
A explosão dos data centers destinados à inteligência artificial está criando um novo problema para a indústria de tecnologia: em muitos mercados, conseguir GPUs já não é o único grande gargalo — conseguir energia suficiente para ligá-las também se tornou um desafio estratégico.
É justamente nesse mercado que a Vertiv decidiu ampliar sua atuação.
A companhia anunciou um acordo para adquirir a UtilityInnovation Group (UIG), empresa norte-americana especializada em microgrids, controles avançados de energia e projetos elétricos para grandes data centers.
O negócio prevê pagamento de aproximadamente US$ 1,45 bilhão em dinheiro no fechamento, além de até US$ 1,15 bilhão adicionais caso a UIG alcance determinadas metas de EBITDA durante períodos de 12 e 24 meses.
Se todas as condições forem atingidas, a operação poderá chegar a US$ 2,6 bilhões.
Mas existe uma correção importante em relação à informação que circula nas redes: a aquisição ainda não foi concluída.
Vertiv e UIG assinaram um acordo de aquisição. A transação continua sujeita às aprovações regulatórias e demais condições habituais e deverá ser concluída no quarto trimestre de 2026.
Energia virou parte da corrida pela inteligência artificial
Durante os primeiros anos da explosão da IA generativa, grande parte da atenção ficou concentrada nos chips.
GPUs.
Aceleradores.
Servidores.
Memória.
Redes de alta velocidade.
Agora outro componente começa a determinar a velocidade da expansão: megawatts disponíveis.
Um grande campus de data centers voltado a inteligência artificial pode exigir centenas de megawatts, enquanto projetos de escala ainda maior começam a ser planejados na faixa dos gigawatts.
Não basta comprar servidores.
É necessário conseguir conectar toda essa infraestrutura ao sistema elétrico.
Esperar pela rede pode atrasar projetos durante anos
Em regiões com forte concentração de data centers, as concessionárias precisam lidar simultaneamente com dezenas de pedidos de conexão de cargas gigantescas.
Construir novas linhas de transmissão, subestações e infraestrutura de distribuição leva tempo.
Licenciamento também pode atrasar projetos.
Equipamentos elétricos de grande porte possuem prazos extensos de fabricação.
Como resultado, um terreno pode estar disponível e os servidores podem estar encomendados, mas o empreendimento ainda assim precisar esperar pela energia.
É o chamado problema de time to power.
Vertiv quer reduzir o “time to power”
Esse conceito aparece no centro da justificativa da aquisição.
A Vertiv quer ajudar operadores a reduzir o período entre a escolha de um terreno e a disponibilidade efetiva da energia necessária para iniciar as operações.
Para data centers de IA, isso significa também reduzir o chamado “time to first token” — o tempo até que a infraestrutura esteja efetivamente funcionando e gerando processamento útil.
Quanto mais rapidamente um cluster entra em operação, mais cedo começa a produzir receita.
UIG entra justamente nessa etapa
Fundada em 2020 e sediada em Raleigh, na Carolina do Norte, a UtilityInnovation Group trabalha com arquiteturas elétricas destinadas a resolver esse problema.
A empresa desenvolve sistemas capazes de combinar diferentes fontes de energia.
Rede elétrica convencional.
Geração local.
Armazenamento.
Microgrids.
Sistemas de controle.
Switchgear.
A arquitetura pode ser configurada conforme disponibilidade, combustível, licenciamento e características de cada projeto.
O que é uma microgrid?
Uma microgrid, ou microrrede, é essencialmente um sistema elétrico capaz de coordenar diferentes fontes e cargas dentro de uma área definida.
Imagine um grande campus de data centers.
Ele pode receber energia da concessionária.
Ao mesmo tempo, possuir geração local.
Baterias.
Outros sistemas de armazenamento.
E mecanismos de emergência.
Um sistema de controle precisa decidir como esses recursos trabalham juntos.
Essa inteligência é justamente uma das especialidades da UIG.
Data center pode operar mesmo sem depender totalmente da rede
Em determinadas configurações, uma microgrid pode funcionar conectada à rede pública.
Mas também pode operar de maneira mais independente.
Isso cria diferentes possibilidades para data centers.
