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Brasil anuncia R$ 2,3 bilhões para IA com supercomputadores, nuvem nacional e parceria com a China

Novas ações do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial buscam ampliar a capacidade computacional do país, reduzir a dependência de tecnologia estrangeira e criar infraestrutura própria para armazenamento de dados e desenvolvimento de modelos de IA.

O Brasil quer deixar de ser apenas consumidor das grandes plataformas internacionais de inteligência artificial e construir parte da infraestrutura necessária para desenvolver tecnologia dentro do próprio país. O governo federal anunciou nesta quinta-feira (20) um pacote de mais de R$ 2,3 bilhões dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), envolvendo supercomputadores, uma nuvem com tecnologia nacional, formação de profissionais e cooperação internacional.

Entre as principais iniciativas está a aquisição de um supercomputador de aproximadamente R$ 1 bilhão, projetado para ficar entre os equipamentos de maior capacidade mundial para processamento de inteligência artificial. Também está previsto um segundo projeto de supercomputação, no Rio de Janeiro, desenvolvido em cooperação com empresas chinesas.

O movimento amplia uma estratégia iniciada com o PBIA, que já previa investimentos em infraestrutura computacional, capacitação, serviços públicos e inovação empresarial. O plano original destinou R$ 5,79 bilhões especificamente para infraestrutura e desenvolvimento de IA.

Supercomputador de R$ 1 bilhão ficará no Rio Grande do Norte

Um dos pilares do novo pacote é um edital de R$ 1 bilhão para aquisição de um supercomputador dedicado principalmente às necessidades de inteligência artificial.

A previsão divulgada pelo governo é de uma máquina com capacidade de aproximadamente 7,2 mil petaflops, equivalente a cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo. A expectativa é que o equipamento fique entre os dez maiores do mundo em capacidade de processamento voltada à IA.

O equipamento será instalado no Rio Grande do Norte, escolha relacionada, entre outros fatores, à disponibilidade energética necessária para operar uma infraestrutura desse porte.

A intenção não é restringir a máquina aos órgãos públicos. O supercomputador deverá atender também universidades, pesquisadores e empresas, com um modelo de governança responsável por estabelecer quais projetos terão prioridade de acesso.

Isso pode ser particularmente relevante para o ecossistema brasileiro de IA.

Treinar modelos avançados exige milhares de GPUs ou aceleradores trabalhando simultaneamente, algo que hoje representa um custo elevado e frequentemente obriga pesquisadores e empresas brasileiras a contratar infraestrutura internacional.

Brasil quer desenvolver uma nuvem com tecnologia nacional

Outra frente estratégica é a chamada Nuvem Brasileira.

A proposta prevê desenvolver software nacional para uma infraestrutura destinada ao armazenamento e processamento de dados. O projeto será coordenado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, em parceria com o BNDES e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

O Brasil já possui uma estrutura de Nuvem de Governo, utilizada para armazenar informações de órgãos federais em território nacional.

Existe, porém, uma diferença importante.

A infraestrutura atual utiliza tecnologias de fornecedores internacionais instaladas fisicamente em ambientes controlados pelo Estado brasileiro. Na nova proposta, o objetivo é avançar também sobre a camada de software nacional, aumentando o controle brasileiro sobre a tecnologia utilizada.

A iniciativa ainda está em estágio inicial e deverá envolver consultas ao mercado para avaliar a capacidade das empresas brasileiras de participar do projeto.

Soberania de dados entra no centro da estratégia

A discussão sobre uma nuvem brasileira vai além de simplesmente armazenar arquivos dentro das fronteiras do país.

Infraestrutura de nuvem tornou-se um componente estratégico para governos porque concentra sistemas públicos, bancos de dados, aplicações e, cada vez mais, modelos de inteligência artificial.

Na prática, dados, chips e capacidade computacional passaram a representar ativos estratégicos comparáveis a outras infraestruturas essenciais.

O próprio Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação vem colocando soberania tecnológica entre os objetivos do PBIA. A estratégia oficial prevê desenvolver infraestrutura avançada para reduzir a dependência externa e ampliar a capacidade nacional de desenvolver modelos complexos.

Segundo supercomputador terá parceria com empresas chinesas

Outra parte relevante do anúncio envolve a China.

