
A corrida mundial pela inteligência artificial está criando uma transformação profunda na indústria de semicondutores — e a Broadcom acaba de apresentar alguns dos números mais impressionantes desse novo ciclo.
No terceiro trimestre fiscal de 2026, encerrado em 2 de agosto, a companhia registrou US$ 29,59 bilhões em receita total, crescimento de 86% sobre o mesmo período do ano anterior.
Mas é dentro da operação de inteligência artificial que os números realmente chamam atenção.
A receita de semicondutores relacionados à IA alcançou:
US$ 16,7 bilhões.
Isso representa crescimento de:
221% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior
e:
54% frente ao trimestre anterior.
O CEO Hock Tan resumiu o cenário afirmando que a demanda por aceleradores personalizados de IA e networking continua muito forte.
E a companhia acredita que a expansão está longe de terminar.
A publicação está correta — mas “AI lab demand” não é a melhor descrição
A imagem compartilhada afirma que o CEO da Broadcom destacou forte demanda de “AI labs” durante a divulgação dos resultados de 2 de setembro.
A ideia geral de forte demanda está correta, mas a descrição merece precisão.
A Broadcom fala principalmente em demanda de seus grandes clientes por:
custom AI accelerators
e
AI networking.
Não se trata simplesmente de laboratórios de inteligência artificial comprando chips.
Estamos falando de gigantescas infraestruturas computacionais construídas por hyperscalers e empresas que treinam e executam modelos de IA.
Broadcom já espera US$ 21,7 bilhões em apenas um trimestre
A velocidade da expansão fica ainda mais clara na projeção para o quarto trimestre fiscal.
A companhia espera que sua receita de semicondutores para IA chegue a:
US$ 21,7 bilhões.
Se isso acontecer, representará crescimento anual de:
236%.
Ou seja, depois de crescer 221%, a divisão deverá acelerar novamente.
Para todo o quarto trimestre, a Broadcom projeta receita consolidada de aproximadamente:
US$ 34,8 bilhões.
IA já representa mais da metade da receita da companhia
Os US$ 16,7 bilhões obtidos com semicondutores relacionados à inteligência artificial equivalem a aproximadamente:
56% da receita total da Broadcom no trimestre.
Isso ajuda a dimensionar o quanto a empresa mudou.
A Broadcom continua possuindo um enorme negócio de software de infraestrutura — principalmente depois da aquisição da VMware — e diversas outras linhas de semicondutores.
Mas IA passou a ocupar uma posição extraordinariamente importante dentro de sua estrutura.
A empresa agora projeta US$ 58 bilhões em IA em 2026
A Broadcom elevou sua expectativa de receita de semicondutores para inteligência artificial no atual ano fiscal para aproximadamente:
US$ 58 bilhões.
A projeção anterior era de cerca de:
US$ 56 bilhões.
Isso representaria crescimento anual próximo de:
186%.
Mas as previsões para os próximos dois anos são ainda mais agressivas.
US$ 115 bilhões em 2027
A companhia agora acredita que sua receita relacionada à infraestrutura de IA poderá chegar a aproximadamente:
US$ 115 bilhões no ano fiscal de 2027.
Anteriormente, a expectativa era superior a US$ 100 bilhões.
Isso significa praticamente:
dobrar novamente.
E Hock Tan não parou aí.
Broadcom fala em US$ 230 bilhões em 2028
A empresa vê potencial para chegar a aproximadamente:
US$ 230 bilhões em receita de IA no ano fiscal de 2028.
É mais uma duplicação.
A trajetória apresentada pela administração, portanto, é aproximadamente:
2026 — US$ 58 bilhões
2027 — US$ 115 bilhões
2028 — US$ 230 bilhões
São projeções da companhia, não receitas garantidas.
Mas mostram a dimensão da demanda que a Broadcom acredita estar enxergando entre seus clientes.
O grande negócio não são apenas GPUs
Quando falamos de chips para inteligência artificial, o primeiro nome que normalmente aparece é:
Nvidia.
Isso faz sentido.
A empresa domina grande parte do mercado de aceleradores utilizados para treinamento e inferência.
Mas existe uma segunda revolução acontecendo simultaneamente.
Grandes empresas estão desenvolvendo:
chips personalizados.
É justamente nessa área que a Broadcom ocupa uma posição extremamente importante.
O que são os XPUs da Broadcom?
A companhia utiliza o termo:
XPU
para se referir a aceleradores personalizados construídos para determinados clientes e cargas de trabalho.
A lógica é diferente de comprar simplesmente um chip genérico disponível para qualquer empresa.
Um hyperscaler pode trabalhar com a Broadcom para desenvolver silício adaptado às suas necessidades.
Isso permite otimizar características como:
desempenho;
memória;
interconexão;
consumo energético;
custo;
tipo de modelo executado.
