
Quatro gigantes das telecomunicações europeias estudam unir forças para disputar um dos ativos mais estratégicos da próxima geração das redes móveis: espectro que permite conectar celulares diretamente a satélites.
Deutsche Telekom, Orange, Telefónica e Vodafone estão em conversas preliminares para avaliar a criação de um consórcio capaz de participar da futura disputa pelas frequências europeias destinadas aos chamados serviços Direct-to-Device (D2D).
A iniciativa ainda não está fechada.
Até o momento, não existe decisão definitiva sobre a criação da joint venture nem confirmação de que as quatro empresas apresentarão conjuntamente uma proposta. As informações sobre as negociações partiram de pessoas familiarizadas com o assunto.
Mesmo assim, a movimentação revela o tamanho da disputa que está se formando em torno das comunicações via satélite diretamente para smartphones convencionais.
Celular poderá se conectar ao satélite sem antena especial
A tecnologia D2D pretende eliminar uma das principais barreiras históricas da comunicação por satélite.
Tradicionalmente, o usuário precisava de um telefone específico, antena dedicada ou terminal especializado para utilizar uma rede espacial.
A nova geração tenta fazer algo diferente.
O mesmo smartphone utilizado diariamente em uma rede 4G ou 5G poderá se comunicar diretamente com um satélite quando não houver cobertura terrestre disponível.
O objetivo é fazer com que a rede espacial funcione como uma extensão da rede móvel.
Frequências de 2 GHz estão no centro da disputa
O interesse das quatro operadoras está concentrado no espectro europeu de Mobile Satellite Services (MSS) na faixa de 2 GHz.
As atuais autorizações europeias nessa faixa estão nas mãos da EchoStar e da Viasat.
Esses direitos expiram em maio de 2027.
A proximidade do vencimento abriu uma discussão sobre como a União Europeia deverá redistribuir um recurso que ganhou importância muito maior desde a concessão das licenças atuais.
Quando essas frequências foram originalmente planejadas, smartphones conectados diretamente a constelações de órbita baixa ainda não representavam a oportunidade comercial que representam hoje.
União Europeia quer dividir espectro em três partes
A Comissão Europeia apresentou em maio uma proposta para reorganizar essa faixa.
A ideia é dividi-la em três blocos aproximadamente equivalentes.
Um terço seria destinado a comunicações governamentais e estratégicas europeias, associadas à infraestrutura soberana de satélites IRIS².
Outro terço ficaria reservado a operadores comerciais controlados na União Europeia.
O último terço seria aberto à competição mais ampla, permitindo a participação de empresas europeias e de grupos estrangeiros.
Essa estrutura é justamente o que torna uma possível aliança entre as grandes teles tão relevante.
Europa quer preservar parte do espectro para empresas europeias
A proposta não trata apenas de competição comercial.
Existe uma questão de soberania digital e espacial.
A Europa observa empresas americanas conquistando rapidamente posições dominantes na nova economia espacial.
A Starlink, da SpaceX, já possui milhares de satélites e avança para transformar sua constelação em uma infraestrutura capaz de conversar diretamente com celulares.
AST SpaceMobile também desenvolve uma rede espacial para banda larga móvel.
A Amazon amplia suas próprias ambições no setor.
Reservar parte do espectro para operadores controlados na União Europeia é uma maneira de evitar que toda a camada espacial das futuras redes móveis europeias fique dependente de empresas estrangeiras.
Starlink está diretamente envolvida nessa disputa
A SpaceX já criticou a proposta europeia.
A empresa argumenta que limitar a participação de grupos estrangeiros em dois dos três blocos restringiria a competição e poderia afetar a expansão dos serviços de conectividade direta da Starlink.
Na prática, apenas um terço da faixa ficaria totalmente aberto a operadores de fora da União Europeia.
Isso transforma a próxima licitação em uma disputa que mistura telecomunicações, política industrial e geopolítica.
As próprias operadoras europeias já trabalham com empresas americanas
Existe uma ironia importante nessa história.
As operadoras que agora avaliam criar uma alternativa europeia já possuem diferentes relacionamentos com fornecedores americanos de conectividade espacial.
A Vodafone, por exemplo, possui uma parceria particularmente profunda com a AST SpaceMobile.
As duas criaram a Satellite Connect Europe para oferecer conectividade D2D às operadoras europeias.
A empresa foi formalmente lançada em fevereiro deste ano e está sediada em Luxemburgo.
Satellite Connect Europe construirá cinco estações terrestres
A joint venture trabalha para implantar cinco estações terrestres na Europa.
Esses gateways serão responsáveis por conectar a infraestrutura de satélites às redes móveis terrestres.