O governo prevê instalar um segundo supercomputador no Rio de Janeiro, em uma iniciativa desenvolvida em parceria com as chinesas Huawei e iFlytek.

O projeto deverá começar a partir de julho de 2027 e prevê aproximadamente R$ 1,2 bilhão em investimentos ao longo de cinco anos.

A infraestrutura deverá ser utilizada, entre outras finalidades, para desenvolver tecnologias de linguagem artificial em português.

Também está prevista a formação de aproximadamente 3 mil profissionais durante o período.

A cooperação adiciona uma dimensão geopolítica ao projeto.

Estados Unidos e China disputam atualmente liderança em áreas como inteligência artificial, semicondutores, computação em nuvem e infraestrutura digital. Para o Brasil, desenvolver capacidade própria ao mesmo tempo em que mantém cooperação com diferentes países pode ser importante para evitar dependência excessiva de um único ecossistema tecnológico.

Português pode ganhar modelos desenvolvidos com infraestrutura local

A criação de infraestrutura para treinamento de modelos também pode ajudar a resolver uma limitação conhecida da inteligência artificial.

Grande parte dos principais modelos generativos do mundo é desenvolvida nos Estados Unidos ou na China e treinada utilizando grandes conjuntos internacionais de dados.

Embora sistemas atuais já apresentem bom desempenho em português, possuir infraestrutura nacional permite desenvolver modelos especializados em idioma, cultura, legislação, serviços públicos e necessidades específicas brasileiras.

O MCTI já havia destacado que um supercomputador nacional permitiria trabalhar com grandes volumes de dados locais e desenvolver aplicações em áreas como saúde, agricultura, clima e segurança.

Esse tipo de capacidade também pode beneficiar universidades e startups que dificilmente teriam recursos para financiar individualmente grandes clusters computacionais.

Brasil também aposta em chips RISC-V

O pacote não está limitado a nuvem e supercomputadores.

O governo pretende incentivar o desenvolvimento de chips utilizando a arquitetura aberta RISC-V, em parceria com a Espanha.

A iniciativa prevê aproximadamente R$ 125 milhões ao longo de quatro anos.

RISC-V é uma arquitetura aberta de conjunto de instruções que permite desenvolver processadores sem depender do mesmo modelo tradicional de licenciamento utilizado por algumas arquiteturas proprietárias.

Para o Brasil, investir nesse ecossistema pode ajudar a desenvolver conhecimento local em uma das áreas mais estratégicas da indústria tecnológica: semicondutores.

Capacidade computacional virou questão estratégica

O anúncio brasileiro acontece em um momento no qual países e grandes empresas estão investindo bilhões de dólares em infraestrutura de IA.

Existe uma razão simples para isso.

Ter pesquisadores e dados não é suficiente para desenvolver modelos de última geração. É necessário também possuir capacidade computacional.

Treinamentos avançados dependem de milhares de aceleradores, redes de altíssima velocidade, armazenamento, sistemas de refrigeração e enormes quantidades de energia.

Por isso, supercomputadores e data centers passaram a fazer parte da própria disputa internacional pela liderança em inteligência artificial.

O PBIA já havia colocado a expansão da infraestrutura computacional brasileira entre seus principais objetivos.

O desafio agora será transformar investimento em capacidade real

Os anúncios colocam o Brasil em uma posição mais ambiciosa na corrida pela IA, mas existe uma diferença importante entre anunciar infraestrutura e transformá-la em vantagem tecnológica.

Será necessário garantir acesso eficiente aos supercomputadores, disponibilidade de aceleradores avançados, energia, equipes qualificadas, governança de dados e continuidade dos investimentos.

Também será fundamental criar mecanismos para que universidades, startups e empresas brasileiras consigam efetivamente utilizar essa capacidade.

Se isso acontecer, o impacto pode ir além da pesquisa acadêmica.

Uma infraestrutura nacional robusta poderia apoiar o desenvolvimento de modelos brasileiros, aplicações governamentais, soluções para empresas e startups de IA, reduzindo parte da necessidade de contratar processamento exclusivamente no exterior.

A ambição apresentada pelo governo é justamente essa: transformar capacidade computacional, dados e conhecimento em maior autonomia tecnológica.

O Brasil já possui uma estratégia nacional para inteligência artificial. O próximo teste será mostrar que consegue construir — e utilizar de maneira competitiva — a infraestrutura necessária para colocá-la em prática.

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