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China restringe terras raras e aumenta pressão sobre expansão global de data centers de IA

Controle de Pequim sobre minerais estratégicos como ítrio, érbio e outros materiais críticos começa a preocupar a indústria de data centers. Componentes usados em servidores, sistemas ópticos, refrigeração e infraestrutura elétrica dependem de cadeias produtivas fortemente concentradas na China.

A corrida mundial pela construção de data centers para inteligência artificial enfrenta um obstáculo que não está nos chips mais avançados nem na disponibilidade de energia: o acesso a matérias-primas críticas controladas pela China.

Restrições impostas por Pequim às exportações de terras raras e outros minerais estratégicos estão aumentando a preocupação de empresas de tecnologia, fabricantes de componentes e governos. Embora alguns fluxos tenham melhorado após negociações comerciais, materiais específicos continuam submetidos a controles e dificuldades de fornecimento.

O problema ganhou uma dimensão adicional com a explosão dos investimentos em infraestrutura para inteligência artificial.

Data centers modernos precisam de milhares de servidores, aceleradores, transceptores ópticos, equipamentos de refrigeração, sistemas elétricos e dispositivos responsáveis por movimentar enormes quantidades de informações.

Por trás dessa infraestrutura existe uma cadeia industrial que depende de elementos pouco conhecidos pelo consumidor comum — e a China possui posição dominante em diversas etapas dessa cadeia.

A situação cria uma nova preocupação: mesmo que empresas consigam comprar GPUs suficientes para seus projetos, gargalos em minerais e componentes aparentemente secundários podem atrasar a construção dos próprios data centers.

Ítrio virou um dos pontos de preocupação

Entre os elementos mais importantes nesse cenário está o ítrio, uma terra rara utilizada em diversas aplicações industriais.

O material possui propriedades que ajudam determinados componentes a operar em condições extremas, incluindo altas temperaturas.

Isso é importante dentro da infraestrutura de data centers, onde equipamentos trabalham continuamente e precisam lidar com grandes quantidades de calor.

A IEEE Spectrum destaca que a forte influência chinesa sobre o fornecimento de ítrio e érbio pode se transformar em um gargalo para data centers, sistemas de defesa e infraestrutura de computação em nuvem.

O problema não está necessariamente na existência geológica desses elementos.

Terras raras, apesar do nome, não são sempre extremamente raras na natureza.

A dificuldade está em construir uma cadeia economicamente viável para extrair, separar, refinar e transformar esses minerais em produtos industriais.

E é justamente nessas etapas que a China construiu uma enorme vantagem.

China domina principalmente o processamento

A dependência internacional de Pequim não ocorre apenas porque o país possui minas.

A posição chinesa é ainda mais relevante no processamento.

Estimativas recentes colocam a China com aproximadamente 70% da mineração mundial de terras raras e perto de 90% do processamento, resultado de décadas de investimentos na cadeia produtiva.

Essa diferença é fundamental.

Um país pode descobrir uma grande reserva de terras raras e ainda assim depender de instalações localizadas em outro território para separar e transformar o material.

Construir essa infraestrutura exige tecnologia, investimentos, licenciamento ambiental e anos de desenvolvimento.

Portanto, simplesmente encontrar novas reservas não resolve imediatamente a dependência.

Exportações de algumas terras raras permanecem muito abaixo dos níveis anteriores

Os controles chineses começaram a mostrar efeitos relevantes sobre determinados elementos.

Dados alfandegários analisados pela Reuters mostraram que as exportações de ítrio, disprósio e térbio permaneciam cerca de 50% abaixo dos níveis registrados antes da implementação dos controles de abril de 2025.

A queda não significa que todas as exportações chinesas de terras raras tenham diminuído pela metade.

Esse detalhe é importante.

Diferentes elementos estão enfrentando situações diferentes e alguns fluxos comerciais voltaram a aumentar depois de negociações entre Pequim, Washington e países europeus.

O problema está justamente nos minerais mais especializados, cuja produção mundial é extremamente concentrada.

