
O Brasil prepara um novo instrumento de capital de risco dedicado especificamente a empresas que desenvolvem negócios baseados em inteligência artificial. BNDES e Finep anunciaram a seleção da Monashees Gestão de Investimentos para gerir o Fundo de Investimento em Participações de Inteligência Artificial, iniciativa vinculada ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).
A expectativa é que o fundo consiga mobilizar até R$ 500 milhões, combinando recursos públicos com capital de outros investidores. O objetivo é financiar startups brasileiras nas quais a inteligência artificial seja parte estrutural do produto, serviço ou modelo de negócios — e não apenas uma ferramenta pronta utilizada de maneira complementar.
A escolha ocorreu após uma chamada pública que recebeu 17 propostas. Mas o anúncio não significa que os R$ 500 milhões já estejam disponíveis nem que a Monashees tenha começado imediatamente a investir. A proposta selecionada entra agora nas etapas de análise, diligência e estruturação do fundo.
Recursos públicos podem chegar a R$ 205 milhões
O desenho financeiro é importante para compreender a iniciativa. A BNDESPAR, braço de participações do BNDES, poderá comprometer até R$ 125 milhões, enquanto o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, por meio da Finep, poderá aportar até R$ 80 milhões.
Somados, os compromissos públicos podem chegar a R$ 205 milhões. O restante necessário para alcançar a capacidade máxima projetada deverá vir de outros investidores.
Portanto, o anúncio não representa a liberação de R$ 500 milhões diretamente pelo governo para startups. Trata-se da estruturação de um fundo de investimento no qual o capital público funciona como âncora para tentar mobilizar recursos adicionais.
Governo quer usar capital público para atrair investimento privado
A estratégia procura criar um efeito multiplicador. Em vez de o Estado financiar sozinho todo o fundo, BNDESPAR e Finep entram como investidores-âncora e procuram reduzir parte do risco percebido por outros participantes do mercado.
Cada cotista-âncora terá participação limitada a 25% do fundo, justamente para preservar a lógica de atração de outros investidores.
Esse modelo também difere de uma linha tradicional de financiamento. O veículo será um Fundo de Investimento em Participações (FIP), modalidade que permite investir no capital das empresas e acompanhar sua valorização e crescimento.
Em vez de simplesmente conceder um empréstimo que depois precisa ser pago com juros, o fundo pode adquirir participação em uma startup. Se a empresa crescer, essa participação poderá se valorizar.
IA precisa estar realmente no centro do negócio
Um dos critérios mais relevantes está na definição das empresas que poderão receber investimentos.
Não basta uma startup utilizar ChatGPT, Copilot, Gemini ou alguma API de inteligência artificial em uma funcionalidade secundária.
O edital determina que a IA deve constituir um elemento central e estruturante do modelo de negócios e da geração de valor. O desenvolvimento, adaptação e operação das soluções deve exigir investimentos relevantes em dados, modelos, infraestrutura computacional e profissionais especializados.
Essa distinção procura separar duas categorias de empresas que frequentemente aparecem misturadas no atual boom da inteligência artificial.
De um lado estão companhias que constroem produtos e tecnologias cuja existência depende diretamente de IA. Do outro, empresas tradicionais ou startups que apenas adicionam uma ferramenta generativa pronta ao seu produto.
O fundo pretende priorizar o primeiro grupo.
Por que essa diferença importa?
Praticamente qualquer empresa de tecnologia pode hoje afirmar que utiliza inteligência artificial.
Uma plataforma de comércio eletrônico pode instalar um chatbot. Uma empresa de contabilidade pode usar IA para resumir documentos. Um sistema de CRM pode integrar um modelo generativo para redigir e-mails.
Tudo isso pode melhorar produtividade, mas não necessariamente transforma essas companhias em empresas de inteligência artificial.
Uma startup intensiva em IA normalmente precisa lidar com desafios muito mais profundos: construção e tratamento de conjuntos de dados, treinamento ou adaptação de modelos, avaliação de desempenho, contratação de especialistas, infraestrutura de GPUs, inferência, segurança e custos computacionais.
É esse tipo de empresa que o novo fundo pretende financiar.
O capital pode atacar um dos gargalos brasileiros
O Brasil possui pesquisadores, universidades, desenvolvedores e um mercado digital significativo, mas construir empresas de IA competitivas internacionalmente exige capital em uma escala diferente daquela necessária para muitas startups tradicionais.
O custo começa na contratação.