Google é um exemplo importante desse modelo
O Google utiliza há anos suas:
TPUs — Tensor Processing Units.
São aceleradores desenvolvidos especificamente para cargas de inteligência artificial.
A Broadcom participa historicamente do ecossistema de chips personalizados utilizado pelo Google.
Esse modelo está se espalhando.
Quanto mais bilhões de dólares as Big Techs gastam em computação, maior o incentivo para desenvolver hardware próprio.
Por que criar um chip personalizado?
Imagine uma empresa gastando:
US$ 50 bilhões por ano em infraestrutura de IA.
Uma melhoria relativamente pequena em:
eficiência;
energia;
custo;
utilização
pode representar bilhões de dólares.
Por isso, em determinada escala, criar um acelerador personalizado começa a fazer sentido.
O investimento inicial é enorme.
Mas a economia também pode ser.
É como construir o próprio motor
Uma empresa pequena compra um veículo pronto.
Uma gigante que precisa operar milhões de veículos talvez queira controlar:
motor;
consumo;
software;
manutenção.
Algo semelhante começa a acontecer na computação.
Empresas com cargas gigantescas não querem necessariamente depender de apenas um fornecedor de aceleradores.
Querem controlar mais profundamente sua própria infraestrutura.
Broadcom se beneficia justamente dessa mudança
A companhia não precisa necessariamente derrotar a Nvidia vendendo uma GPU equivalente.
Ela pode ocupar outro espaço:
ajudar gigantes da tecnologia a desenvolver seus próprios aceleradores.
Essa estratégia transforma a Broadcom em uma espécie de parceira de engenharia de silício das maiores plataformas de IA.
Meta, OpenAI e Anthropic entram nessa história
A expansão da Broadcom está ligada à crescente quantidade de clientes que constroem infraestrutura de inteligência artificial em enorme escala.
A companhia e analistas têm destacado programas envolvendo grandes empresas como:
Google;
Meta;
OpenAI;
Anthropic.
Mas existe uma ressalva importante.
Os projetos, cronogramas e arquiteturas são diferentes.
Não significa que todas essas empresas estejam comprando exatamente o mesmo chip ou possuam o mesmo tipo de parceria.
OpenAI já aprofundou sua relação com a Broadcom
Em junho, Broadcom e OpenAI anunciaram um processador otimizado para grandes modelos de linguagem.
Esse movimento reforça uma tendência importante:
empresas de IA estão tentando controlar cada vez mais sua infraestrutura.
O modelo.
O software.
O data center.
A rede.
E, em alguns casos:
o próprio silício.
A corrida está virando uma guerra de ecossistemas
Durante a primeira fase da IA generativa, a pergunta era:
quem possui mais GPUs?
Agora começa a surgir outra:
quem consegue construir a infraestrutura mais eficiente?
Isso envolve:
GPUs;
XPUs;
CPUs;
memória HBM;
switches;
interconexão;
software;
refrigeração;
energia.
É aí que a Broadcom possui outra vantagem estratégica.
Networking é tão importante quanto o acelerador
Um cluster de inteligência artificial pode possuir:
10 mil;
50 mil;
100 mil
ou ainda mais aceleradores.
O problema é que esses chips precisam conversar.
Constantemente.
Treinar um grande modelo exige distribuir cálculos entre milhares de processadores.
Cada acelerador executa uma parte da tarefa.
Depois precisa trocar informações com os outros.
Se a rede é lenta, os chips esperam.
Um acelerador parado continua consumindo dinheiro
Imagine comprar milhares de processadores extremamente caros.
Depois imagine que eles passam parte do tempo aguardando dados.
Esse tempo perdido reduz o retorno sobre o investimento.
Por isso, redes de altíssima velocidade tornaram-se uma parte fundamental da infraestrutura de IA.
E networking é justamente uma das maiores especialidades históricas da Broadcom.
A empresa está posicionada dos dois lados
Broadcom pode participar tanto de:
computação
quanto de:
conectividade.
Aceleradores personalizados executam os cálculos.
Chips de rede ajudam a conectar os aceleradores.
Essa combinação é extremamente valiosa.
Ethernet está entrando no coração dos clusters de IA
Durante muito tempo, InfiniBand teve enorme destaque em computação de alto desempenho e clusters de IA.
A Nvidia fortaleceu ainda mais essa posição com a aquisição da Mellanox.
Mas grandes hyperscalers também estão investindo pesadamente em:
Ethernet para IA.
Broadcom é uma das principais fornecedoras de silício de networking Ethernet do planeta.
O objetivo é criar redes gigantescas
Imagine um data center como um cérebro.
Os aceleradores são unidades de processamento.
Mas a rede funciona como o sistema que permite que diferentes partes troquem informações.