Em maio de 2026, por exemplo, as exportações chinesas de ímãs de terras raras caíram 35% em relação ao mês anterior, atingindo o menor nível em aproximadamente um ano.

Essas oscilações mostram como decisões regulatórias chinesas conseguem rapidamente produzir efeitos nas cadeias industriais internacionais.

US$ 6,5 trilhões da indústria mundial podem estar expostos

A dependência é suficientemente grande para gerar preocupações muito além dos data centers.

A Agência Internacional de Energia alertou que aproximadamente US$ 6,5 trilhões da produção industrial mundial pode ficar exposta caso ocorram restrições severas no fornecimento de terras raras.

Automóveis, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos militares, robótica, telecomunicações e eletrônicos dependem desses materiais.

A inteligência artificial acrescentou uma nova camada de demanda.

A construção de grandes clusters computacionais exige não apenas GPUs, mas milhares de componentes auxiliares.

É justamente aí que pequenos gargalos podem se transformar em grandes problemas.

Um data center de IA é muito mais do que GPUs

Quando empresas anunciam investimentos bilionários em inteligência artificial, a atenção normalmente fica concentrada em processadores da NVIDIA, AMD ou aceleradores desenvolvidos internamente pelas grandes empresas de nuvem.

Mas um cluster de IA não funciona apenas com chips.

Centenas ou milhares de aceleradores precisam estar conectados por redes extremamente rápidas.

Isso exige equipamentos ópticos capazes de transportar enormes volumes de dados entre servidores e racks.

Também são necessários transformadores, sistemas de distribuição elétrica, baterias, geradores, motores, ventiladores, bombas e equipamentos de refrigeração.

Muitos desses componentes dependem direta ou indiretamente de minerais críticos.

Portanto, um data center pode ter seus processadores disponíveis e ainda enfrentar atrasos porque um componente aparentemente simples não chegou.

Essa é uma das principais características das cadeias industriais complexas: o item mais barato pode impedir o funcionamento do equipamento mais caro.

Érbio é essencial para telecomunicações ópticas

Outro elemento estratégico é o érbio.

Ele possui papel importante em sistemas de comunicação por fibra óptica.

Amplificadores de fibra dopada com érbio são utilizados para reforçar sinais ópticos sem precisar convertê-los primeiro para sinais elétricos.

Essa tecnologia é fundamental em redes de telecomunicações e infraestrutura de transmissão de dados.

Em grandes clusters de inteligência artificial, a movimentação de dados entre servidores tornou-se um dos maiores desafios técnicos.

Quanto maior o modelo, maior a necessidade de interconectar aceleradores.

Isso aumenta a importância da infraestrutura óptica.

Consequentemente, um gargalo no fornecimento de materiais utilizados nesses sistemas pode acabar afetando indiretamente a expansão da capacidade computacional.

Outro mineral já preocupa fabricantes de componentes ópticos

O problema não está restrito às terras raras.

O fosfeto de índio, material utilizado em componentes ópticos de alta velocidade, também entrou no centro das preocupações.

A Reuters informou em junho que o controle chinês sobre exportações relacionadas ao material poderia ameaçar a expansão dos data centers de inteligência artificial.

Fabricantes como a Coherent já haviam alertado para restrições no fornecimento.

O fosfeto de índio é utilizado em lasers e outros componentes necessários para comunicações ópticas de alta velocidade.

Isso conecta diretamente a disputa por minerais críticos à corrida pela IA.

Quanto mais GPUs são colocadas dentro de um data center, maior também é a necessidade de movimentar dados rapidamente entre elas.

A rede passa a ser tão importante quanto o próprio processador.

IA transformou data centers em gigantescos sistemas industriais

Essa mudança ajuda a explicar por que minerais estratégicos ganharam importância.

Os data centers tradicionais eram grandes consumidores de servidores, armazenamento e equipamentos de rede.

Clusters modernos de IA ampliaram drasticamente essas necessidades.

Eles também aumentaram a densidade energética.

Um rack dedicado à inteligência artificial pode consumir várias vezes mais eletricidade do que um rack tradicional.