Pesquisadores e engenheiros especializados em IA disputam oportunidades com empresas internacionais capazes de pagar salários em dólar.
Depois vem a infraestrutura.
Treinar e executar modelos pode exigir GPUs e serviços de nuvem caros. Conforme o produto cresce, o custo de inferência também aumenta.
Além disso, empresas precisam financiar períodos relativamente longos de pesquisa e desenvolvimento antes que determinados produtos consigam gerar receita suficiente.
É justamente nesse intervalo que capital de risco pode ser decisivo.
Objetivo não é apenas criar startups, mas fazê-las crescer
BNDES e Finep estabeleceram uma ambição que vai além do nascimento de novas empresas.
A iniciativa busca ampliar o número, o faturamento e a presença global das startups brasileiras de inteligência artificial.
Isso significa tentar resolver outro problema conhecido do ecossistema nacional: empresas brasileiras inovadoras conseguem nascer, mas muitas encontram dificuldades quando precisam levantar rodadas maiores para internacionalização.
Quando chega essa fase, fundos estrangeiros frequentemente assumem papel central no financiamento.
O novo veículo procura ampliar a disponibilidade de capital dentro do próprio ecossistema brasileiro.
Monashees terá papel central nessa seleção
A escolha da Monashees coloca uma gestora privada entre o governo e as empresas que futuramente poderão receber os investimentos.
Isso é parte da própria lógica dos fundos de participação apoiados pelo BNDES. O banco utiliza gestores de mercado selecionados por processos específicos para investir indiretamente em empresas, em vez de escolher individualmente todas as startups beneficiadas.
A gestora terá de construir o portfólio dentro das regras e da tese estabelecida para o veículo.
Na chamada pública, as propostas foram avaliadas considerando fatores como histórico da gestora, qualificação da equipe, tese de investimento, acompanhamento das empresas, governança e capacidade de captação.
Portanto, a seleção não significa que o governo simplesmente entregará R$ 500 milhões à Monashees para que ela distribua livremente.
Existe uma estrutura regulada de fundo, regras de elegibilidade, governança e participação dos cotistas.
Fundo terá perfil de capital semente
O edital prevê que a classe de cotas seja enquadrada como Capital Semente, dentro das regras da Comissão de Valores Mobiliários.
O fundo poderá utilizar diferentes instrumentos para realizar os investimentos, incluindo ações, bônus de subscrição, debêntures conversíveis, mútuos conversíveis e outros títulos que possam resultar em participação nas empresas.
Essa flexibilidade é importante no mercado de startups porque empresas em diferentes fases podem precisar de estruturas diferentes para receber capital.
O edital também apresenta, de forma indicativa, duração total de até 12 anos, com período de investimento de até cinco anos.
Isso reforça que não se trata de uma política de curto prazo. Venture capital trabalha com horizontes longos: investir, ajudar empresas a crescer e posteriormente buscar uma saída da participação.
Empresas precisam manter forte vínculo com o Brasil
As regras também procuram garantir que o dinheiro seja direcionado ao desenvolvimento do ecossistema nacional.
As empresas-alvo podem ter sede e administração no Brasil ou, em determinadas condições, possuir sede no exterior e manter pelo menos 90% dos ativos considerados nas demonstrações contábeis no Brasil.
Há ainda uma restrição adicional para a parcela proveniente do FNDCT/Finep: esses recursos devem ser destinados a entidades nacionais, com administração no país e maioria do capital votante nacional no momento do investimento.
O desenho procura equilibrar a realidade internacional das startups — que muitas vezes estruturam holdings no exterior para captar investimentos — com a intenção de manter tecnologia, ativos e atividade econômica vinculados ao Brasil.
A disputa por talentos também está no centro da estratégia
Existe um ativo que nenhum fundo consegue simplesmente comprar no exterior e instalar imediatamente no país: uma comunidade tecnológica madura.
Engenheiros.
Pesquisadores.
Cientistas de dados.
Especialistas em machine learning.
Empreendedores.
Profissionais de infraestrutura.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que a iniciativa pretende criar condições para o surgimento de novas empresas inovadoras, contribuir para a formação e permanência de talentos no Brasil e aumentar a produtividade da economia.
Essa questão ganhou importância com a expansão global da IA. Um pesquisador brasileiro pode trabalhar remotamente para empresas americanas ou europeias sem sair fisicamente do país, o que aumenta a competição salarial enfrentada por startups nacionais.
Criar empresas brasileiras capazes de captar capital em maior escala é também uma tentativa de melhorar essa disputa.
