
Um homem suspeito de aplicar golpes utilizando a identidade de profissionais do futebol foi preso nesta quarta-feira (2), em Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro, durante uma operação conjunta das polícias civis do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. A ação recebeu o nome de Operação Falso 9.
Segundo a investigação, o suspeito, identificado como Lucas de Oliveira Eduardo, utilizava nomes e fotografias de pessoas conhecidas do futebol para ganhar a confiança de jogadores e dirigentes e, posteriormente, solicitar dinheiro.
Um dos casos investigados envolve diretamente o Grêmio. O homem teria se passado pelo técnico português Luís Castro para entrar em contato com atletas do clube pelo WhatsApp.
Enamorado perdeu R$ 22 mil
O atacante colombiano José Enamorado foi uma das vítimas.
De acordo com a investigação, o falso Luís Castro iniciou a conversa sem pedir dinheiro imediatamente. Durante dias, perguntou sobre a rotina do jogador, sua família e seu desempenho nos treinamentos.
O golpista também elogiava a dedicação do atleta e chegou a pedir que Enamorado não comentasse com os demais jogadores sobre as conversas particulares que mantinha com o suposto treinador.
A estratégia teria ajudado a criar uma relação de confiança e, ao mesmo tempo, impedir que outros integrantes do elenco alertassem o jogador sobre a fraude.
Depois disso veio o pedido financeiro.
O falso treinador afirmou que ajudava um suposto projeto social no Rio de Janeiro por meio da distribuição de cestas básicas e perguntou se Enamorado gostaria de contribuir.
O pedido envolvia 300 cestas básicas, avaliadas em R$ 75 cada, totalizando R$ 22,5 mil.
Uma chave Pix foi enviada ao jogador, supostamente pertencente a uma responsável pela instituição.
Em 7 de maio de 2026, Enamorado realizou a transferência. O dinheiro teria sido enviado para uma conta controlada pela organização investigada e, até o momento, não foi recuperado.
Golpista chegou a mandar Kannemann treinar mais cedo
O caso teve situações ainda mais incomuns.
O zagueiro Walter Kannemann também recebeu mensagens do falso Luís Castro.
Em determinado momento, o suspeito chegou a ordenar que o argentino comparecesse mais cedo ao treinamento no CT do Grêmio, no bairro Humaitá, em Porto Alegre.
Kannemann desconfiou da mensagem e decidiu verificar a informação. Foi então que descobriu que não existia qualquer determinação do verdadeiro treinador para que chegasse antecipadamente ao treino.
A tentativa mostra que a estratégia ia além de simplesmente solicitar dinheiro. O suspeito aparentemente procurava reproduzir situações plausíveis da rotina dos atletas para aumentar a credibilidade da identidade falsa.
D’Alessandro também foi abordado
As tentativas não ficaram restritas ao Grêmio.
O ex-jogador e ex-dirigente do Internacional Andrés D’Alessandro também teria recebido uma abordagem.
Nesse caso, o suspeito se apresentou como uma pessoa conhecida do argentino e iniciou uma conversa que posteriormente envolveria dinheiro.
D’Alessandro, porém, não deu continuidade ao contato.
Com isso, jogadores e pessoas ligadas aos dois principais clubes de Porto Alegre aparecem entre os alvos investigados.
Suspeito também é investigado por caso envolvendo Dorival Júnior
A investigação revelou ainda que o homem preso já era investigado no Rio de Janeiro por episódios semelhantes.
Há registros de solicitações de dinheiro feitas a Dorival Júnior quando o treinador comandava a Seleção Brasileira. Dirigentes ligados à Confederação Brasileira de Futebol também teriam sido enganados.
Esse ponto amplia significativamente a dimensão do caso, indicando que o método utilizado contra integrantes da dupla Gre-Nal pode fazer parte de uma atuação anterior envolvendo diferentes personagens do futebol brasileiro.
Conhecimento sobre futebol ajudava no golpe
Uma característica do suspeito pode explicar a capacidade de manter conversas convincentes com jogadores.
Segundo o delegado Gabriel Lourenço, responsável pela investigação no Rio Grande do Sul, o homem teria sido jogador das categorias de base.
Esse conhecimento do ambiente do futebol ajudaria o suspeito a utilizar expressões, assuntos e situações familiares aos atletas.
É um detalhe importante porque golpes de engenharia social normalmente dependem justamente da capacidade do criminoso de parecer legítimo.
Quanto mais informações o golpista possui sobre a rotina da vítima, maior a possibilidade de convencê-la.
Engenharia social é o principal instrumento
O caso demonstra como golpes digitais nem sempre dependem de invasões sofisticadas, malware ou quebra de senhas.
Muitas vezes, o principal alvo é a própria pessoa.
O criminoso reúne informações públicas, utiliza uma fotografia conhecida, cria um número de telefone e constrói uma narrativa convincente.
No caso envolvendo Enamorado, a solicitação financeira aparentemente surgiu somente depois de vários contatos.
Isso reduz a desconfiança inicial.
