
Um dos maiores incidentes envolvendo carteiras físicas de criptomoedas em 2026 revelou que manter as chaves de Bitcoin fora da internet não elimina todos os riscos. Uma falha no firmware das carteiras Coldcard, fabricadas pela Coinkite, tornou previsíveis informações que deveriam ser praticamente impossíveis de adivinhar.
O problema afetava justamente a geração das chamadas seeds, usadas como base para criar as chaves que controlam os bitcoins armazenados pelo usuário.
Com a redução da aleatoriedade, criminosos conseguiram calcular possíveis chaves em seus próprios computadores, localizar carteiras correspondentes na blockchain e movimentar os fundos — sem precisar invadir fisicamente o dispositivo das vítimas.
Estimativas produzidas durante a investigação apontaram perdas que poderiam chegar a aproximadamente 2 mil BTC, equivalentes a US$ 130 milhões.
O problema estava na criação da carteira
Uma carteira de Bitcoin depende de números aleatórios extremamente difíceis de prever.
Quando uma nova carteira é criada, esses números ajudam a produzir sua seed phrase. A partir dela são derivadas as chaves privadas que permitem movimentar os bitcoins.
A segurança depende diretamente da chamada entropia.
Quanto maior a entropia, maior o universo de combinações que um atacante teria que testar para descobrir uma chave.
No caso das Coldcard afetadas, um problema introduzido no firmware fez com que determinadas operações utilizassem um gerador pseudoaleatório de software em vez da fonte de aleatoriedade de hardware prevista no projeto.
Segurança caiu para cerca de 40 bits em modelos antigos
A consequência foi significativa.
Em determinados modelos mais antigos, a quantidade efetiva de entropia teria caído para aproximadamente 40 bits.
Embora isso ainda represente um número enorme de possibilidades para uma pessoa testar manualmente, é uma escala completamente diferente daquela esperada de uma chave criptográfica moderna.
Com capacidade computacional suficiente, tornou-se possível pesquisar sistematicamente esse universo de combinações.
O problema teria permanecido no firmware durante aproximadamente cinco anos antes de ser explorado em grande escala.
Hackers não precisavam conectar-se à Coldcard
Esse é o aspecto mais preocupante do incidente.
As Coldcard são hardware wallets, dispositivos criados justamente para manter as chaves privadas isoladas de computadores e serviços conectados à internet.
Uma carteira pode permanecer air-gapped, sem qualquer conexão direta à rede.
Mesmo assim, isso não protegeria uma carteira cuja chave tivesse sido criada originalmente com aleatoriedade insuficiente.
Os criminosos não precisavam infectar o computador da vítima, roubar sua carteira física ou descobrir sua frase de recuperação.
Eles poderiam gerar possíveis seeds em seus próprios equipamentos e calcular os respectivos endereços Bitcoin.
Como os endereços e saldos são públicos na blockchain, seria possível procurar correspondências.
Ao encontrar uma carteira vulnerável com bitcoins, o atacante teria condições de reconstruir as chaves necessárias para movimentar os fundos.
Ataques ocorreram em diferentes ondas
As movimentações chamaram atenção pelo volume e pelo padrão automatizado.
Uma das primeiras grandes ondas identificadas retirou aproximadamente 1.083 BTC de 1.196 endereços em cerca de 41 minutos.
Posteriormente, pesquisadores identificaram outras movimentações.
Uma análise chegou a contabilizar 1.596 BTC retirados de aproximadamente 7.300 endereços em três ondas confirmadas, além de uma quarta onda ainda sob investigação naquele momento.
Caso todos os eventos estivessem relacionados ao mesmo problema, as perdas poderiam chegar a aproximadamente 2 mil bitcoins — cerca de US$ 130 milhões na avaliação realizada naquele período.
Mais de um grupo pode ter explorado a vulnerabilidade
Outro detalhe chama atenção.
As características das transações observadas não eram necessariamente idênticas em todas as ondas.
Isso levantou a possibilidade de que mais de um atacante ou grupo tenha descoberto como explorar as carteiras vulneráveis.
Nesse cenário, depois que o problema começou a ser conhecido, diferentes grupos poderiam ter iniciado uma corrida para encontrar e esvaziar carteiras antes que os proprietários conseguissem transferir os fundos.
Atualizar o firmware não corrige uma seed antiga
Existe uma diferença fundamental entre corrigir o software e corrigir uma carteira já criada.
A Coinkite disponibilizou atualizações emergenciais para os equipamentos afetados.
Isso impede que novas carteiras sejam criadas utilizando o mecanismo vulnerável.
Mas uma seed gerada anteriormente com baixa entropia não se torna mais segura simplesmente porque o firmware foi atualizado.
A vulnerabilidade já está incorporada à própria chave.
Por isso, para uma carteira potencialmente afetada, a correção efetiva envolve gerar uma nova seed de maneira segura e transferir os bitcoins para novos endereços.
Cold wallet não significa segurança absoluta
O episódio desmonta uma interpretação comum sobre armazenamento offline de criptomoedas.
Uma hardware wallet reduz significativamente a superfície de ataque porque mantém as chaves privadas longe de dispositivos constantemente conectados à internet.
Mas isso protege principalmente contra determinadas classes de ataque.
Se existe uma falha na própria geração da chave, o isolamento posterior não resolve o problema.
É como instalar uma fechadura extremamente resistente em uma porta, mas fabricar milhares delas utilizando combinações previsíveis.
O atacante não precisa arrombar a porta se conseguir descobrir a combinação.
Bitcoin não foi comprometido
Também é importante separar a vulnerabilidade das Coldcard da segurança da rede Bitcoin.
O incidente não representa uma quebra da criptografia do Bitcoin.
A blockchain não foi invadida e os algoritmos criptográficos fundamentais da moeda não foram quebrados.
O problema ocorreu na implementação de um produto utilizado para gerar e armazenar as credenciais que permitem movimentar bitcoins.
Essa diferença é importante porque vulnerabilidades em carteiras, exchanges e aplicativos frequentemente são apresentadas como ataques ao próprio Bitcoin quando, tecnicamente, são problemas nas ferramentas construídas ao redor da rede.
Hardware wallets viram computadores de altíssima responsabilidade
O caso Coldcard também mostra por que dispositivos aparentemente simples precisam ser tratados como sistemas críticos.
Uma carteira física possui firmware, bibliotecas criptográficas, processadores e diferentes componentes de software.
Uma pequena alteração no código pode modificar completamente as propriedades de segurança do produto.
Nesse incidente, o equipamento continuava funcionando normalmente.
A carteira era criada.
Os endereços funcionavam.
As transações eram assinadas.
Nada necessariamente indicava ao proprietário que havia um problema.
A falha estava em uma propriedade invisível: o número que deveria ser imprevisível não era imprevisível o suficiente.
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Poucas áreas da tecnologia demonstram de maneira tão brutal o impacto de um erro de software quanto as criptomoedas.
Em um banco tradicional, uma transação fraudulenta pode eventualmente ser bloqueada, investigada ou revertida.
No Bitcoin, depois que alguém obtém a chave privada e realiza uma transação válida, não existe uma autoridade central capaz de simplesmente cancelar a movimentação.
Por isso, a segurança precisa funcionar antes do ataque.
O episódio envolvendo as Coldcard demonstra que uma carteira offline pode estar perfeitamente isolada da internet e, ainda assim, ser vulnerável se a chave que protege seus fundos tiver sido criada de maneira previsível.
O problema não estava na conexão com a rede.
Estava nos números usados no nascimento da própria carteira.



