
O varejo alimentar brasileiro vive um cenário de crescimento ilusório neste primeiro semestre de 2026. Os dados consolidados do acumulado de janeiro a maio, bem como o recorte isolado do mês de maio, revelam um desempenho idêntico: um crescimento de 1,60% no faturamento. No entanto, quando descemos uma camada na análise, fica evidente que esse avanço não é saudável. O setor está vendendo menos produtos e atraindo menos clientes, sustentando-se puramente pelo repasse de preços.
Tanto no acumulado do ano quanto em maio, o fluxo de consumidores nas lojas recuou 2,20%. Acompanhando essa menor frequência, o volume de unidades vendidas despencou 1,90% no ano e amargou uma queda ainda mais severa em maio, registrando -2,80%. O que salva o indicador de vendas é o aumento no valor médio dos produtos, que subiu 3,50% no acumulado e acelerou para +4,50% em maio. Em suma: o consumidor está visitando menos os supermercados e saindo com carrinhos mais vazios, mas pagando mais caro pelo que consegue levar.
Diante desse cenário desafiador, as ações de dia das mães tornaram-se o principal oxigênio para os supermercadistas. A sazonalidade performou consideravelmente melhor em 2026 na comparação com o ano anterior, registrando uma alta de 4,6% no faturamento. Esse movimento foi impulsionado por picos de demanda em categorias bem específicas, como Kit Capilar (+16,5%), Bovino In Natura (+15,4%) e Refrigerantes (+5,4%). Ainda assim, a força do faturamento não evitou que a cesta sazonal retraísse 1,9% em unidades, puxada pela rejeição a itens como Cerveja (-12,7%), Suco (-4,7%) e Acessórios de Cozinha (-3,3%).
No detalhe das categorias em maio, os produtos Perecíveis assumiram o protagonismo e garantiram fôlego às vendas do varejista. Houve um crescimento expressivo em subcategorias essenciais e de alto valor agregado, com destaque para Legumes (+20,3%), Bovino In Natura (+12,9%), Iogurte (+9,9%) e Queijo (+7,9%). Esses números mostram que, apesar da contenção de gastos, a alimentação fresca e de consumo imediato ainda consegue prioridade no orçamento das famílias.
Outro ponto de sustentação veio da Mercearia Doce e das Bebidas de alta performance. O segmento de Chocolates cresceu 5,6% em valor, um avanço impulsionado estritamente pela alta dos preços. No corredor de bebidas, o grande fenômeno do mês continuou sendo o segmento de Energéticos, com uma expansão impressionante de 27,5%, consolidando-se como uma fortaleza imune à crise de volume que afeta o restante do setor.
Por outro lado, a Mercearia Básica consolidou-se como a maior detratora do varejo alimentar no período. A cesta registrou uma queda intensa de 8,6% no faturamento, explicada pela forte deflação no preço por quilo de commodities agrícolas em comparação a maio de 2025. Quedas expressivas nos preços do Açúcar (-20,1%), Arroz (-16,1%) e Café (-14,1%) arrastaram a receita da categoria para baixo, um movimento agravado pelo fato de que esses mesmos produtos também perderam volume em unidades vendidas.
Para piorar o panorama dos volumes, o clima também jogou contra o varejo em maio. Com uma temperatura média 4,6% mais fria do que no mesmo período do ano passado, o setor de Bebidas viu seu desempenho ser severamente afetado. Embora tenha mantido uma estabilidade tímida no faturamento (+0,9%), a categoria sofreu um forte tombo de 6,1% em unidades vendidas, prejudicada diretamente pelo desinteresse do consumidor por bebidas frias, como cervejas e sucos, diante dos termômetros mais baixos.
Quando analisamos o comportamento por perfil de loja, o fenômeno do “crescimento via preço” fica ainda mais nítido, evidenciando uma inversão histórica de forças. No acumulado do ano, todos os formatos tradicionais de varejo expandiram o faturamento, enquanto o Atacarejo registrou retração de 0,4%. Como todos os formatos acumulam quedas em volume que variam de -1,0% a -3,1%, o Atacarejo acabou penalizado justamente por ter feito o menor repasse de preço do mercado (+2,6%), perdendo a capacidade de mascarar a perda de volume que os supermercados conseguiram esconder.
Essa dinâmica de canais intensificou-se drasticamente em maio. O formato Super 1 a 4 checkouts entregou a queda de consumo mais profunda do mês, com -4,9% em unidades; contudo, ao aplicar um agressivo repasse de preço de 6,2%, conseguiu fechar o mês com alta de 1,0% em valor. Enquanto isso, o Atacarejo operou na linha da estabilidade (+0,1%), mantendo um repasse modesto de 3,5% (contra a média de 4,7% a 6,2% dos supermercados), pagando o preço de sua estratégia comercial com uma retração severa de 3,4% nas suas unidades vendidas. O diagnóstico para o restante do ano é claro: sobreviverá quem souber equilibrar a elasticidade de preço sem aniquilar o tráfego de loja.