Um empreendimento pode utilizar a rede normalmente e recorrer à geração local quando necessário.
Pode começar operando com geração própria enquanto aguarda uma conexão maior da concessionária.
Ou, dependendo do projeto, utilizar uma arquitetura predominantemente abastecida por fontes instaladas no próprio local.
Vertiv passa a atuar antes mesmo do data center
A aquisição possui importância estratégica porque amplia o ponto onde a Vertiv entra no projeto.
A companhia já possui uma posição relevante em infraestrutura crítica para data centers.
UPS.
Distribuição elétrica.
Gerenciamento térmico.
Refrigeração líquida.
Sistemas para racks.
Serviços.
Com a UIG, a empresa pretende avançar ainda mais para o lado da origem da energia.
Da rede elétrica até o chip
A própria Vertiv resume a estratégia com uma expressão bastante clara:
“from grid interconnect to chip” — da conexão com a rede elétrica até o chip.
A intenção é conseguir participar praticamente de toda a arquitetura de energia necessária para um data center.
Conexão com a concessionária.
Geração local.
Armazenamento.
Microgrid.
Distribuição.
Proteção elétrica.
UPS.
Rack.
Refrigeração.
Chip.
Essa integração pode se tornar especialmente valiosa em projetos de inteligência artificial.
Chips de IA aumentaram drasticamente densidade energética
O problema não está apenas no consumo total do prédio.
A quantidade de energia concentrada em cada rack também aumentou.
Infraestruturas tradicionais trabalhavam durante anos com densidades relativamente previsíveis.
Clusters modernos de IA podem concentrar dezenas ou centenas de quilowatts em um único rack.
Isso muda praticamente tudo.
Cabos.
Distribuição elétrica.
UPS.
Refrigeração.
Projeto hidráulico.
Arquitetura térmica.
Energia e refrigeração viraram problemas inseparáveis
Quanto mais eletricidade entra nos chips, mais calor precisa sair.
Essa relação ajuda a explicar a posição estratégica da Vertiv.
A companhia já fornece soluções de refrigeração para data centers e ampliou essa capacidade com aquisições anteriores.
Em 2023, por exemplo, comprou a especialista em refrigeração líquida CoolTera.
Agora está ampliando sua presença para o outro extremo da infraestrutura: a disponibilidade da própria energia.
UIG traz software de controle proprietário
A compra não envolve apenas equipamentos elétricos.
A UtilityInnovation possui uma plataforma própria de controle capaz de coordenar diferentes fontes de energia em tempo real.
Esses sistemas precisam equilibrar geração e consumo continuamente.
Se a demanda dos servidores aumenta, a infraestrutura precisa responder.
Se uma fonte falha, outra precisa assumir.
Se existe armazenamento disponível, ele pode ser acionado.
Tudo isso precisa acontecer mantendo a qualidade e a estabilidade elétrica exigidas por equipamentos extremamente sensíveis.
Switchgear também faz parte do negócio
A UIG também desenvolve switchgear específico para microgrids.
Esses equipamentos são responsáveis por controlar, proteger e isolar partes do sistema elétrico.
Em instalações críticas, eles são fundamentais.
Uma falha precisa ser identificada rapidamente.
Determinados circuitos podem precisar ser isolados.
Fontes alternativas precisam ser conectadas.
A continuidade operacional depende dessa coordenação.
“Behind the meter” ganha importância
Outro conceito central na aquisição é o chamado behind-the-meter.
Em termos simplificados, são recursos de energia instalados do lado do consumidor, depois do ponto de conexão com a concessionária.
Um data center pode possuir sua própria geração e armazenamento.
Isso reduz a dependência exclusiva da capacidade disponível na rede pública.
Para operadores que precisam colocar centenas de megawatts em funcionamento rapidamente, essa possibilidade se tornou extremamente atraente.
Três modelos podem ser utilizados
A Vertiv destaca três arquiteturas principais.
A primeira é a tradicional grid-connected, na qual o empreendimento permanece conectado à rede elétrica.
A segunda é chamada de bridge-to-grid.
Nesse modelo, geração local pode permitir que o data center entre em operação antes que toda a capacidade prometida pela concessionária esteja disponível.
