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Startup brasileira de IA jurídica vira unicórnio e alcança avaliação de US$ 1,2 bilhão

Criada em 2023, a Enter desenvolve agentes de inteligência artificial para automatizar etapas de processos judiciais. A empresa já participa do tratamento de mais de 300 mil ações por ano e atende grandes companhias.

Uma startup brasileira criada há menos de três anos conseguiu entrar para o restrito grupo de empresas de tecnologia avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. A Enter, especializada em inteligência artificial aplicada ao setor jurídico, alcançou um valuation de US$ 1,2 bilhão, consolidando-se como o primeiro unicórnio de IA da América Latina.

O marco ocorreu após uma rodada Série B na qual a companhia levantou mais de US$ 100 milhões. A captação foi liderada pelo Founders Fund e contou com participação de Ribbit Capital, Sequoia Capital, ONEVC, Atlantico e Kaszek.

Mais do que o valor alcançado, o caso chama atenção para um mercado particularmente adequado à automação: o gigantesco volume de processos judiciais existente no Brasil.

IA trabalha antes da análise dos advogados

A proposta da Enter é utilizar agentes de inteligência artificial para automatizar diferentes tarefas que fazem parte da rotina dos departamentos jurídicos de grandes empresas.

A tecnologia consegue atuar em etapas que vão desde a organização e análise de informações até atividades relacionadas à elaboração de documentos e avaliação de acordos.

O sistema também pode processar diferentes tipos de materiais associados aos casos, incluindo documentos, contratos e outras evidências.

Isso não significa, porém, retirar completamente o advogado do processo.

A plataforma trabalha com revisão e auditoria humana, enquanto as estratégias jurídicas permanecem sob responsabilidade dos profissionais habilitados.

Mais de 300 mil processos passam pela tecnologia anualmente

A escala alcançada pela empresa ajuda a explicar o interesse dos investidores.

Atualmente, mais de 300 mil processos judiciais por ano recebem apoio da tecnologia da Enter.

A plataforma já está presente nos departamentos jurídicos de empresas como Bradesco, Nubank, Mercado Livre, Airbnb, LATAM Airlines e Azul, além de dezenas de outras grandes organizações.

São justamente companhias desse porte que podem obter ganhos significativos com automação.

Empresas que atendem milhões de consumidores podem acumular grandes volumes de ações simultaneamente. Analisar individualmente documentos, prazos e informações de milhares de casos representa um custo operacional considerável.

Receita cresceu mais de dez vezes

A expansão da Enter ocorreu rapidamente.

Desde a rodada Série A, realizada anteriormente, a empresa afirma ter aumentado sua receita em mais de dez vezes, enquanto sua base de clientes triplicou.

A valorização acompanhou esse crescimento.

Na Série A, realizada em 2025, a companhia havia captado US$ 35 milhões, chegando a uma avaliação superior a US$ 350 milhões. Agora, com a Série B, o valuation avançou para US$ 1,2 bilhão.

Em pouco mais de um ano, portanto, a avaliação da empresa mais que triplicou.

Brasil virou laboratório para IA jurídica

Existe uma característica do mercado brasileiro que ajuda a explicar a estratégia.

O país possui um enorme volume de processos judiciais, especialmente em áreas relacionadas a consumidores e relações trabalhistas.

Para uma empresa de inteligência artificial, isso representa uma quantidade extraordinária de tarefas repetitivas e estruturadas que podem ser auxiliadas por automação.

Analisar documentos, localizar informações, comparar jurisprudência, organizar evidências e preparar minutas são exemplos de atividades nas quais sistemas de IA podem reduzir significativamente o trabalho operacional.

O advogado pode então concentrar maior parte de seu tempo na estratégia e nas decisões mais complexas.

Agentes de IA começam a sair dos chatbots

A Enter também representa uma mudança importante na atual geração de inteligência artificial.

A primeira onda da IA generativa popularizou ferramentas capazes de responder perguntas, produzir textos e conversar com usuários.

