece dentro do processo de modernização da Força Terrestre conhecido como Força 40.
Nesse conceito, o ambiente digital integra as chamadas operações multidomínio, nas quais diferentes áreas de atuação militar precisam funcionar de forma coordenada.
Isso inclui desde proteção de sistemas de comando e controle até acompanhamento de ameaças digitais e segurança de infraestrutura crítica.
Brasil já possui experiência com grandes exercícios cibernéticos
Embora seja o primeiro exercício específico da RECESA, o Brasil já realiza há anos treinamentos de grande porte envolvendo ataques simulados.
Um dos principais exemplos é o Exercício Guardião Cibernético, coordenado pelo Comando de Defesa Cibernética.
A iniciativa reúne representantes de diferentes setores e simula crises envolvendo infraestrutura crítica.
O exercício tornou-se um dos principais instrumentos brasileiros de treinamento e integração no setor. Uma análise acadêmica publicada em 2026 chega a classificá-lo como um ponto central das iniciativas brasileiras de defesa e segurança cibernética.
A diferença agora está no caráter regional da RECESA.
Em vez de concentrar a integração apenas dentro do Brasil, a iniciativa amplia o diálogo para outros Exércitos sul-americanos.
Guerra moderna também acontece nas redes
A evolução das capacidades cibernéticas mudou profundamente o conceito de conflito.
Um país pode enfrentar ações digitais muito antes de qualquer confronto militar convencional.
Operações podem tentar coletar informações estratégicas, comprometer comunicações, acessar sistemas governamentais ou produzir desinformação.
Em determinados casos, também existe a possibilidade de atingir infraestrutura essencial.
Por isso, ataques cibernéticos são frequentemente tratados como instrumentos capazes de complementar outras formas de pressão política, econômica ou militar.
O problema adicional está na atribuição.
Descobrir quem realizou determinado ataque pode exigir semanas ou meses de investigação.
Infraestruturas comprometidas, servidores intermediários e técnicas destinadas a ocultar a origem dificultam a identificação do responsável.
Isso cria um ambiente em que cooperação e compartilhamento de inteligência tornam-se especialmente importantes.
IA adiciona velocidade aos conflitos digitais
A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente.
Modelos capazes de analisar código, utilizar ferramentas e processar grandes volumes de informações podem aumentar significativamente a velocidade das operações digitais.
Do lado defensivo, isso permite investigar alertas rapidamente.
Do lado ofensivo, entretanto, sistemas semelhantes podem potencialmente ajudar atacantes a procurar vulnerabilidades ou adaptar determinadas estratégias.
Isso cria uma possível disputa entre automação ofensiva e defensiva.
O treinamento realizado em Brasília mostra que esse cenário já está sendo considerado dentro dos exercícios militares da região, ao incluir explicitamente IA entre as situações simuladas.
Defesa cibernética depende também do setor privado
Existe ainda uma particularidade importante quando o assunto é infraestrutura crítica.
Grande parte dos sistemas essenciais de um país não pertence às Forças Armadas.
Operadoras de telecomunicações, instituições financeiras, empresas de energia, provedores de internet, companhias aéreas, hospitais e plataformas tecnológicas são operados principalmente por organizações civis.
Isso significa que uma estratégia nacional de resiliência digital depende de colaboração entre governo, militares e iniciativa privada.
Um ataque contra uma grande operadora de telecomunicações, por exemplo, pode produzir impactos sobre serviços utilizados por órgãos públicos e empresas.
Da mesma maneira, uma invasão contra fornecedores de tecnologia pode atingir diversos clientes simultaneamente.
A defesa do ambiente digital, portanto, funciona como um ecossistema.
Cooperação pode acelerar resposta a ataques reais
O principal valor de exercícios desse tipo aparece quando um incidente verdadeiro acontece.
Durante uma crise, cada minuto pode fazer diferença.
Imagine uma campanha que explore a mesma vulnerabilidade contra organizações governamentais de Brasil, Colômbia, Uruguai e outros países simultaneamente.
Se uma das equipes descobrir primeiro como o ataque funciona, compartilhar rapidamente indicadores técnicos pode ajudar os demais participantes a identificar e bloquear a ameaça.
Esses indicadores podem incluir endereços de servidores maliciosos, características de arquivos, padrões de comunicação ou outras evidências utilizadas durante uma investigação.
O treinamento cria justamente a estrutura institucional necessária para que essa troca possa ocorrer.
Exercício busca transformar experiência em procedimentos
Ao final das atividades, as delegações ficaram responsáveis por registrar as rotinas e os procedimentos observados.
A ideia é transformar o conhecimento produzido durante as simulações em referências para futuras ações de cooperação.
Essa etapa é fundamental.
Um exercício não serve apenas para verificar quem conseguiu resolver determinado problema.
O principal resultado está em identificar o que funcionou, onde existiram dificuldades e quais procedimentos precisam ser melhorados.
É uma lógica semelhante à utilizada em treinamentos de emergência.
O objetivo é descobrir as falhas durante uma simulação — e não durante uma crise real.
Cibersegurança entra definitivamente na estratégia militar sul-americana
O primeiro exercício cibernético da RECESA representa mais do que um encontro técnico entre especialistas.
Ele mostra que ameaças digitais passaram definitivamente a integrar o planejamento estratégico dos Exércitos sul-americanos.
A região possui infraestruturas cada vez mais digitalizadas e conectadas, enquanto ferramentas utilizadas por atacantes evoluem rapidamente.
Ao mesmo tempo, inteligência artificial adiciona uma nova camada de complexidade ao cenário.
Nesse contexto, nenhum país consegue observar isoladamente tudo o que acontece no ambiente digital.
Compartilhar experiências, indicadores e procedimentos pode reduzir o tempo necessário para identificar uma ameaça e aumentar a capacidade coletiva de resposta.
O exercício realizado em Brasília funciona justamente como um primeiro teste dessa integração.
Se a RECESA conseguir transformar os aprendizados das simulações em canais permanentes de cooperação, o resultado poderá ir além do ambiente militar.
Em um cenário no qual um ataque contra telecomunicações, energia ou outros serviços essenciais pode atravessar fronteiras em segundos, capacidade técnica continua fundamental — mas saber com quem compartilhar rapidamente uma informação pode ser igualmente decisivo.