Quanto maior o cérebro artificial, mais importante se torna a comunicação interna.
É por isso que a infraestrutura de rede deixou de ser apenas um componente secundário.
Ela pode determinar o desempenho de todo o cluster.
IA está mudando o tamanho econômico dos data centers
Um data center tradicional era construído para hospedar:
sites;
bancos de dados;
aplicações;
máquinas virtuais;
serviços de cloud.
Uma fábrica moderna de IA possui outra densidade.
Racks podem concentrar enormes quantidades de:
computação;
memória;
rede;
energia.
Isso aumenta drasticamente o valor de semicondutores instalado por metro quadrado.
Broadcom está capturando esse aumento de densidade
Quanto mais computação é colocada em um rack, mais componentes avançados são necessários.
Mais aceleradores.
Mais memória.
Mais switches.
Mais interconexões.
Mais controladores.
Por isso, mesmo que a quantidade física de data centers não crescesse na mesma proporção, o valor tecnológico dentro deles poderia aumentar.
Os resultados consolidados também foram recordes
A Broadcom registrou:
US$ 29,591 bilhões em receita total.
Um ano antes:
US$ 15,952 bilhões.
Crescimento:
86%.
O lucro líquido GAAP chegou a aproximadamente:
US$ 13,09 bilhões.
E o lucro operacional GAAP atingiu:
US$ 15,96 bilhões.
Fluxo de caixa livre chegou a US$ 13,7 bilhões
A empresa gerou:
US$ 14,2 bilhões em caixa operacional.
Depois de aproximadamente US$ 500 milhões em despesas de capital, o fluxo de caixa livre ficou em:
US$ 13,7 bilhões.
Isso corresponde a aproximadamente:
46% da receita.
É um nível extraordinariamente elevado de geração de caixa.
VMware continua sendo outra peça gigantesca
A Broadcom não é apenas uma fabricante de chips.
Depois da aquisição da VMware, tornou-se também uma potência em software de infraestrutura.
No terceiro trimestre, a divisão de:
Infrastructure Software
registrou aproximadamente:
US$ 8,75 bilhões.
Crescimento anual:
29%.
Enquanto isso, Semiconductor Solutions alcançou:
US$ 20,84 bilhões.
Isso cria uma estratégia interessante
A Broadcom pode participar de diferentes camadas da infraestrutura.
No hardware:
chips.
Networking.
Aceleradores.
No software:
VMware.
Private cloud.
Infraestrutura empresarial.
Essa combinação permite à companhia tentar capturar tanto a explosão de IA nos hyperscalers quanto a adoção de inteligência artificial dentro das empresas.
IA privada também está crescendo
Poucos dias antes dos resultados, a Broadcom apresentou uma série de novidades relacionadas à:
VMware Private AI Cloud.
A tese é que muitas empresas não vão simplesmente enviar todos os seus dados para serviços públicos de IA.
Setores regulados podem querer executar modelos em ambientes privados.
Bancos.
Governos.
Indústrias.
Saúde.
Empresas com propriedade intelectual sensível.
Isso cria outra oportunidade.
O futuro pode ser híbrido
Uma empresa pode utilizar:
modelos gigantes na nuvem;
modelos menores localmente;
agentes em cloud privada;
inferência no edge.
A infraestrutura ficará cada vez mais distribuída.
Isso favorece fornecedores que conseguem operar em várias camadas.
Mas existe um risco enorme: a demanda precisa continuar
As projeções da Broadcom são impressionantes.
US$ 58 bilhões.
US$ 115 bilhões.
US$ 230 bilhões.
Mas essas cifras dependem de uma premissa:
as empresas continuarão investindo quantidades gigantescas de dinheiro em infraestrutura de IA.
Esse é um dos maiores debates de Wall Street atualmente.
O mercado quer saber onde está o retorno
Microsoft.
Meta.
Amazon.
Google.
OpenAI.
Oracle.
Outras empresas estão comprometendo centenas de bilhões de dólares em infraestrutura.
O investimento está acontecendo antes de sabermos exatamente qual será o tamanho final da receita gerada por IA.
Isso cria uma pergunta inevitável:
esses data centers produzirão retorno suficiente?
A resposta pode definir o próximo ciclo
Se agentes de IA se tornarem ferramentas utilizadas diariamente por bilhões de pessoas e empresas, a demanda computacional poderá continuar crescendo por muitos anos.
Se IA gerar:
automação;
produtividade;
novos softwares;
robótica;
vídeo;
pesquisa;
serviços empresariais,
a capacidade atual pode parecer pequena.
Mas se a monetização desacelerar, alguns projetos podem ser adiados.
O mercado mostrou essa preocupação depois dos resultados
Apesar dos números extremamente fortes de IA, as ações da Broadcom sofreram pressão depois da divulgação.