Brasil quer deixar de ser apenas consumidor de IA
Existe uma questão estratégica ainda maior.
Grande parte das ferramentas de IA utilizadas atualmente no país foi desenvolvida no exterior. Modelos, plataformas de nuvem, chips e ferramentas fundamentais da cadeia estão concentrados principalmente em empresas americanas, chinesas e europeias.
O presidente da Finep, Luiz Antonio Elias, resumiu a estratégia dizendo que o desafio brasileiro não é apenas utilizar inteligência artificial, mas desenvolver capacidades nacionais para criar e aplicar essas soluções de acordo com interesses estratégicos do país.
Isso não significa buscar autossuficiência completa — algo extremamente difícil em uma cadeia globalizada.
A meta é aumentar a participação brasileira na criação de tecnologia e propriedade intelectual.
O fundo integra uma estratégia muito maior
A iniciativa faz parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que reúne políticas relacionadas a infraestrutura computacional, pesquisa, formação profissional, desenvolvimento tecnológico, aplicações públicas e fortalecimento empresarial.
Nesse contexto, o fundo adiciona uma peça específica: capital de risco.
É possível financiar um laboratório universitário e produzir excelente pesquisa sem necessariamente criar uma empresa global.
Também é possível oferecer crédito para uma companhia estabelecida sem resolver o problema de uma startup que ainda não possui fluxo de caixa suficiente para assumir dívida.
Venture capital ocupa justamente esse espaço de maior risco.
O Estado também assume risco quando investe em startups
Essa característica precisa ser compreendida.
Startups possuem elevada taxa de mortalidade.
Algumas empresas financiadas podem crescer rapidamente.
Outras podem ser vendidas.
Algumas podem nunca gerar retorno.
E outras podem simplesmente fechar.
Esse risco é inerente ao venture capital.
Por isso, o resultado de um fundo não pode ser medido apenas observando individualmente cada investimento. Gestores trabalham com portfólios, esperando que o crescimento de algumas empresas compense resultados mais fracos de outras.
A presença de capital público nesse modelo exige, portanto, governança, transparência e critérios claros de investimento.
A seleção da Monashees ainda não encerra o processo
Esse é um dos pontos mais importantes do anúncio.
A Monashees foi selecionada como gestora, mas a iniciativa ainda precisa passar pelas etapas seguintes.
Finep e BNDES informam que a proposta seguirá agora para análise, diligência e estruturação.
Somente depois dessas etapas o veículo poderá avançar para sua estrutura definitiva e captação.
Da mesma forma, o valor de até R$ 500 milhões é uma estimativa de mobilização, não dinheiro já captado ou integralizado.
O volume final dependerá da composição dos investidores que efetivamente entrarem no fundo.
Os R$ 500 milhões são uma meta, não um cheque pronto
Essa distinção evita uma interpretação comum em anúncios de fundos públicos.
Não significa:
“BNDES e Finep deram R$ 500 milhões para a Monashees.”
O desenho é diferente.
BNDESPAR: até R$ 125 milhões.
FNDCT/Finep: até R$ 80 milhões.
Potencial público combinado: R$ 205 milhões.
Mobilização projetada do fundo: até R$ 500 milhões.
Para alcançar o teto, será necessário atrair capital adicional.
O verdadeiro teste começa agora
Selecionar uma gestora é apenas o início.
O sucesso da iniciativa dependerá de três desafios: conseguir completar a captação, encontrar startups brasileiras realmente intensivas em inteligência artificial e transformar esses investimentos em empresas capazes de crescer dentro e fora do país.
Se funcionar, o fundo poderá ajudar a criar uma ponte que historicamente é difícil no ecossistema brasileiro: transformar conhecimento científico e talento técnico em empresas de tecnologia com escala internacional.
O movimento também mostra uma mudança importante na estratégia brasileira para inteligência artificial.
A discussão já não é apenas sobre adotar ferramentas estrangeiras de IA.
Passa a envolver infraestrutura, pesquisa, talentos, propriedade intelectual e agora capital para criar empresas.
O Brasil entra nessa disputa muito atrás dos volumes investidos pelos principais polos tecnológicos mundiais. Mas a escolha da Monashees e a estruturação de um veículo que pode chegar a R$ 500 milhões sinalizam uma tentativa de atacar um dos gargalos fundamentais para qualquer ecossistema de inovação:
quem financia a empresa brasileira enquanto ela ainda está construindo a tecnologia que pretende levar ao mundo.