Isso aumenta a necessidade de transformadores, sistemas de distribuição, refrigeração líquida, bombas e outros equipamentos.

A infraestrutura física passa a representar uma parcela enorme do projeto.

Portanto, a corrida pela IA também se tornou uma corrida por cobre, terras raras, equipamentos elétricos, sistemas ópticos e capacidade industrial.

China ganhou uma poderosa ferramenta geopolítica

Os controles de exportação também possuem uma dimensão política.

Pequim percebeu que sua posição na cadeia de minerais críticos oferece uma importante vantagem em negociações internacionais.

As restrições implementadas desde 2025 provocaram problemas principalmente para fabricantes de automóveis, semicondutores, equipamentos militares e outras indústrias ocidentais.

Em alguns casos, fábricas chegaram a interromper operações devido à dificuldade para obter determinados ímãs.

Posteriormente, negociações com Estados Unidos e Europa aliviaram parte da situação.

Mas a estrutura de licenciamento permaneceu.

Isso significa que a China mantém capacidade significativa de controlar quem recebe determinados materiais e em quais condições.

Estados Unidos tentam reduzir dependência

Washington começou a responder com grandes investimentos.

O governo americano está apoiando projetos de mineração, processamento e fabricação de ímãs dentro dos Estados Unidos e em países aliados.

Empresas como a MP Materials passaram a ocupar posição estratégica nesse processo.

O objetivo é construir uma cadeia alternativa que consiga funcionar sem depender integralmente da China.

Mas isso não acontece rapidamente.

A China levou décadas para construir sua infraestrutura.

Criar minas é apenas a primeira etapa. Depois vêm separação, processamento, produção de ligas, fabricação de ímãs e integração industrial.

Cada etapa exige investimentos diferentes.

Lynas também amplia produção fora da China

A australiana Lynas Rare Earths tornou-se outro ator importante na tentativa de diversificação.

A empresa está ampliando sua cadeia global e buscando novos acordos de fornecimento, inclusive para ajudar na criação de uma cadeia de fabricação de ímãs nos Estados Unidos.

O movimento faz parte de um esforço muito maior envolvendo Estados Unidos, Austrália, Japão e países europeus.

A meta não é necessariamente eliminar completamente a participação chinesa.

Isso seria extremamente difícil no curto prazo.

A prioridade é reduzir a possibilidade de que um único país consiga interromper setores inteiros simplesmente restringindo exportações.

Brasil possui uma oportunidade estratégica

Nesse cenário, o Brasil aparece em uma posição particularmente interessante.

O país possui grandes reservas minerais e projetos capazes de fornecer algumas das terras raras mais estratégicas.

Um exemplo é a mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás, que possui argilas iônicas contendo terras raras pesadas.

A operação ganhou importância internacional justamente pela busca de fontes alternativas à China.

Mas existe um problema conhecido da economia brasileira.

Possuir a matéria-prima não significa dominar a cadeia.

O Brasil ainda possui capacidade limitada de refino e transformação desses minerais em componentes de maior valor agregado.

Em muitos casos, o concentrado precisa deixar o país para passar pelas etapas seguintes.

Brasil corre risco de repetir velho modelo econômico

Essa situação cria uma oportunidade e também um risco.

O país pode se tornar fornecedor estratégico de terras raras para Estados Unidos, Europa e outros mercados.

Mas também pode repetir um modelo histórico: exportar matéria-prima e importar produtos tecnológicos muito mais caros fabricados a partir dela.

O valor econômico maior está nas etapas seguintes.

Separação química, refino, produção de ligas, fabricação de ímãs e desenvolvimento de componentes tecnológicos geram conhecimento industrial, empregos especializados e margens superiores.

O crescimento da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais estratégica.

Se data centers se tornarem uma das principais infraestruturas econômicas das próximas décadas, participar da cadeia dos materiais necessários para construí-los pode representar uma oportunidade industrial importante.

Restrição chinesa pode aumentar custos dos data centers

No curto prazo, um dos principais riscos é financeiro.

