
Após três dias de debates, conversas com executivos e uma agenda dominada pela inteligência artificial, os números mostram o que já chegou à operação e o que ainda permanece no campo das promessas
Depois de três dias acompanhando a Febraban Tech, entre painéis e conversas com executivos do setor financeiro e de tecnologia, uma mudança ficou clara. Inteligência artificial continua dominando a agenda, mas a discussão amadureceu. A pergunta já não é se as empresas vão adotar IA. É quanto ela entrega, como ganha escala e quais riscos aparecem quando passa a participar da operação.
A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 ajuda a colocar essa mudança em perspectiva e revela uma distância importante entre adoção e resultado. Três sinais apareceram com força ao longo do evento.
1. Com R$ 50,4 bilhões na mesa, IA passa a responder por resultado
Os bancos projetam R$50,4 bilhões em investimentos em tecnologia em 2026, 58% acima do registrado cinco anos atrás. Cerca de R$3 bilhões serão destinados a IA, Analytics e Big Data. Com esse volume de recursos, a régua muda. Tecnologia precisa responder às mesmas perguntas de qualquer outro investimento: qual custo foi reduzido, que risco evitou e qual resultado entregou.
Os primeiros efeitos já aparecem. Para 92% das instituições, a IA trouxe mais velocidade às tarefas rotineiras. Outros 52% identificam redução no tempo de resposta ao cliente, queda de custos e mais eficiência na análise de dados, enquanto 48% relatam ganhos na detecção e prevenção de fraudes.
Há ainda uma parte menos visível dessa corrida. Os investimentos em cloud devem chegar a R$3,9 bilhões, com crescimento de 30% em um ano, enquanto IA, Analytics e Big Data avançam 8%. Não existe IA em escala sem infraestrutura, integração e dados preparados para sustentá-la.
2. Agentes avançam, mas escala ainda separa discurso de realidade
“Agentes Inteligentes, liderança humana”, tema da Febraban Tech 2026, antecipou um dos assuntos centrais desta edição. Agentes representam uma mudança importante porque a tecnologia deixa de apenas responder ou recomendar e passa a acessar informações e executar etapas de processos.Hoje, 52% das instituições já adotam agentes de IA, mas só 16% afirmam utilizá-los em grande escala com captura de valor. Outros 36% ainda operam em pequena escala e 16% mantêm iniciativas experimentais. Ter um agente e conseguir colocá-lo para funcionar de forma consistente ainda são coisas bem diferentes. Entre as aplicações, 76% citam automação de processos internos e 71% usam agentes tanto no atendimento por chatbots e voicebots quanto na geração de relatórios e documentos.
Esse foi também um dos pontos das conversas com Alexandre Siffert Colares, executivo da CERMOB, durante o evento. Com agentes e sistemas assumindo novas funções, segurança, identidade digital, governança e rastreabilidade passam a fazer parte da própria arquitetura da operação. Se a tecnologia funcionar, é preciso saber o que fez, com quais dados, dentro de quais limites e sob qual responsabilidade. Não por acaso, 100% das instituições atribuem prioridade média ou alta à cibersegurança.
Uma resposta errada de uma IA pode gerar uma experiência ruim. Uma execução errada pode envolver dinheiro, dados, risco regulatório e reputação. É aí que a “liderança humana” do tema desta edição ganha sentido.
3. O banco já está no celular. A eficiência precisa chegar ao cliente
Das 240,8 bilhões de transações bancárias realizadas em 2025, 83% aconteceram nos canais digitais e 78% passaram pelo celular. O mobile banking concentrou 187,5 bilhões de operações e cresceu 169% em cinco anos. Para milhões de brasileiros, o celular já é o banco. O Pix reforça a dimensão dessa transformação: foram quase 80 bilhões de transações e mais de R$35 trilhões movimentados em 2025.
Nas conversas com Letícia Alcântara, especialista em crédito e varejo, uma questão apareceu com força: eficiência operacional não significa, necessariamente, uma jornada melhor para o cliente. Basta lembrar quantas vezes uma demanda simples vira uma sequência de respostas automáticas até que se consiga chegar a uma pessoa.
É justamente aí que surge a próxima régua para a IA. Mais do que medir velocidade dentro das instituições, será preciso entender quanto dessa eficiência chega a quem está do outro lado da tela.
Depois de três dias de Febraban Tech, fica menor a sensação de uma nova corrida pela IA e maior a percepção de que a cobrança mudou. O sistema financeiro brasileiro já provou que sabe digitalizar em escala. Agora, precisa mostrar que consegue transformar inteligência artificial em resultado sem perder de vista segurança, governança e experiência do cliente.
A próxima medida de maturidade é o resultado.