Depois, conforme a rede é ampliada, a arquitetura pode evoluir.
A terceira é o modelo islanded, no qual o empreendimento possui capacidade para operar de maneira independente utilizando geração instalada localmente.
Bridge-to-grid pode virar peça-chave da expansão da IA
O segundo modelo é particularmente interessante.
Imagine que uma concessionária diga a uma empresa:
“Podemos entregar 100 MW agora, mas os outros 300 MW somente daqui a quatro anos.”
Para um projeto tradicional, isso poderia significar esperar.
Uma arquitetura bridge-to-grid pode permitir a implantação de geração adicional no próprio empreendimento durante esse período.
O data center começa a operar antes.
Quando a infraestrutura pública estiver disponível, o modelo energético pode ser reconfigurado.
Não existe uma única tecnologia de geração
A UIG trabalha com uma abordagem descrita como agnóstica em relação à tecnologia de geração.
Isso significa que a arquitetura não depende obrigatoriamente de uma única fonte ou fornecedor.
O projeto pode ser construído considerando o que determinado local consegue:
licenciar;
abastecer;
financiar;
e instalar.
Essa flexibilidade é importante porque a disponibilidade energética muda muito de região para região.
Isso não significa abandonar concessionárias
Existe um cuidado importante.
A aquisição não significa que a Vertiv acredita que data centers deixarão de utilizar redes públicas.
A infraestrutura das concessionárias continuará sendo essencial.
O que está acontecendo é uma diversificação.
Operadores querem possuir mais opções para evitar que o cronograma inteiro de um projeto dependa de uma única data de conexão.
IA está aproximando tecnologia e setor elétrico
Durante décadas, data centers eram tratados principalmente como projetos de tecnologia e construção.
Agora eles começam a se aproximar da lógica de grandes instalações industriais.
Um campus de IA precisa negociar energia em escala gigantesca.
Pode precisar de subestação própria.
Linhas de transmissão.
Contratos de fornecimento.
Geração local.
Armazenamento.
Engenharia elétrica especializada.
A fronteira entre empresa de tecnologia e grande consumidor industrial está diminuindo.
US$ 1,45 bilhão é o pagamento inicial
Outro ponto que merece precisão é o valor da operação.
A Vertiv pagará aproximadamente US$ 1,45 bilhão em dinheiro no fechamento.
Esse é o valor-base anunciado.
Os outros US$ 1,15 bilhão constituem uma remuneração adicional condicionada ao desempenho futuro da UIG.
Portanto, dizer simplesmente que a Vertiv “comprou a empresa por US$ 2,6 bilhões” seria impreciso neste momento.
O negócio pode chegar a esse valor.
Metas estão ligadas ao EBITDA
Os pagamentos adicionais dependerão do cumprimento de metas de EBITDA em períodos posteriores à conclusão da transação.
Esse tipo de estrutura é conhecido como earnout.
Ela reduz parte do risco para o comprador.
Se o negócio adquirido entregar o desempenho esperado, os antigos proprietários recebem valores adicionais.
Se não atingir determinadas metas, parte do pagamento não acontece.
Vertiv calcula múltiplo de aproximadamente 13 vezes EBITDA
Considerando apenas o preço inicial de US$ 1,45 bilhão, a Vertiv calcula que a aquisição representa aproximadamente 13 vezes o EBITDA esperado da UIG para 2027.
A companhia também afirma que o múltiplo efetivo será significativamente menor caso o earnout máximo seja pago, porque isso significaria que a empresa adquirida alcançou resultados financeiros superiores.
A Vertiv espera ainda que a operação contribua positivamente para o lucro ajustado por ação já no primeiro ano após sua conclusão.
UIG já atua nos Estados Unidos e Europa
A UtilityInnovation não é apenas uma empresa de projetos conceituais.
Ela possui experiência na criação e implantação de sistemas de microgrid para operadores de data centers de IA nos Estados Unidos e Europa.
A sede está na Carolina do Norte.
A sede europeia fica em Dublin, na Irlanda.
A companhia também mantém operações de fabricação na Carolina do Norte e em Nova Jersey.