A próxima etapa está concentrada nos chamados agentes de IA.

Em vez de apenas responder a um comando, esses sistemas podem executar sequências de tarefas dentro de um fluxo de trabalho.

No setor jurídico, isso significa que um agente pode receber informações relacionadas a um processo, analisar documentos, identificar dados relevantes e preparar uma tarefa para revisão humana.

Essa diferença transforma a IA de uma ferramenta de consulta em parte da infraestrutura operacional de uma empresa.

Jurídico virou um dos mercados mais disputados da IA

A Enter não está sozinha nessa corrida.

O mercado internacional de inteligência artificial jurídica vem atraindo grandes volumes de capital.

Empresas como Harvey e Legora também alcançaram avaliações bilionárias enquanto desenvolvem ferramentas destinadas a escritórios de advocacia e departamentos jurídicos.

Existe uma razão econômica para isso.

Serviços jurídicos movimentam enormes volumes financeiros e dependem intensamente de documentos, pesquisa, análise e produção de textos — exatamente algumas das áreas em que os grandes modelos de linguagem apresentam maior capacidade de automação.

IA pode atacar também a litigância abusiva

Outro campo interessante está na identificação de padrões suspeitos.

Ao analisar grandes volumes de ações simultaneamente, sistemas automatizados podem encontrar comportamentos que dificilmente seriam percebidos observando processos isoladamente.

Isso pode incluir documentos semelhantes apresentados repetidamente, informações inconsistentes ou outros indícios que mereçam investigação adicional.

Para empresas que enfrentam milhares de processos, essa capacidade transforma cada caso em uma fonte adicional de dados para compreender padrões existentes em toda a carteira jurídica.

Brasil pode exportar tecnologia jurídica

O caso também chama atenção por inverter uma dinâmica bastante comum no mercado de tecnologia.

Historicamente, muitas das principais plataformas utilizadas pelas empresas brasileiras foram desenvolvidas nos Estados Unidos ou na Europa e posteriormente adaptadas ao mercado nacional.

A Enter pretende seguir o caminho contrário: desenvolver tecnologia no Brasil e construir uma empresa com alcance internacional.

A complexidade do ambiente jurídico brasileiro pode inclusive funcionar como vantagem.

Se uma plataforma consegue automatizar processos em um mercado com grande volume de ações e diferentes particularidades regulatórias, parte dessa experiência pode ser aplicada posteriormente em outros países.

O advogado não desaparece, mas seu trabalho pode mudar

O avanço dessas ferramentas inevitavelmente levanta dúvidas sobre o futuro das profissões jurídicas.

Mas a transformação mais provável no curto prazo não é simplesmente substituir advogados por algoritmos.

O impacto tende a aparecer primeiro sobre tarefas repetitivas e de grande volume.

Profissionais continuarão necessários para decisões estratégicas, interpretação jurídica, negociação e responsabilidade sobre os casos.

O que muda é a quantidade de trabalho operacional necessário antes dessas decisões.

É semelhante ao que aconteceu em outras áreas quando planilhas, bancos de dados e sistemas corporativos automatizaram atividades que anteriormente exigiam equipes inteiras.

Um unicórnio brasileiro em um mercado global

Alcançar US$ 1,2 bilhão de valuation coloca a Enter em uma posição incomum no ecossistema brasileiro de tecnologia.

Mas o número mais importante para acompanhar daqui para frente talvez não seja sua avaliação.

Será a capacidade de demonstrar que agentes de inteligência artificial conseguem operar de maneira confiável dentro de atividades profissionais complexas e altamente reguladas.

Se essa tecnologia conseguir reduzir custos sem comprometer qualidade, segurança e supervisão humana, o impacto poderá ultrapassar o próprio setor jurídico.

O crescimento da Enter mostra que a próxima grande oportunidade da inteligência artificial pode estar menos nos chatbots utilizados ocasionalmente e mais nos agentes especializados que trabalham silenciosamente dentro dos processos das empresas.

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