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Google avança com HEIR, tecnologia que permite processar dados sem descriptografá-los

Projeto open source transforma criptografia homomórfica em uma plataforma mais acessível para desenvolvedores e pode abrir caminho para aplicações de IA que processam informações sensíveis mantendo os dados protegidos.

Imagine enviar informações confidenciais para um servidor, permitir que ele execute cálculos sobre esses dados e receber o resultado sem que o servidor tenha acesso ao conteúdo original.

Essa é a proposta da criptografia totalmente homomórfica, conhecida pela sigla FHE (Fully Homomorphic Encryption), uma tecnologia considerada promissora para aplicações que precisam conciliar processamento de dados e privacidade.

O Google vem avançando nesse campo com o HEIR — Homomorphic Encryption Intermediate Representation, um compilador open source desenvolvido para tornar aplicações baseadas em criptografia homomórfica mais fáceis de construir e otimizar.

O projeto utiliza a infraestrutura MLIR, do ecossistema LLVM, e funciona como uma camada capaz de transformar programas de alto nível em operações compatíveis com diferentes tecnologias de criptografia homomórfica.

O potencial é particularmente relevante para inteligência artificial: modelos poderiam, em determinados cenários, realizar inferência sobre informações criptografadas sem que o ambiente responsável pelo processamento tenha acesso direto aos dados originais.

O que é o HEIR?

HEIR significa Homomorphic Encryption Intermediate Representation.

O projeto se apresenta como uma cadeia de ferramentas de compilação para FHE e pretende criar uma infraestrutura comum para desenvolvedores de aplicações, pesquisadores de criptografia, engenheiros de compiladores e fabricantes de aceleradores de hardware.

Em vez de exigir que todo desenvolvedor domine os detalhes matemáticos envolvidos na criptografia homomórfica, o HEIR procura automatizar parte dessa complexidade.

Um exemplo disponível na documentação utiliza Python: o programador define quais valores devem ser tratados como secretos e o HEIR fica responsável por compilar as operações para um backend de criptografia compatível.

Essa abstração é importante porque FHE ainda é uma área tecnicamente complexa, envolvendo decisões sobre esquemas criptográficos, parâmetros, representação de dados e otimização das operações.

Como é possível calcular sem enxergar os dados?

Normalmente, dados protegidos por criptografia precisam ser descriptografados antes de serem processados.

Imagine uma empresa que possui informações financeiras confidenciais.

Ela pode manter esses registros criptografados enquanto estão armazenados e protegê-los durante a transmissão.

Mas, em uma arquitetura tradicional, quando uma aplicação precisa calcular algo sobre essas informações, elas normalmente precisam aparecer em algum ponto como dados legíveis na memória.

É aí que a criptografia homomórfica muda o modelo.

Com FHE, determinadas operações são executadas diretamente sobre os dados criptografados.

O resultado continua criptografado.

Somente quem possui a chave adequada consegue revelar a resposta.

O servidor pode trabalhar sem conhecer o conteúdo

Um exemplo simplificado ajuda a entender.

Suponha que uma empresa queira utilizar um serviço externo para analisar informações confidenciais.

Em vez de enviar os dados em texto aberto, ela os criptografa localmente.

O servidor recebe apenas os valores cifrados.

Executa as operações necessárias.

E devolve um resultado também criptografado.

O proprietário utiliza sua chave para recuperar a resposta.

Em uma implementação adequada, o servidor responsável pelo processamento não precisa receber os dados originais em texto claro.

Esse conceito pode mudar a maneira como aplicações sensíveis são construídas.

Onde a inteligência artificial entra nisso?

Um dos campos mais interessantes para FHE é justamente a inteligência artificial.

Empresas querem utilizar modelos para analisar informações que muitas vezes não podem ser compartilhadas livremente.

Isso inclui registros financeiros, informações empresariais confidenciais, propriedade intelectual e diferentes categorias de dados pessoais.

Uma arquitetura baseada em FHE pode permitir, em cenários compatíveis, que a inferência seja realizada sobre representações criptografadas dessas informações.

O Google já demonstrou anteriormente sua cadeia de ferramentas compilando um modelo TensorFlow Lite para FHE. Em um exemplo divulgado pela companhia, uma rede neural de três camadas realizou inferência privada em aproximadamente 16 segundos.

Não significa que qualquer grande modelo de IA atual possa simplesmente ser executado dessa maneira com desempenho equivalente ao processamento convencional.

Mas demonstra que a técnica já ultrapassou o campo puramente conceitual.

HEIR funciona como uma ponte

O grande desafio é que existem diferentes esquemas de criptografia homomórfica.

O HEIR procura funcionar como uma camada intermediária entre o código desenvolvido pelo programador e essas implementações criptográficas.

Atualmente, o projeto possui suporte a diferentes combinações de backends e esquemas, incluindo OpenFHE, Lattigo, tfhe-rs e Jaxite, além de tecnologias como BGV, BFV, CKKS e CGGI.

Essa flexibilidade é estratégica.

Em vez de criar uma aplicação completamente dependente dos detalhes de uma única biblioteca, desenvolvedores e pesquisadores podem utilizar uma infraestrutura intermediária para experimentar diferentes abordagens.

Google também trabalha em aceleração por GPU e TPU

Outro componente dessa estratégia é o Jaxite, biblioteca open source desenvolvida para criptografia totalmente homomórfica utilizando JAX.

