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O crime que mais assusta o brasileiro é também o que quase nunca dá cadeia

Existe um número neste texto que deveria mudar a forma como você pensa sobre golpes. Não é o número que vai te assustar. É o que vem depois dele.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, divulgado em julho, trouxe um retrato que é impossível ignorar. O Brasil registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025. Dois milhões e duzentos mil golpes em um único ano, o que dá uma média de mais de quatro por minuto, dia e noite, sem parar. Os registros cresceram 429,8% entre 2018 e 2025, consolidando os golpes como o principal crime contra o patrimônio do país.

Esse é o número que assusta. Mas guarde ele por um instante, porque o mais revelador vem agora.

O número que muda tudo

Dos 2,26 milhões de casos registrados, apenas 63,7 mil resultaram em processos penais, que levaram à prisão de 4,8 mil estelionatários. Isso significa que mais de 97% dos casos comunicados às polícias brasileiras não chegam ao Poder Judiciário.

Pare para absorver essa conta. De cada cem golpes registrados, menos de três viram processo. E o número de pessoas efetivamente presas, 4.819, é minúsculo diante da montanha de dois milhões de crimes.

Não é à toa que o próprio Anuário usou a expressão “o crime que compensa” para descrever o fenômeno. E ela não é exagero retórico. É a descrição fria de um cálculo que o criminoso faz muito bem: alto retorno, baixíssimo risco de punição. Enquanto assaltar alguém na rua expõe o bandido a reação, câmera, prisão em flagrante, aplicar um golpe pelo celular é quase invisível, sem fronteira, sem testemunha e, na prática, sem consequência.

É por isso que eu insisto tanto, no meu trabalho de conscientização, numa ideia que incomoda: você não pode contar com a punição do criminoso depois. Você só pode contar com a sua defesa antes.

Por que isso migrou para o digital

O crescimento não aconteceu por acaso, e entender a causa ajuda a entender o risco. O Anuário aponta que a explosão do estelionato está diretamente ligada à digitalização dos serviços financeiros, ao uso disseminado do Pix e à atuação de organizações criminosas cada vez mais estruturadas.

Repare que nada disso é ruim por si só. O Pix é uma maravilha de conveniência. O banco no celular economiza filas. O problema é que cada porta de conveniência que se abre para você abre também uma janela de oportunidade para o criminoso. E existe um agravante físico nessa história: o aumento dos golpes está ligado também ao roubo e furto de celulares, porque o aparelho concentra aplicativos bancários, redes sociais e dados pessoais, o que facilita a aplicação de fraudes após o acesso ao dispositivo.

Ou seja, o seu celular deixou de ser um telefone. Virou a chave do seu cofre, da sua identidade e da sua vida financeira, tudo no mesmo objeto que cabe no bolso e pode ser esquecido num balcão.

Não é com os outros. É com a gente

Existe uma reação natural ao ler estatística: achar que aquilo acontece com outras pessoas, mais distraídas, mais velhas, menos espertas. Os dados desmontam esse conforto.

Segundo o Anuário de 2026, 83,2% da população afirma temer ser vítima de uma fraude pela internet ou pelo celular. Oito em cada dez brasileiros já vivem com esse medo, o que mostra que a ameaça deixou de ser abstrata. E o medo tem fundamento real: uma pesquisa do próprio Fórum, de março de 2026, mostrou que 15,8% da população com 16 anos ou mais foi vítima de um golpe ou perdeu dinheiro dessa forma.

Quase uma em cada seis pessoas. Pense no seu círculo. Na sua família, no seu grupo de amigos, no seu local de trabalho. A estatística diz que o golpe já bateu na porta de alguém muito próximo de você, se é que não bateu na sua.

Onde o perigo se concentra

Se prevenir é a única defesa que funciona de verdade, ajuda saber onde mirar a atenção. Um levantamento do Observatório Febraban mapeou os golpes mais comuns sofridos pelos brasileiros, e a lista é um mapa do que evitar: clonagem ou troca de cartão aparece em primeiro, com 45%, seguido pelo golpe do WhatsApp, com 34%, a falsa central bancária, com 31%, o golpe do Pix, com 24%, o uso indevido de CPF via SMS, com 13%, e o leilão ou loja falsa, com 10%.

Olhe essa lista com calma, porque ela conta uma história. Quase todos esses golpes têm algo em comum: não dependem de o criminoso quebrar uma tecnologia. Dependem de ele te convencer de alguma coisa. Um falso funcionário do banco, uma falsa mensagem de um conhecido, uma falsa loja com preço tentador. A porta de entrada quase nunca é técnica. É humana.

E isso, por mais contraintuitivo que pareça, é uma boa notícia. Porque se o golpe entra pela confiança e pela pressa, a defesa também mora aí, ao seu alcance, sem depender de nenhum aplicativo mágico.

O que fazer com um problema desse tamanho

Diante de dois milhões de golpes e quase nenhuma punição, a pergunta natural é: e o que eu, sozinho, posso fazer? Mais do que você imagina. Como a defesa depende de você, ela também está sob o seu controle, e cabe em poucos hábitos:

• Trate toda urgência como suspeita. A pressa é a assinatura do golpe. Banco, loja e órgão público não resolvem nada em dez minutos com você por mensagem. Quando algo te empurra a agir agora, esse é o momento de desacelerar.

• Nunca confirme dado por quem ligou para você. Se recebeu uma ligação da “central do banco”, desligue e ligue você mesmo para o número oficial do cartão. O golpe da falsa central, que está em terceiro na lista, morre com esse único hábito.

• Confira sempre o destinatário do Pix. Antes de confirmar, olhe o nome de quem vai receber. Dez segundos que separam a conveniência do prejuízo.

• Ative a verificação em duas etapas em tudo. No WhatsApp, no banco, no e-mail. É a tranca que protege sua conta mesmo se a senha vazar, e ataca diretamente o golpe do WhatsApp, segundo mais comum da lista.

• Proteja o aparelho como quem protege um cofre. Bloqueio de tela forte, e um plano de cabeça para bloquear tudo rápido caso o celular seja perdido ou roubado. Porque, hoje, perder o celular é perder a chave de tudo.

O verdadeiro recado dos números

Um estudo com dois milhões de casos pode passar a sensação de que o problema é grande demais para o indivíduo resolver. Mas a leitura certa é o oposto.

Justamente porque a punição depois do golpe é rara, e os dados provam que é, o poder real está deslocado para antes. A justiça pode falhar em prender o criminoso, e falha em 97% das vezes, mas ela não decide se você vai clicar naquele link, atender aquela falsa central ou abrir aquele arquivo. Essa decisão é sua, e é a mais poderosa de toda a corrente.

O número que deveria mudar o seu comportamento não é 2,2 milhões. É 4.819. Porque enquanto tão poucos são responsabilizados, esperar que o sistema te proteja depois é apostar contra a estatística. A defesa que funciona é a que você constrói antes de precisar dela.

Então fica a pergunta, olhando para esses números: se você sabe que a conta quase nunca chega para o golpista, quanto vale reforçar hoje a única linha de defesa que está, de fato, nas suas mãos?

Luciano Takeda

Especialista em Segurança da Informação com foco em conscientização e comportamento humano. Atuo traduzindo riscos cibernéticos em decisões simples do dia a dia, ajudando empresas a construírem uma cultura de segurança que realmente funciona

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