
Por Carol Franco, do Café com Bytes
Os agentes de inteligência artificial ganharam espaço nas conversas do SAP NOW nesta quarta-feira (9), em São Paulo. Se até pouco tempo boa parte das empresas ainda tentava entender como incorporar IA ao dia a dia, a discussão agora chega a um ponto mais delicado: o que acontece quando a tecnologia deixa de apenas apoiar uma tarefa e passa a executar partes de um processo?
Os números ajudam a explicar por que esse assunto ganhou força. O estudo The Value of AI: Brazil 2026, realizado pela SAP em parceria com a Oxford Economics, mostra que 55% das empresas brasileiras já testaram casos de uso com agentes de IA. Outros 77% acreditam que a tecnologia tem potencial moderado ou alto para transformar suas organizações.
O investimento também aumentou. A média prevista para inteligência artificial neste ano chegou a US$20,8 milhões, contra US$14,2 milhões no levantamento anterior. Para agentes de IA, a expectativa de retorno nos próximos dois anos é de US$24,8 milhões, mais de quatro vezes o valor apontado na pesquisa de 2025.
O entusiasmo, porém, convive com uma realidade menos madura. Apenas 3% das empresas ouvidas se consideram totalmente preparadas para implementar e escalar agentes. Entre aquelas que já experimentaram a tecnologia, 61% encontraram mais dificuldade de integração do que esperavam, 54% tiveram problemas de confiabilidade ou qualidade à medida que ampliaram o uso e 40% relataram ações incorretas tomadas por agentes.
Esse contraste apareceu também nas conversas ao longo do evento. O interesse pela tecnologia é evidente, mas a pergunta já não se resume ao que um agente consegue fazer. Controle, responsabilidade e supervisão entraram de vez nessa discussão.
No setor tributário, o tema ganha ainda mais peso. Durante sua apresentação no SAP NOW, Roberto de Lazari, Diretor de Vendas e Parcerias Estratégicas da All Tax, chamou atenção para uma diferença importante entre o uso cotidiano da inteligência artificial e sua aplicação em uma operação fiscal.
“Quando usamos uma inteligência artificial, muitas vezes recebemos a melhor resposta que ela encontrou a partir das informações disponíveis. Em uma operação tributária, isso não basta. Existe uma regra, existe uma interpretação tributária da empresa e precisamos ter segurança sobre o que foi feito”, afirmou.
A All Tax levou ao evento o SAFE, tecnologia criada para aplicar agentes de IA à execução fiscal sob supervisão. A proposta é permitir que o agente assuma atividades operacionais, mas respeite as regras estabelecidas para cada processo. Quando há uma exceção ou uma decisão que exige validação, o especialista entra. De Lazari também reforçou que a adoção de agentes não significa retirar o profissional tributário da operação. “Não queremos substituir o especialista. Existem muitos profissionais qualificados que ainda perdem tempo com carga de dados, integração de informações e atividades operacionais. É esse trabalho que a tecnologia pode assumir. A interpretação e a decisão continuam com as pessoas”, disse.
A preocupação encontra respaldo em outro recorte da pesquisa. Hoje, 35% das empresas brasileiras não possuem processos de human-in-the-loop para fluxos com agentes de IA e 29% não contam com controles de permissão e acesso. Além disso, 65% não sabem dizer se adotam agentes em uma velocidade maior do que conseguem padronizar e controlar seu uso.
Há ainda um problema mais básico. O estudo aponta que 80% das empresas já receberam respostas de baixa qualidade de sistemas de IA ao menos ocasionalmente, com impacto em retrabalho, atrasos ou acúmulo de demandas. A qualidade e a disponibilidade dos dados aparecem como barreira para 75% das organizações.
O primeiro dia do SAP NOW mostrou uma conversa sobre inteligência artificial corporativa muito mais próxima da operação. Os agentes já chegaram aos testes, começam a ocupar processos reais e atraem mais investimento. Com isso, uma nova lista de decisões chega à mesa dos executivos: até onde esses agentes podem ir, quais ações exigem validação humana e quais controles precisam existir antes de ampliar seu uso.
Em áreas críticas, como o setor tributário, essas respostas têm impacto direto no negócio. A capacidade técnica dos agentes avança rápido. Agora, governança, processo e responsabilidade precisam acompanhar esse movimento.