Quando a oferta de um material crítico diminui, o preço tende a subir.

Fabricantes de componentes precisam absorver esse aumento ou repassá-lo aos clientes.

Em uma cadeia com diversas etapas, o impacto pode se acumular.

Uma alta no preço da matéria-prima aumenta o custo de um componente.

O componente mais caro aumenta o custo do equipamento.

E equipamentos mais caros elevam o investimento necessário para construir o data center.

Para empresas que estão planejando projetos de dezenas de bilhões de dólares, pequenas variações percentuais podem representar cifras enormes.

O maior risco talvez seja o atraso, não o preço

Existe, entretanto, um problema potencialmente maior.

Uma empresa pode aceitar pagar mais por determinado componente.

Mas não consegue comprar algo que simplesmente não está disponível.

Por isso, a principal preocupação em cadeias críticas costuma ser disponibilidade, e não apenas preço.

Um projeto de data center envolve cronogramas extremamente complexos.

Terreno, conexão elétrica, transformadores, refrigeração, servidores e redes precisam estar disponíveis aproximadamente no mesmo período.

Se apenas uma dessas partes atrasar seis meses, equipamentos extremamente caros podem ficar parados esperando o restante da infraestrutura.

Nesse cenário, um mineral utilizado em um componente relativamente pequeno pode atrasar um investimento bilionário.

Guerra tecnológica está migrando dos chips para os materiais

Nos últimos anos, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China esteve concentrada principalmente em semicondutores.

Washington restringiu o acesso chinês a chips avançados e equipamentos utilizados para produzi-los.

Pequim possui outra vantagem.

A China domina segmentos importantes da cadeia de minerais necessários para fabricar equipamentos tecnológicos.

Isso cria uma espécie de interdependência estratégica.

Os Estados Unidos possuem vantagens em tecnologias essenciais para semicondutores avançados.

A China possui enorme influência sobre matérias-primas e processos industriais necessários para diversos setores.

A disputa começa, portanto, a avançar dos nanômetros dos chips para as minas e refinarias.

Até US$ 6,5 trilhões mostram dimensão do problema

A estimativa da Agência Internacional de Energia sobre trilhões de dólares de produção industrial potencialmente exposta demonstra que a questão vai muito além de uma disputa comercial.

Terras raras aparecem em produtos aparentemente desconectados entre si.

Um veículo elétrico, uma turbina eólica, um caça militar e um servidor de inteligência artificial podem depender de partes diferentes da mesma cadeia mineral.

Essa concentração cria um ponto de vulnerabilidade sistêmica.

Durante décadas, empresas otimizaram cadeias globais principalmente para reduzir custos.

Agora, governos e corporações começam a aceitar custos maiores em troca de resiliência.

A corrida pela IA está virando corrida por infraestrutura

A explosão da inteligência artificial começou como uma corrida por modelos.

Depois virou uma corrida por GPUs.

Em seguida, empresas descobriram que precisavam garantir energia elétrica suficiente para alimentar esses chips.

Agora, outro gargalo começa a aparecer: os materiais necessários para construir toda a infraestrutura ao redor deles.

A China ocupa uma posição extremamente poderosa nessa cadeia.

Mesmo que as restrições atuais sejam parcialmente flexibilizadas, a dependência estrutural continuará existindo por anos.

Construir novas minas é demorado. Desenvolver capacidade de processamento é ainda mais difícil. Criar uma cadeia completa de componentes exige investimentos bilionários e conhecimento industrial.

Por isso, o avanço da IA começa a produzir uma consequência inesperada.

Quanto mais digital se torna a economia, maior parece ser sua dependência do mundo físico.

Data centers podem armazenar modelos capazes de produzir textos, vídeos e códigos em segundos, mas continuam dependendo de minas, refinarias, fábricas, redes elétricas e cadeias logísticas espalhadas pelo planeta.

A próxima limitação da inteligência artificial pode, portanto, não estar em um algoritmo.

Ela pode estar em um elemento químico que precisa atravessar milhares de quilômetros antes de chegar a um data center.

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