Uma das razões foi a projeção de receita total para o quarto trimestre:
US$ 34,8 bilhões.
Embora represente crescimento de aproximadamente 93% em relação ao ano anterior, a expectativa ficou abaixo de algumas projeções mais otimistas de Wall Street.
Isso mostra como as expectativas sobre IA estão elevadas.
A empresa pode crescer extraordinariamente e ainda assim decepcionar investidores.
Existe também o risco de concentração
Projetar chips personalizados para gigantes da tecnologia é um negócio extremamente lucrativo.
Mas os clientes também são extremamente poderosos.
Eles possuem escala para:
negociar preços;
trocar fornecedores;
desenvolver internamente;
diversificar parceiros.
A competição está aumentando.
Marvell é uma rival importante
Outra empresa que disputa esse mercado é a:
Marvell.
Ela também trabalha com chips personalizados e infraestrutura para data centers.
À medida que o mercado cresce, gigantes de tecnologia podem evitar depender de apenas um parceiro.
Isso significa que Broadcom precisa continuar inovando para preservar sua posição.
Nvidia também não está parada
Ao mesmo tempo, Nvidia está expandindo seu ecossistema.
Não vende apenas GPUs.
Possui:
NVLink;
NVSwitch;
Spectrum-X;
InfiniBand;
CUDA;
sistemas completos;
DGX;
racks;
software.
Ou seja, a competição está deixando de ser:
chip contra chip.
Está virando:
plataforma contra plataforma.
Broadcom está construindo sua própria resposta
A combinação entre:
custom XPUs;
Ethernet;
switching;
optical networking;
software de infraestrutura
permite à empresa competir de uma maneira diferente.
Ela não precisa oferecer exatamente o mesmo produto da Nvidia.
Pode ajudar clientes a criar infraestruturas personalizadas.
Isso pode ser uma vantagem para os hyperscalers
Uma empresa como Google ou Meta não necessariamente quer comprar uma solução completamente fechada.
Ela possui milhares de engenheiros.
Constrói seus próprios data centers.
Desenvolve software.
Projeta infraestrutura.
Nesse contexto, trabalhar com um parceiro para criar silício personalizado pode ser mais atraente.
O próximo gargalo pode ser HBM
Existe, entretanto, um problema que afeta praticamente toda a indústria:
memória de alta largura de banda.
A HBM tornou-se componente essencial para aceleradores de IA.
E a demanda está crescendo tão rapidamente que capacidade de produção se tornou estratégica.
Broadcom precisa não apenas projetar chips.
Precisa garantir que toda a cadeia consiga entregá-los.
Hock Tan afirma que a empresa assegurou capacidade
A administração indicou que possui visibilidade de fornecimento suficiente para sustentar a expansão projetada, incluindo componentes críticos necessários para os próximos ciclos.
Isso é particularmente relevante diante das metas para 2027 e 2028.
Mas, novamente, previsões de vários anos dependem de execução industrial e demanda real.
US$ 230 bilhões colocariam a Broadcom em outra escala
Para entender a magnitude:
a Broadcom faturou aproximadamente US$ 29,6 bilhões em todo o terceiro trimestre de 2026.
Agora projeta que somente sua operação ligada à IA poderá alcançar:
US$ 230 bilhões durante o ano fiscal de 2028.
Isso mostra o tamanho da transformação esperada.
A imagem está correta — mas a história é muito maior
Sim, Hock Tan destacou em 2 de setembro uma demanda extremamente forte relacionada à infraestrutura de inteligência artificial.
Mas o número que melhor resume o momento da Broadcom não é uma frase do CEO.
É:
US$ 16,7 bilhões.
Essa foi a receita de semicondutores para IA em apenas um trimestre.
+221% em um ano.
E a companhia espera:
US$ 21,7 bilhões no próximo trimestre.
Depois:
US$ 115 bilhões no ano fiscal de 2027.
E:
US$ 230 bilhões em 2028.
Essas duas últimas cifras são projeções, e precisam ser tratadas como tal.
Ainda assim, revelam uma transformação importante na corrida da inteligência artificial.
A Nvidia continua sendo a grande referência dos aceleradores de IA.
Mas as maiores empresas do mundo estão começando a construir chips personalizados, redes especializadas e data centers desenhados desde o início para seus próprios modelos.
E a Broadcom está posicionada exatamente no meio dessa transformação.
A próxima guerra dos chips de IA pode não ser apenas sobre:
quem fabrica a GPU mais rápida.
Pode ser sobre:
quem consegue construir a infraestrutura mais eficiente para conectar centenas de milhares de aceleradores e transformar eletricidade em inteligência computacional pelo menor custo possível.
É nessa guerra que a Broadcom pretende conquistar uma fatia cada vez maior.