O modelo é atacadista.
A ideia é permitir que operadoras utilizem a rede espacial como complemento de sua própria cobertura móvel.
O consumidor continuaria mantendo relacionamento com sua operadora habitual.
Quando estivesse fora da cobertura terrestre, o smartphone poderia utilizar a camada de satélite.
Orange também está trabalhando com AST SpaceMobile
A Orange assinou acordo com AST SpaceMobile e Satellite Connect Europe para testar a tecnologia.
A operadora pretende realizar na Romênia, durante o segundo semestre de 2026, demonstrações envolvendo:
voz;
SMS;
e transmissão de dados diretamente por satélite.
A empresa também estuda como integrar a conectividade espacial ao seu próprio core de rede.
Esse ponto é estratégico porque permite preservar maior controle sobre identidade, segurança e serviços oferecidos aos clientes.
Telefónica realiza testes com tecnologia europeia
A Telefónica também avança em outra frente.
Sua operação alemã está trabalhando com a OQ Technology em uma demonstração de comunicação bidirecional entre satélites e smartphones convencionais sem modificações.
O projeto utiliza espectro da própria Telefónica Germany.
A demonstração envolve aparelhos comerciais de fabricantes como Apple, Samsung e Google.
O objetivo é mostrar que a conectividade pode funcionar utilizando padrões do ecossistema móvel, aproximando redes terrestres e não terrestres.
Deutsche Telekom também possui planos próprios
A Deutsche Telekom igualmente desenvolve sua estratégia para redes não terrestres.
Isso mostra que uma eventual aliança das quatro operadoras não significaria necessariamente abandonar os atuais parceiros.
As empresas podem trabalhar simultaneamente com diferentes fornecedores.
Na realidade, possuir várias opções pode ser exatamente o objetivo.
Operadoras não querem depender de um único fornecedor espacial
Esse é um dos pontos mais importantes da possível aliança.
Se uma operadora depender completamente de uma única constelação de satélites para oferecer D2D, parte importante de sua futura cobertura ficará nas mãos de outra empresa.
Isso cria dependência comercial e tecnológica.
Ter acesso próprio ao espectro oferece maior poder de negociação.
Também permite construir diferentes combinações de fornecedores.
Uma operadora poderia utilizar uma constelação em determinada região e outra tecnologia em outro mercado.
D2D pode eliminar grandes áreas sem cobertura
A principal promessa da tecnologia é reduzir drasticamente as chamadas zonas de sombra.
Construir uma estação rádio-base em uma região remota pode ser economicamente inviável.
É necessário levar energia.
Backhaul.
Equipamentos.
Torres.
Manutenção.
Licenciamento.
E ainda precisa existir quantidade suficiente de clientes para justificar o investimento.
Satélites mudam essa equação.
Satélite não deverá substituir torres
Apesar da promessa, redes espaciais não deverão substituir as redes terrestres.
A capacidade disponível em uma estação rádio-base tradicional pode ser muito superior àquela compartilhada entre usuários de um satélite.
Por isso, o modelo mais provável é complementar.
Nas cidades e áreas densamente povoadas, 4G, 5G e futuramente 6G continuarão sendo responsáveis pela maior parte do tráfego.
Satélites entrarão principalmente onde as redes terrestres não conseguem chegar ou quando estiverem indisponíveis.
Emergências são um dos casos mais importantes
Imagine uma região atingida por enchentes, incêndios ou terremotos.
Torres podem perder energia.
Fibras podem ser rompidas.
Estradas podem ficar bloqueadas.
Nesse cenário, celulares capazes de se conectar diretamente a satélites podem manter uma camada básica de comunicação.
Isso pode permitir mensagens de emergência, localização e, conforme a tecnologia evoluir, chamadas e acesso à internet.
A resiliência é uma das principais justificativas para integrar redes terrestres e espaciais.
Agricultura e logística também podem se beneficiar
Existem aplicações comerciais importantes fora das cidades.
Agricultura de precisão utiliza sensores, máquinas conectadas e sistemas de monitoramento em regiões rurais.
Transportadoras precisam acompanhar veículos atravessando áreas sem cobertura.
Empresas de energia possuem infraestrutura em locais remotos.
Mineração e logística enfrentam desafios semelhantes.
Uma rede híbrida terrestre-satélite pode ampliar significativamente a área onde dispositivos permanecem conectados.
O espectro tornou-se peça estratégica
Essa transformação explica por que frequências de 2 GHz passaram a despertar tanto interesse.
Espectro é um recurso limitado.
Duas empresas não podem simplesmente utilizar a mesma frequência, no mesmo local e momento, sem coordenação.
