
Um lote de motores industriais da Votorantim Cimentos, com expectativa de venda de R$25 mil, alcançou R$205 mil após uma disputa entre compradores. Em outra operação, o Grupo Inttra reduziu em 31% o valor médio das passagens e economizou cerca de R$1 milhão no primeiro mês após mudar a gestão das viagens. Os dois casos, apresentados no 23º Fórum de Compras & Sourcing, apontam para a mesma questão: parte dos ganhos financeiros de Procurement está fora da negociação tradicional por desconto.
Promovido pela Live University | Inbrasc nos dias 6 e 7 de outubro, no Transamérica Expo Center, em São Paulo, o encontro reuniu mais de 8 mil participantes, 200 palestrantes e 100 estandes, segundo a organização.
“R$25 mil que se tornaram R$205 mil, e R$1 milhão de saving de viagens no primeiro mês, não são desconto. É o oxigênio que já estava na operação e não entrava na planilha de Compras. Para mim, esta edição trouxe provocações e reflexões vitais para os profissionais da área como essa”, afirma Henrique, CEO da Live University.
Ativos parados também podem voltar para o caixa
A SYX Global apresentou o caso dos motores da Votorantim Cimentos. Os equipamentos tinham expectativa inicial de R$25 mil, mas receberam 369 propostas de 22 empresas habilitadas e foram vendidos por R$205 mil, mais de oito vezes a estimativa inicial.
O caso chama atenção para o capital imobilizado em máquinas e materiais que deixaram de ter uso. Segundo a SYX, a circulação desses ativos também pode beneficiar empresas que buscam ampliar capacidade produtiva sem recorrer à compra de equipamentos novos.
Em viagens, a economia pode começar antes da tarifa
Carolina Gaete, diretora comercial da Voetur Viagens e embaixadora da ALAGEV em São Paulo, afirma que empresas ainda entram em concorrências apenas com o valor anual gasto, sem detalhar destinos, antecedência das reservas, remarcações, créditos não utilizados ou perfil dos viajantes.
“Quanto mais a empresa abre seus dados, mais o fornecedor consegue identificar o que precisa ser trabalhado primeiro. Sem dados, como podemos ajudar?”, questiona.
Dados de 2025 da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp), citados pela Voetur, indicam que passagens aéreas representam cerca de 58% do volume de compras de viagens corporativas e hospedagem, 31%.
Um caso apresentado pela Loupit Travel Tech mostrou o impacto potencial dessa gestão. Segundo a empresa, o Grupo Inttra registrou redução de 31% no valor médio das passagens e economia de aproximadamente R$ 1 milhão no primeiro mês.
Patrick Tytgadt, CEO da Loupit, questiona a prática de concentrar processos de concorrência na taxa cobrada pela agência.
“Nenhum comprador assinaria um contrato olhando para 1% do valor e ignorando os outros 99%. Em viagens corporativas, é exatamente isso que acontece há décadas”, afirma.
Dados, contratos e fornecedores entram na mesma conta
Outras discussões do Fórum mostraram que a eficiência continua depois da negociação.
Laís Roupinha, responsável pela operação da Slimstock no Brasil, destacou a dificuldade de transformar o conhecimento dos planejadores em parâmetros confiáveis para sistemas.
“A principal dificuldade está em traduzir aquilo que está na cabeça do planejador em um parâmetro justificável dentro de um sistema”, afirma. “Por muitos anos falamos em Big Data, mas as empresas ainda não se conscientizaram sobre cuidar bem do Small Data.”
Na mesma frente, a SAP relatou procura por automação de contratos, processos de concorrência e fluxos de aquisição com inteligência artificial no SAP Ariba. A Supplify apresentou agentes de IA aplicados a requisições, cotações, negociações e emissão de pedidos, mantendo a governança das decisões sob responsabilidade humana.
Em painel sobre pagamentos B2B, Bradesco, Visa e Cielo discutiram como digitalização e prazos comerciais interferem no capital de giro. Na gestão de fornecedores, Claudia Bottozzo e Murilo Ferreira de Souza, da SPIC Brasil, abordaram o conceito de Shift-Left Procurement, com identificação de riscos antes da contratação. O USEMOL tratou da homologação contínua, considerando que a situação de um fornecedor pode mudar ao longo do contrato.
Produtividade vai além da automação
Na prestação de serviços, o Grupo Altum apresentou aplicações de robótica na limpeza profissional, com operações superiores a 95 mil metros quadrados por mês e redução de até 77% no consumo de água, segundo a companhia.
Celso Lima, diretor comercial da Verzani & Sandrini, apontou outro desafio: contratar e reter profissionais para atividades como limpeza, manutenção e segurança.
Já o Grupo Copabo apresentou a ampliação de sua estrutura logística para projetos portuários e industriais, com foco em disponibilidade de materiais e tempo de resposta.
Os exemplos mostram que produtividade não depende apenas do preço negociado ou da tecnologia adotada, mas também da capacidade de executar o contrato com pessoas, recursos e infraestrutura adequados.
O que muda para 2027
Para Erica Riera, head de Procurement da Xhara, o Fórum mostrou uma área cada vez menos restrita à execução de pedidos.
“O grande insight do evento é ver, na prática, a evolução do protagonismo de Compras nos negócios, deixando para trás aquela velha visão de que a área serve apenas para apertar o botão e tirar pedidos”, afirma.
Para as empresas que começam a planejar 2027, pagar menos continua sendo parte importante do trabalho de Compras, mas deixa de ser a única pergunta. Ativos parados, créditos de viagens, estoques, contratos, prazos e riscos passam a entrar na mesma conta.
Os casos apresentados no Fórum indicam que parte das próximas oportunidades de economia pode estar justamente em recursos que as empresas já possuem, mas ainda não administram como fonte de resultado.
Sobre o Fórum de Compras & Sourcing
Promovido pela Live University | Inbrasc, o Fórum de Compras & Sourcing realizou sua 23ª edição nos dias 6 e 7 de outubro de 2026, no Transamérica Expo Center, em São Paulo. Segundo a organização, o encontro reuniu mais de 8 mil participantes, 200 palestrantes e 100 estandes.



