
A expansão dos pedágios eletrônicos sem cancela no Brasil está abrindo espaço para uma nova onda de golpes digitais. Um levantamento recente identificou 480 sites fraudulentos relacionados ao sistema Free Flow, criados para enganar motoristas e desviar pagamentos de supostas tarifas de pedágio.
O crescimento da fraude chama atenção pela velocidade. No início do ano, pouco mais de 50 domínios relacionados ao esquema haviam sido identificados. Em maio, o número já ultrapassava 400 páginas. Agora, o levantamento aponta 480 endereços fraudulentos, com dezenas de novos sites surgindo em poucas semanas.
A estratégia dos criminosos explora principalmente a falta de familiaridade de parte dos motoristas com o Free Flow, sistema no qual não existem cabines ou cancelas tradicionais. Câmeras e sensores instalados nos pórticos identificam os veículos automaticamente e registram a passagem.
Para quem não possui uma tag vinculada ao sistema, a necessidade de descobrir onde e como pagar a tarifa acaba levando muitos usuários aos mecanismos de busca — justamente onde os golpistas tentam aparecer.
Sites falsos aparecem em buscas por pagamento
O golpe geralmente começa quando o motorista pesquisa na internet termos relacionados ao pagamento do Free Flow.
Os criminosos criam páginas com nomes semelhantes aos de serviços legítimos e podem utilizar anúncios patrocinados para colocá-las em posições de destaque nos resultados das buscas.
Ao entrar no site fraudulento, o motorista encontra um campo para informar a placa do veículo. Em seguida, a página apresenta um suposto débito pendente e oferece o pagamento por Pix.
Um dos fatores que tornam a fraude especialmente convincente é que algumas dessas páginas conseguem apresentar informações reais sobre o automóvel, como modelo e outros dados associados à placa.
A presença dessas informações aumenta a sensação de que o usuário está acessando um sistema oficial.
Cobranças baixas ajudam a enganar motoristas
Os criminosos também evitam apresentar valores muito elevados.
Foram identificadas cobranças próximas de R$ 25, quantia compatível com o que muitos motoristas poderiam considerar uma tarifa legítima ou o acúmulo de algumas passagens.
O objetivo é reduzir a desconfiança e incentivar o pagamento imediato.
Depois que a vítima confirma o Pix, porém, o dinheiro não é destinado à concessionária responsável pela rodovia. Os recursos acabam transferidos para contas utilizadas pelos criminosos, frequentemente abertas em nome de terceiros.
Como os beneficiários e instituições utilizadas podem mudar constantemente, rastrear e bloquear os pagamentos torna-se mais difícil.
Dados verdadeiros tornam o golpe mais perigoso
A utilização de informações reais dos veículos representa um dos aspectos mais preocupantes dessa campanha.
Ao consultar uma placa e receber informações correspondentes ao próprio carro, o motorista tende a acreditar que o sistema possui acesso legítimo aos registros de passagem.
Na prática, esses dados podem ter diferentes origens, incluindo bases anteriormente expostas ou informações obtidas de outras fontes disponíveis aos criminosos.
Esse modelo representa uma evolução das tradicionais páginas de phishing. Em vez de depender apenas de uma identidade visual semelhante à de uma empresa verdadeira, os golpistas utilizam informações corretas para construir uma experiência aparentemente personalizada.
Aplicativo CNH do Brasil ganha importância
Uma das medidas adotadas para facilitar o pagamento legítimo é a integração das passagens do Free Flow ao aplicativo CNH do Brasil.
A ferramenta permite centralizar informações relacionadas às passagens e direcionar o motorista aos canais apropriados para pagamento, reduzindo a necessidade de procurar aleatoriamente por serviços na internet.
Mesmo assim, o usuário precisa permanecer atento.
Golpistas podem aproveitar o nome de aplicativos e serviços oficiais para criar páginas ou ferramentas com nomes semelhantes. Até o momento, o alerta está concentrado principalmente nos sites fraudulentos.
Como evitar o golpe do Free Flow
A principal recomendação é evitar pagar pedágios a partir de links encontrados em anúncios, redes sociais, mensagens de WhatsApp, SMS ou e-mails inesperados.
Quando houver dúvida sobre uma passagem, o motorista deve procurar diretamente os canais oficiais da concessionária responsável pela rodovia ou utilizar os meios oficiais disponibilizados para consulta.
Antes de confirmar qualquer Pix, também é fundamental verificar quem aparece como beneficiário da transferência. Um nome desconhecido, pessoa física ou instituição sem relação aparente com a concessionária deve ser tratado como sinal de alerta.
Também é recomendável desconfiar de páginas que criam senso de urgência, oferecem descontos incomuns ou ameaçam imediatamente com multas e outras penalidades.
Free Flow vira nova oportunidade para o cibercrime
O crescimento de mais de 50 para centenas de páginas fraudulentas em poucos meses demonstra como criminosos digitais acompanham rapidamente mudanças nos hábitos da população.
Sempre que surge um novo serviço digital que exige aprendizado do usuário, aparece também uma janela de oportunidade para engenharia social.
No caso do Free Flow, essa combinação é particularmente favorável aos criminosos: o motorista sabe que passou pela rodovia, sabe que precisa pagar alguma tarifa, mas muitas vezes não conhece o endereço correto para realizar a quitação.
A fraude não depende de invadir o sistema da concessionária. Basta convencer a vítima de que está no lugar certo.
Com a expansão dos pedágios sem cancela pelas rodovias brasileiras, saber identificar os canais oficiais de pagamento passa a ser tão importante quanto lembrar de pagar a própria tarifa.