O projeto permite explorar aceleradores como GPUs e TPUs para determinados tipos de processamento FHE e aparece atualmente como um dos backends suportados pelo HEIR.

Isso ataca diretamente um dos maiores problemas da criptografia homomórfica: desempenho.

Processar dados criptografados exige muito mais capacidade computacional do que executar a mesma operação sobre informações em texto aberto.

Aceleração por hardware pode ser fundamental para transformar FHE em uma tecnologia economicamente viável para aplicações maiores.

Privacidade pode ganhar uma nova arquitetura

Hoje, boa parte da segurança de dados depende da confiança no ambiente que executa o processamento.

Uma empresa pode criptografar informações no banco de dados e durante a transmissão, mas precisa garantir que servidores, aplicações e administradores estejam adequadamente protegidos quando esses dados forem utilizados.

FHE propõe outra abordagem.

Se o servidor nunca recebe determinadas informações em texto claro, uma eventual exposição daquele ambiente pode ter consequências diferentes.

Isso não elimina a necessidade de cibersegurança.

Aplicações continuam sujeitas a vulnerabilidades, comprometimento de credenciais, ataques à cadeia de suprimentos e diversos outros riscos.

Mas reduz uma superfície particularmente delicada: a exposição do conteúdo durante o processamento.

Saúde é um exemplo potencial

Considere uma instituição de saúde interessada em utilizar inteligência artificial para analisar dados clínicos.

Enviar informações identificáveis de pacientes para uma plataforma externa envolve questões significativas de segurança e privacidade.

Com uma arquitetura baseada em processamento criptografado, determinados cálculos poderiam ser executados sem revelar diretamente o conteúdo original ao servidor.

O resultado voltaria protegido e seria descriptografado pela instituição autorizada.

Esse modelo pode ser interessante em ambientes regulados, embora sua adoção prática dependa de desempenho, custos, arquitetura e requisitos legais específicos.

Bancos também podem se beneficiar

O setor financeiro apresenta outro conjunto de possibilidades.

Modelos de detecção de fraude, análise de risco e processamento estatístico lidam com dados altamente sensíveis.

FHE poderia permitir novas formas de colaboração entre organizações sem exigir que todas compartilhem diretamente seus bancos de dados em texto aberto.

Duas instituições, por exemplo, poderiam desenvolver determinadas análises preservando maior confidencialidade sobre as informações utilizadas.

Novamente, isso não transforma automaticamente qualquer compartilhamento em algo juridicamente permitido, mas oferece uma ferramenta técnica adicional para construir arquiteturas com maior proteção.

Por que um compilador é tão importante?

A criptografia homomórfica existe há anos, mas uma das barreiras para sua adoção é justamente a complexidade.

O desenvolvedor tradicional não deveria precisar se transformar em especialista em criptografia para implementar uma aplicação simples.

Compiladores procuram resolver esse tipo de problema.

O HEIR tenta fazer para FHE algo semelhante ao papel que compiladores tradicionais desempenham no desenvolvimento de software: transformar uma representação relativamente amigável em operações de nível muito mais baixo.

O artigo acadêmico publicado sobre o projeto descreve o HEIR como uma abordagem unificada para construção de compiladores homomórficos, capaz de integrar diferentes bibliotecas e aceleradores.

Código aberto pode acelerar o ecossistema

Outro aspecto relevante é a estratégia open source.

O código do HEIR está publicamente disponível sob licença Apache 2.0, permitindo que pesquisadores, empresas e desenvolvedores estudem e contribuam com a plataforma.

Repositório oficial do HEIR

O projeto também mantém reuniões e atividades abertas à comunidade, buscando criar uma infraestrutura compartilhada para pesquisas e aplicações envolvendo criptografia homomórfica.

Há, entretanto, uma ressalva importante no próprio repositório: HEIR não é apresentado como um produto oficialmente suportado pelo Google.

O desafio continua sendo desempenho

Apesar do potencial, FHE ainda possui limitações importantes.

A principal é o custo computacional.

Operações sobre informações criptografadas podem ser consideravelmente mais lentas e consumir muito mais recursos do que cálculos tradicionais.

É por isso que compiladores, otimizações matemáticas e aceleradores de hardware possuem papel tão importante.

O objetivo não é apenas tornar FHE possível.

É torná-la suficientemente eficiente para aplicações reais.

HEIR pode aproximar FHE dos desenvolvedores

O avanço do HEIR representa uma etapa importante nessa direção.

A criptografia homomórfica já demonstrou que é matematicamente possível processar informações sem revelar diretamente seu conteúdo.

Agora, o desafio é transformar essa capacidade em uma ferramenta que possa ser incorporada ao desenvolvimento cotidiano de software.

É justamente nesse ponto que compiladores como o HEIR podem ter maior impacto.

Se a complexidade criptográfica puder ser absorvida pelas ferramentas de desenvolvimento e o desempenho continuar melhorando, FHE pode passar de uma tecnologia especializada para um componente de aplicações que lidam com informações altamente sensíveis.

Em uma economia cada vez mais dependente de inteligência artificial e processamento em nuvem, isso aponta para uma mudança importante de paradigma: não apenas proteger os dados enquanto estão guardados ou sendo transmitidos, mas mantê-los protegidos enquanto estão sendo utilizados.

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