Energia está redefinindo cadeia de fornecedores
A aquisição mostra uma mudança importante na própria cadeia de data centers.
Empresas que tradicionalmente forneciam infraestrutura elétrica e refrigeração estão avançando para outras etapas.
Fabricantes de equipamentos estão entrando em software.
Empresas de energia estão entrando em data centers.
Operadores estão investindo em geração.
Hyperscalers estão negociando diretamente com produtores de energia.
O ecossistema está convergindo.
Vertiv também quer uma única relação com o cliente
Existe uma vantagem comercial nessa integração.
Um grande projeto pode envolver dezenas de fornecedores.
Uma empresa para microgrid.
Outra para UPS.
Outra para refrigeração.
Outra para controles.
Outra para manutenção.
Outra para distribuição elétrica.
Quanto maior a quantidade de fornecedores, maior a complexidade de integrar tudo.
A Vertiv pretende oferecer uma relação mais centralizada, acompanhando a infraestrutura desde a origem da energia até o rack.
Responsabilidade também aumenta
Essa integração, entretanto, traz uma consequência.
Quanto maior a participação de um único fornecedor na arquitetura, maior também sua responsabilidade.
Falhas em sistemas elétricos de data centers podem causar interrupções extremamente caras.
Em ambientes de IA, uma indisponibilidade pode deixar dezenas de milhares de aceleradores sem produzir.
Por isso, confiabilidade será tão importante quanto velocidade.
Energia pode ser o próximo grande mercado da IA
A corrida pela inteligência artificial já criou vencedores evidentes em semicondutores.
Também acelerou nuvem, redes, memória e refrigeração.
A próxima grande oportunidade pode estar na infraestrutura energética.
Geradores.
Turbinas.
Baterias.
Microgrids.
Transformadores.
Subestações.
Switchgear.
Software de gerenciamento.
Todos esses mercados começam a sentir os efeitos da demanda dos data centers.
“Time to first token” vira indicador econômico
A frase utilizada pelo CEO da Vertiv, Gio Albertazzi, resume a mudança.
Para operadores de data centers de IA, a vantagem competitiva depende cada vez mais da velocidade entre escolher o local e gerar o primeiro token.
Cada mês de atraso significa servidores que não estão processando.
Capital que não está gerando retorno.
Clientes que precisam esperar.
Por isso, pagar mais para obter energia mais cedo pode fazer sentido econômico.
Brasil também enfrentará essa discussão
O tema possui impacto direto sobre o mercado brasileiro.
O País tenta atrair uma nova geração de grandes data centers e possui uma matriz elétrica com forte presença de fontes renováveis.
Mas disponibilidade nacional de energia não significa disponibilidade imediata exatamente onde o empreendimento será construído.
Grandes cargas precisam de transmissão.
Subestações.
Conexões.
Licenciamento.
Planejamento do sistema.
Projetos de centenas de megawatts podem exigir reforços significativos.
ReData aumenta importância do debate energético
O avanço do ReData torna essa discussão ainda mais relevante.
Se incentivos ajudarem a destravar novos investimentos em data centers no Brasil, o próximo gargalo poderá migrar rapidamente da tributação para a infraestrutura.
Não basta reduzir impostos sobre servidores.
Será necessário garantir energia, conectividade e capacidade de transmissão.
É justamente o problema que empresas como Vertiv e UIG estão tentando resolver internacionalmente.
Data center de IA começa na tomada, não na GPU
A aquisição da UtilityInnovation Group demonstra uma transformação importante na corrida da inteligência artificial.
Durante muito tempo, a pergunta era:
quem consegue comprar os melhores chips?
Agora outra pergunta ganha o mesmo peso:
quem consegue fornecer energia suficiente para ligá-los primeiro?
A Vertiv está apostando até US$ 2,6 bilhões para ocupar exatamente essa posição.
Se a transação for aprovada e concluída, a empresa deixará de atuar predominantemente na infraestrutura interna dos data centers para participar também das decisões energéticas que começam antes mesmo da construção dos racks.
Na nova corrida pela IA, o diferencial pode não estar apenas no número de GPUs instaladas.
Pode estar em quantos megawatts uma empresa consegue colocar à disposição delas — e em quanto tempo.