Em vez de uma mensagem direta solicitando dinheiro, existe primeiro uma conversa aparentemente normal entre jogador e treinador.
Somente depois que a confiança é estabelecida surge o pedido.
Essa técnica é conhecida como engenharia social.
WhatsApp facilita golpes de falsa identidade
Aplicativos de mensagens também criaram um ambiente favorável para esse tipo de fraude.
Criar uma conta utilizando a fotografia de outra pessoa é relativamente simples.
O número desconhecido pode ser justificado como um telefone novo, particular ou temporário.
Quando a vítima conhece pessoalmente quem está sendo imitado, existe ainda um fator psicológico importante: ela tende a interpretar a conversa acreditando previamente que está falando com aquela pessoa.
Golpistas exploram justamente essa confiança.
No ambiente corporativo, uma modalidade semelhante é conhecida como fraude do falso executivo, quando criminosos se passam por presidentes, diretores ou gestores para solicitar transferências urgentes a funcionários.
IA pode tornar esse tipo de golpe ainda mais convincente
O avanço da inteligência artificial adiciona uma nova preocupação.
Atualmente, criminosos podem utilizar ferramentas de IA para reproduzir estilos de escrita, gerar imagens, clonar vozes e até produzir vídeos falsos.
Um golpe que anteriormente dependia apenas de uma fotografia no WhatsApp pode evoluir para uma ligação utilizando uma voz artificialmente reproduzida.
Isso torna cada vez menos seguro considerar uma mensagem de áudio, fotografia ou até mesmo uma chamada de vídeo como prova absoluta de identidade.
Empresas, clubes e organizações que movimentam grandes valores precisam estabelecer procedimentos independentes para confirmar solicitações financeiras.
Confirmação por outro canal é uma das principais defesas
O caso do Grêmio também apresenta um exemplo simples de prevenção.
Kannemann recebeu uma orientação supostamente enviada pelo treinador, desconfiou e confirmou a informação antes de agir.
Esse procedimento pode ser utilizado para praticamente qualquer solicitação incomum.
Se um diretor solicitar uma transferência pelo WhatsApp, o funcionário pode confirmar pessoalmente ou por outro canal previamente conhecido.
Se um familiar pedir dinheiro utilizando um número novo, uma ligação para o telefone habitual pode esclarecer a situação.
Quando envolve valores elevados, a confirmação deve ocorrer independentemente de quão convincente pareça a mensagem.
Operação Falso 9
A prisão aconteceu durante uma ação envolvendo a 4ª Delegacia de Polícia Distrital de Porto Alegre, a 126ª DP de Cabo Frio e a 143ª DP de Itaperuna, ambas no Rio de Janeiro.
A investigação gaúcha começou porque a 4ª DP é responsável pela região onde ficam o CT e a Arena do Grêmio.
Depois do golpe contra Enamorado, investigadores rastrearam o suspeito e solicitaram medidas à Justiça.
A prisão preventiva foi determinada pela 2ª Vara de Garantias de Porto Alegre.
O suspeito permanecerá no Rio de Janeiro, onde também existem investigações relacionadas a possíveis golpes semelhantes.
Futebol também virou alvo da engenharia social
Jogadores profissionais podem representar alvos especialmente atraentes para esse tipo de fraude.
Além de possuírem maior capacidade financeira, muitas informações sobre suas vidas profissionais são públicas.
É possível descobrir escalações, viagens, treinamentos, técnicos, empresários, colegas de equipe e mudanças recentes de clube apenas acompanhando notícias e redes sociais.
Essas informações podem ser utilizadas para criar abordagens extremamente personalizadas.
O episódio envolvendo Enamorado mostra justamente esse risco.
O criminoso não teria simplesmente solicitado um Pix. Antes, construiu uma narrativa envolvendo futebol, desempenho nos treinamentos, relacionamento com o treinador e posteriormente uma ação social.
Quanto mais elementos verdadeiros são misturados à história falsa, mais difícil pode ser perceber o golpe.
Caso reforça alerta para clubes e empresas
A prisão também deixa uma lição que ultrapassa o futebol.
Com inteligência artificial e uma quantidade crescente de informações pessoais disponíveis na internet, confirmar a identidade de alguém apenas pela aparência de uma mensagem tornou-se cada vez mais arriscado.
Clubes, empresas e organizações precisam criar protocolos claros para transferências financeiras.
Pedidos envolvendo dinheiro devem possuir algum mecanismo adicional de autenticação.
A regra é especialmente importante quando existe urgência, mudança de conta bancária, número de telefone desconhecido ou pedido para manter a conversa em segredo.
No caso investigado, justamente um desses sinais apareceu: Enamorado teria sido orientado a não comentar com outros jogadores sobre o contato direto com o suposto treinador.
A vítima acabou transferindo milhares de reais.
Kannemann desconfiou e verificou.
A diferença entre os dois episódios mostra como uma simples confirmação fora do WhatsApp pode ser suficiente para interromper uma fraude sofisticada de engenharia social.



