
A geração que mais convive com ferramentas de inteligência artificial também demonstra crescente preocupação com quem está conduzindo essa transformação. Uma pesquisa da CNBC em parceria com a Generation Lab, realizada com 1.088 americanos entre 18 e 34 anos, revelou elevados índices de desconfiança em relação a alguns dos principais executivos ligados à corrida global da IA.
O resultado mais negativo foi registrado por Alex Karp, CEO da Palantir: 81% dos entrevistados disseram não confiar nele no contexto da inteligência artificial. Peter Thiel, cofundador e chairman da companhia, aparece logo depois, com 79% de desconfiança.
Mas o levantamento revela algo maior do que uma avaliação individual de executivos: entre os jovens americanos pesquisados, existe preocupação significativa com empregos, data centers, regulação e com a própria direção assumida pela indústria de IA.
Satya Nadella tem o melhor desempenho — mas maioria ainda desconfia
Entre os nomes avaliados, Satya Nadella, CEO da Microsoft, apresentou o melhor resultado relativo.
Ainda assim, 65% disseram desconfiar de Nadella, enquanto 35% manifestaram confiança. Portanto, embora ele apareça em posição melhor que os demais executivos, a maioria dos entrevistados continua no campo da desconfiança.
Esse detalhe é importante porque a imagem compartilhada descreve Nadella como o único executivo com “net trust”. Os dados disponíveis sobre a pesquisa apontam 35% de confiança contra 65% de desconfiança; assim, essa caracterização não deve ser interpretada como saldo positivo de confiança.
Alex Karp lidera índice de desconfiança
Os resultados mostram que o problema não está concentrado em uma única empresa.
Além dos 81% registrados por Alex Karp, a pesquisa apontou 79% de desconfiança em Peter Thiel, 76% em Dario Amodei, CEO da Anthropic, e 74% em Sundar Pichai, CEO da Alphabet.
Executivos muito conhecidos do setor também enfrentam resistência.
Sam Altman, Mark Zuckerberg, Jensen Huang e Elon Musk aparecem com índices próximos de 70% de desconfiança entre os participantes.
O resultado sugere que o debate sobre IA deixou de envolver apenas capacidades técnicas dos modelos e passou a incluir uma questão de legitimidade: os usuários confiam nas pessoas e empresas que estão tomando decisões sobre o futuro dessa tecnologia?
45% acreditam que IA prejudicará suas carreiras
A preocupação fica ainda mais evidente quando o assunto é trabalho.
Segundo o levantamento, 45% dos jovens entrevistados acreditam que a inteligência artificial terá impacto negativo sobre suas carreiras.
Apenas 10% esperam que a tecnologia produza impacto positivo profissionalmente.
Essa percepção não aparece isoladamente.
Uma pesquisa anterior do Harvard Institute of Politics encontrou tendência semelhante: 44% dos jovens americanos esperavam que a IA reduzisse oportunidades, enquanto apenas 14% acreditavam que ela criaria mais oportunidades.
Os dois levantamentos utilizam metodologias diferentes, portanto os números não devem ser comparados diretamente. Ainda assim, apontam para uma preocupação recorrente entre os jovens sobre o impacto da automação no mercado de trabalho.
Data centers também enfrentam resistência
A expansão física da inteligência artificial também entrou no radar dos entrevistados.
A pesquisa CNBC/Generation Lab apontou que 60% defendem desacelerar a construção de novos data centers, enquanto apenas 15% querem acelerar esse processo.
A discussão ganhou força à medida que empresas passaram a investir bilhões de dólares em infraestrutura necessária para treinar e executar grandes modelos.
Data centers de IA exigem enormes quantidades de equipamentos computacionais e podem aumentar significativamente a demanda por eletricidade, além de levantar discussões sobre consumo de água e impactos sobre comunidades locais.
Jovens querem algum tipo de regulação
A desconfiança também aparece na discussão sobre quem deve estabelecer as regras para a inteligência artificial.
Segundo o levantamento, 40% preferem que o governo federal americano seja responsável pela supervisão da IA, enquanto outros 36% defendem a criação de uma entidade independente.
Apenas 8% se posicionaram contra a regulação.
Somadas, as respostas mostram amplo apoio a algum mecanismo de supervisão, embora exista divergência sobre quem deveria exercer essa função.
Usar IA não significa confiar nela
Um dos aspectos mais interessantes do cenário atual é justamente essa aparente contradição.
Jovens estão entre os usuários mais frequentes de inteligência artificial, mas isso não necessariamente se transforma em confiança.
Uma pesquisa da Yale divulgada em 2026 mostrou que adultos entre 18 e 34 anos são o grupo etário com maior contato com IA: somente 19% disseram nunca ter interagido com alguma forma da tecnologia.
Ao mesmo tempo, diferentes levantamentos vêm registrando preocupações com emprego, privacidade, confiabilidade e controle da tecnologia.
Isso sugere que adoção e confiança precisam ser analisadas separadamente.
Uma pessoa pode utilizar ChatGPT, Gemini, Claude ou outras ferramentas diariamente e, simultaneamente, questionar os interesses econômicos e as decisões das empresas responsáveis por elas.
Desconfiança não começou com a IA generativa
A relação problemática entre consumidores e empresas de tecnologia antecede o atual boom da inteligência artificial.
Uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que 70% dos americanos familiarizados com IA tinham pouca ou nenhuma confiança de que empresas tomariam decisões responsáveis sobre a utilização da tecnologia em seus produtos.
No mesmo levantamento, 81% acreditavam que empresas poderiam utilizar informações pessoais de maneiras com as quais os usuários não se sentiriam confortáveis.
A IA generativa adicionou novas preocupações a uma relação que já envolvia privacidade, redes sociais, algoritmos e concentração de poder tecnológico.
O desafio das empresas pode deixar de ser apenas tecnológico
Durante os últimos anos, grande parte da competição em inteligência artificial foi medida por benchmarks, quantidade de parâmetros, capacidade de raciocínio, geração multimodal e velocidade.
Mas pesquisas como a da CNBC indicam outro desafio.
Empresas podem desenvolver modelos cada vez mais poderosos e, ainda assim, enfrentar resistência se usuários não confiarem em quem controla esses sistemas.
Isso pode influenciar regulação, adoção empresarial, contratação de profissionais e até a aceitação da construção de infraestrutura física.
Em outras palavras, confiança pode se transformar em uma vantagem competitiva tão relevante quanto desempenho técnico.
O que o levantamento sinaliza para o setor
A pesquisa retrata especificamente jovens americanos e não deve ser extrapolada automaticamente para outros países ou faixas etárias.
No Brasil, por exemplo, seria necessário um levantamento equivalente para afirmar que a percepção sobre esses executivos é semelhante.
Mesmo assim, o resultado americano é relevante porque boa parte das empresas que lideram a corrida global da inteligência artificial está sediada nos Estados Unidos.
Há ainda um sinal particularmente importante: o debate público começa a diferenciar a tecnologia das organizações e pessoas responsáveis por controlá-la.
A próxima fase da corrida pela IA pode, portanto, exigir algo que não se resolve apenas com GPUs e