Interferências tornariam o serviço inviável.
Por isso, direitos de utilização dessas frequências possuem enorme valor econômico.
Quem controlar espectro adequado terá uma vantagem importante na construção dos serviços D2D europeus.
IRIS² adiciona componente de soberania
A União Europeia também desenvolve sua própria infraestrutura espacial.
O programa IRIS² — Infrastructure for Resilience, Interconnectivity and Security by Satellite — pretende criar uma constelação soberana de múltiplas órbitas.
Seu objetivo inclui fornecer comunicações seguras para governos e infraestrutura crítica, além de capacidade comercial.
A implantação está prevista para o final desta década, com serviços avançando em torno de 2030.
Reservar parte do espectro para comunicações governamentais ligadas ao IRIS² conecta diretamente a política de frequências à estratégia de soberania tecnológica europeia.
Starlink colocou pressão sobre todo o mercado
Boa parte dessa corrida ganhou velocidade com a expansão da SpaceX.
A Starlink demonstrou que constelações de órbita baixa podem se transformar em infraestrutura comercial de telecomunicações em escala global.
A próxima etapa é aproximar essa infraestrutura do celular comum.
Isso muda o mercado.
Operadoras tradicionais passam a enxergar empresas de satélites simultaneamente como parceiras, fornecedoras e potenciais concorrentes.
A relação entre teles e satélites está mudando
Historicamente, uma operadora móvel controlava boa parte da experiência de conectividade.
Ela possuía espectro.
Construía torres.
Operava o core.
Vendia planos.
Atendia o cliente.
Com D2D, aparece uma nova camada.
Uma empresa de satélites pode possuir cobertura continental ou global e se conectar diretamente ao dispositivo do usuário.
Isso redistribui poder dentro da cadeia de telecomunicações.
Um consórcio pode preservar protagonismo das teles
É justamente por isso que uma união entre Deutsche Telekom, Orange, Telefónica e Vodafone seria tão significativa.
Juntas, essas empresas possuem centenas de milhões de clientes, infraestrutura terrestre, espectro móvel, redes de transporte e relacionamentos regulatórios em dezenas de mercados.
Uma aliança permitiria combinar essa escala com recursos espaciais.
Também poderia impedir que cada operadora tivesse de construir individualmente uma estratégia completamente separada.
Mas o acordo ainda não existe
Esse é o principal cuidado necessário ao interpretar a notícia.
Não há consórcio formalmente criado.
As empresas estão em conversas preliminares.
Também não existe confirmação de que todas apresentarão uma proposta conjunta quando a União Europeia abrir efetivamente o processo de atribuição do espectro.
As regras europeias ainda precisam avançar.
Portanto, seria prematuro dizer que as quatro operadoras “formaram uma joint venture” ou que já decidiram disputar conjuntamente as frequências.
Até a Vodafone possui uma questão societária a resolver
A situação da Vodafone mostra como o desenho regulatório pode produzir consequências interessantes.
Sua Satellite Connect Europe é uma joint venture 50/50 com a americana AST SpaceMobile.
Dependendo da versão final das regras, essa estrutura pode não atender aos critérios necessários para disputar o bloco reservado a operadores controlados pela União Europeia.
Uma eventual participação nesse segmento poderia exigir mudanças societárias para garantir controle majoritariamente europeu.
Esse detalhe ainda está em aberto.
2027 será um ano decisivo
As atuais licenças da faixa de 2 GHz expiram em maio de 2027.
Isso cria um calendário relativamente curto para definir regras, estruturar consórcios e preparar propostas.
O resultado poderá determinar quem controlará uma parte importante da infraestrutura D2D europeia durante os próximos anos.
Mais do que uma licitação de frequências, será uma decisão sobre quem ocupará a camada espacial das futuras redes móveis da Europa.
O celular está deixando de depender exclusivamente das torres
Durante décadas, telefonia móvel significava uma coisa simples:
o aparelho precisava encontrar uma torre.
Agora essa arquitetura começa a mudar.
O smartphone poderá procurar uma estação terrestre quando houver cobertura e um satélite quando não houver.
Para o usuário, idealmente, essa transição deverá acontecer quase de maneira transparente.
Para a indústria, entretanto, existe uma enorme disputa acontecendo por trás dessa simplicidade.
Envolve espectro, constelações, redes móveis, bilhões em investimentos e soberania tecnológica.
A possível união entre Deutsche Telekom, Orange, Telefónica e Vodafone mostra que as grandes operadoras europeias entenderam o que está em jogo.
A próxima disputa das telecomunicações não acontecerá apenas entre torres terrestres. Ela também será travada no espaço.



